A repercussão do filme Michael, de Antoine Fuqua, dedicado à vida do falecido ídolo pop Michael Jackson, é alvo de muita controvérsia. A produção é protagonizada por Jaafar Jackson, sobrinho de Michael e filho do também cantor Jermaine Jackson, um dos três remanescentes do Jackson Five (Tito Jackson faleceu em 2025 e só resta, além de Jermaine, Jackie e Marlon) e de sua banda derivada, os Jacksons.
O filme tornou-se um sucesso de bilheteria, sobretudo no Brasil, onde o "Rei do Pop" é superestimado, mas a crítica chamou a atenção de que a narrativa do longa, autorizada pelos familiares de Michael, explora demais o mito do cantor e não traz uma abordagem realista dele.
Em que pese o fato de parte das críticas feitas ao filme serem bastante negativas, Michael reforçou, para o público brasileiro, é notório o mito que o finado cantor tem no nosso país, mais do que nos Estados Unidos, onde o ídolo, falecido em 2009 quando iria retomar a carreira, passou os últimos anos como uma subcelebridade envolvida com escândalos.
Se o filme Michael tem suas licenças poéticas, como alteração de cronologia e alguns detalhes da vida do cantor, o mito do "Rei do Pop" aqui é moldado feito uma massa de modelar por seus defensores, conforme o "gosto do freguês". Cada um molda o Michael Jackson como quer, o cantor não está mais aqui para reclamar, e mesmo se vivesse nem estaria disposto a tanto.
Aqui no Brasil, Michael é atribuído a qualidades que nunca existiram. Ele nunca foi roqueiro, usou o rock apenas como um trampolim para ele, de origem negra e esbranquiçado por remédios e plásticas, entrar no mundo dos brancos. Tanto que, no rock, Michael sempre representou um estranho no ninho, demonstrava forçar a barra na associação obsessiva e, ao mesmo tempo, pretensiosa, postiça, superficial e canastrona, ao gênero. Acabou ficando tão roqueiro quanto Edir Macedo é um mestre do candomblé.
Inventaram também um Michael Jackson "politizado". Mentira, ele era apolítico. Inventaram um Michael "ateu", quando ele encerrou a vida como muçulmano. Disseram que Michael era um "pesquisador cultural", quando ele era apenas um maqueteiro querendo se apropriar de certos fenômenos musicais, como o Olodum, que só apareceu no clipe de "They Don't Care About Us", mas não gravou participação na versão em disco.
Michael também nunca foi um gênio. Sua "genialidade" nunca foi mais do que um truque de marketing. O cantor até teve bons momentos, mas é exagero defini-lo como "gênio dos gênios", classificação que só é própria do viralatismo cultural que assola o Brasil.
A respeito disso, Paul McCartney, o ex-beatle que gravou com Michael, havia respondido da seguinte forma a um jornalista que perguntou o que os Beatles tinham que Madonna e Michael Jackson não tiveram (e ainda não tem, no caso da cantora):
"Falta-lhes profundidade. Falta-lhes qualidade musical. Parece pretensioso, mas é certo que as músicas de Lennon e McCartney eram muito melhores do ponto de vista musical. Até hoje são modernas, intrigantes, ousadas. Michael Jackson, por exemplo, é um bom cantor, mas sobretudo é um showman. É um grande bailarino, mas não toca nenhum instrumento (…). Eu compus com Michael Jackson e compus com John Lennon e posso dizer que John Lennon era realmente um gênio musical. Ele podia não cantar como Michael Jackson e certamente não dançava como ele — a menos que estivesse bêbado, mas isso era uma outra história —, mas era um homem muito profundo e um músico excepcionalmente habilidoso".
Não se pode atribuir a Michael Jackson a profundidade intelectual, artística e militante de um Bob Dylan. Michael simbolizou o pop coreografado, ultracomercial e simplista que marcou os anos 1980 e que é alvo de tendências nostálgicas de um pop hedonista que se encaixa na juventude identitária dos últimos anos.
Michael nunca foi genial e nem chegou perto disso. A impressão de "genialidade" se dá pela cosmética de seus vídeos, pela pompa da embalagem visual, da habilidade das danças, do sucesso de vendas do álbum Thriller, agora "relançado" ao gosto dos brasileiros médios como um café requentado, oferecendo como "novos" os velhos sucessos "Beat It", "Billie Jean" e "Thriller".
Uma coisa se deve admitir. Michael Jackson foi influente para uma geração de ídolos pop comerciais como Britney Spears, Backstreet Boys, N'Sync e seu ex-membro Justin Timberlake, Beyoncé Knowles e os ídolos do pop japonês e sul-coreano (j-pop e k-pop, respectivamente). Hoje, no entanto, o atual "Rei do Pop", com a morte do antigo titular, não está nos palcos, mas nos bastidores, como o empresário, produtor e compositor Max Martin, que "oferece" o legado de Michael para seus contratados.
Michael Jackson nunca foi genial e sua música não tem a força para durar séculos. Por sorte, o Brasil que fala a gíria "balada", fala "tá ligado" o tempo todo, é fanático por futebol e vê a vida como um eterno parque de diversões, mantém cadeira cativa para o "Rei do Pop", representando um mercado compensador para os EUA, onde o finado cantor se encontra em baixa popularidade, apesar do relativo sucesso do filme.
A Faria Lima deita e rola e vê em Michael Jackson uma grande mina de ouro num país onde ele é supervalorizado até as mais derradeiras consequências. A ponto de muita gente criar um Michael Jackson ainda mais imaginário, fictício e idealizado do que o caçula daquele divertido seriado de animação dos Jackson Five feito há cerca de 50 anos.
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