Presa nas redes sociais e no “jornalismo de escritório” da mídia empresarial - tanto pode ser a Folha, Globo ou Estadão como os “novinhos do clube” como Oeste, DCM, Forum, Carta Capital e O Antagonista - , ocupada principalmente em procurar “paraísos” no Brasil, pouca gente consegue ter uma visão de mundo que se aproximasse da complexidade de nossa realidade.
Se temos “chocolates” sem cacau, mas somente com gordura e açúcar, se temos café sem café, mas com cevada e impurezas, se nossos sorvetes não passam de banha açucarada, nosso jornalismo “imparcial” é uma mistura de marketing, estatística e contos de fadas, e não se está falando do bolsolavajatismo.
Com nossa imprensa e nossas redes sociais, o Brasil tem dificuldade de perceber a realidade conforme os fatos. O que se vê, de forma preocupantemente vergonhosa entre os adultos, é uma defesa de visões agradáveis, e tudo tem que estar de acordo, pois se a realidade desagrada, pode ser o fato mais verídico que a pessoa não aceita admiti-lo como verdadeiro. É aquela coisa: “a verdade que não me agrada, para mim, é mentira”.
Por isso os próprios desvarios humanos não são percebidos porque a nossa office press, preocupada em enumerar qual cidade brasileira seria mais escandinava do que a Escandinávia, não tem interesse em identificar.
Trata-se de um fenômeno da “masturbação pelos olhos”, muito comum e nunca reconhecido por este nome. É quando o ato dexse comover é rebaixado a um divertimento premeditado e por motivos que podem ser banais ou fúteis.
A expectativa prévia de acolher um enredo que “faça chorar” dá o tom desse entretenimento que, muitas vezes, tem caráter fortemente religioso. Vide o martírio de Santa Teresa de Lisieux, pioneira da Teologia do Sofrimento contemporânea, que, diz a lenda, se “excitava” com tanta comoção religiosa durante a agonia de sua doença que a fez morrer aos 24 anos de idade.
No Espiritismo brasileiro, é muito comum as pessoas falarem em ir ver filmes “espíritas” ou assistir às doutrinárias coma expectativa de produzirem lágrimas de comoção. Narrativas do tipo "a mulher que perdeu tudo e ficou só com a fé em Cristo" são iscas perfeitas para esse divertimento traiçoeiro.
Tudo passa a ser um divertimento para pessoas ressentidas com a vida e que passam a ter, num simples ato de chorar, a sua “felicidade”, na busca desesperada por “belezas” que não existem dentro de um contexto de uma beatitude que se torna cafona de tão piegas.
Esses eventos se tornam orgias da fé. Supostas cartas mediúnicas são divulgadas em reuniões dotadas de emotividade tóxica e até de histeria. A masturbação pelos olhos, a comoção tóxica, a felicidade pela morbidez mística fazem do Espiritismo brasileiro um palco para essas sensações tão lamentáveis.
É como se houvessem orgias como as das drogas e do sexo sem que se usem drogas nem praticassem sexo. Afinal, o transe é o mesmo, nesses eventos, e a histeria não é diferente. São farras que se disfarçam pelo aparato do “espiritualismo” e da “fé mais sublime”. Falsas luzes que não passam de trevas enrustidas.
E quanta crueldade não está por trás desse divertimento às custas do sofrimento alheio? Sob a desculpa de conhecer estórias de superação, a tragédia humana vira divertimento e o simples ato de chorar se torna um êxtase barato. Parece uma coisa generosa, mas na verdade é um prazer oculto pela desgraça alheia, ou então uma ingenuidade daqueles que não percebem que caíram numa armadilha emocional.
As pessoas se sentem felizes com esse espetáculo de choros profundos, o triste êxtase mórbido da comoção fácil e premeditada. Guiadas pelo obscurantismo religioso, as pessoas caem na armadilha das "estórias lindas", das "lindas mensagens" e das "lições de vida" e acabam transformando um ato eventual como de se comover em uma coisa banal e fútil, que em nada ajuda na evolução da alma, não raro até prejudicando.
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