O JORNALISMO DE ESCRITÓRIO ATUA COMO UMA EXTENSÃO MAIS OU MENOS FLEXÍVEL DA GRANDE MÍDIA.
Um dos fenômenos que se ascenderam no período de Michel Temer e que não foram superados é o “jornalismo de escritório”, versão mais radical da “liberdade de empresa” que definiu os padrões da mídia venal. Um jornalismo asséptico, insosso, inodoro, supostamente neutro mas com algumas posturas “críticas” que nem de longe deixam de comprometer o status quo.
Ele se vende como “o jornalismo de novos tempos”, tido como “mais responsável” e que trata a notícia como um “produto”. Interage com a overdose de informação das rádios all news, que derrubaram todas as expectativas libertadoras do passado recente, passando a ser apenas versões remix dos telejornais da TV, sendo um jornalismo que, independente da qualidade, vale mais pela excessiva quantidade de notícias que impede o ouvinte de parar para pensar.
O “jornalismo de escritório” tornou-se o sonho realizado dos barões da mídia desde os tempos do AI-5, quando a mídia empresarial protestava não contra a censura ditatorial, mas pela forma como era feita, atrasando os trabalhos e tornando as notícias “velhas” depois da liberação do material analisado.
Depois das demissões em massa e do enxugamento estrutural da imprensa no Brasil, o “jornalismo de escritório”, baseado na ilusão de que escritórios seriam “fábricas de verdades”, versões pós-modernas da “caverna de Platão”, tornou-se o fenômeno dos temos de uma dita “democracia”, formal e hierarquizada, implantada desde 2023 mas com a essência do que passou a valer a partir do governo Temer.
O jornalismo de escritório é expressão da burguesia ilustrada, a mesma elite do atraso que, com o colapso do bolsonarismo em 2022, resolveu desenvolver um complexo de superioridade se achando a elite predestinada do planeta. Essa elite agora apoia Lula por ser este o único que poderá ajudar a burguesia ilustrada a “ganhar o mundo” fazendo turismo com reputação de sociedade VIP.
Portanto, o jornalismo de escritório permite que um padrão de abordagem do mundo, nem sempre fiel aos fatos mas voltado a narrativas que agradam a elite bronzeada e politicamente correta - de vez em quando ela posa de “pobre” para lacrar nas redes sociais - , seja difundido.
A demissão de jornalistas experientes que estão fora da “bolha cheirosa” dos hidrófobos diz muito sobre a higienização da imprensa. Gente com visão de mundo crítica e abrangente e é mais fiel aos fatos foi expulsa porque seus trabalhos estavam acima do que pensava o empresariado e as classes dirigentes em geral.
Pouco importa a realidade viva, importam são as narrativas que se impõem, apenas com pequenas variações. Do ultraconservadorismo psicopata dos bolsonaristas ao esquerdismo fraco e infantilizado dos lulistas, o circo das narrativas propõe um desquite com a realidade diante da supremacia das convicções pessoais.
Sem um jornalismo reflexivo e, quando muito, apenas se limitando a fazer ranquim de cidades, publicar frases de filósofos e especular qualidades de gerações segundo a psicologia, fazem com que a grande imprensa de hoje se transformasse num jornalismo sem vida, quase amorfo, em que a notícia se torna apenas um mero produto de consumo, que pouco acrescenta ao cotidiano das pessoas.
É uma imprensa que dá para ler, mas que não dá para ser embalagem de carne de açougue porque ela é quase toda digital. Saudades das velhas embalagens de carne, que informavam com mais consistência.
Comentários
Postar um comentário