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JAIR BOLSONARO INELEGÍVEL E O CULTURALISMO BREGA


É um grande alívio ver que o ex-presidente Jair Bolsonaro sofreu uma grande derrota na Justiça, ontem à tarde, quando se encerrou um período de votações do Supremo Tribunal Federal, que, por cinco votos contra dois, declarou que o extremo-direitista está inelegível por oito anos, por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação para espalhar mentiras e calúnias.

Durante os quatro últimos dias de junho, os votos declarados foram, a favor da condenação,dos ministros do STF Benedito Gonçalves (relator), Floriano Marques, André Ramos Tavares, Carmen Lúcia e Alexandre de Moraes. Votaram contra Raul Araújo e Nunes Marques.

Este é mais um capítulo do desmonte do bolsonarismo e do lavajatismo, cujo grande ato havia sido a cassação do deputado federal e ex-procurador do Ministério Público Federal no Paraná, o líder da força-tarefa da Operação Lava Jato, Deltan Dallagnol. Outros participantes de canais de informações falsas no YouTube, como Allan dos Santos, do Terça Livre, e membros dos atos golpistas de oito de janeiro passado estão sendo investigados pela Justiça.

Isso, no entanto, é apenas o começo de um processo. Ele não está concluído e exige da Justiça e de outras instituições competentes uma vigilância e uma cautela maior diante da ameaça de um possível golpe dos bolsonaristas. Aparentemente, Jair Bolsonaro e seus aliados estão deprimidos e a militância fascista está enfraquecida, mas é preciso, mesmo assim, que a Justiça atue para puni-los se eles fizerem algum tipo de manifestação golpista.

É necessário vigiar canais nas redes sociais de mensagens caluniosas e planos de possíveis golpes. Recentemente, foram divulgadas mensagens diversas de membros como o amigo e ex-ajudande de Bolsonaro, Mauro Cid, sobre etapas seguintes do golpe iniciado em oito de janeiro. O engajamento dos bolsonaristas ainda preocupa, como havia sido nos protestos combinados envolvendo caminhoneiros e manifestantes acampados em rodovias ou na frente de quartéis.

Outra coisa que se deve fazer é uma reflexão autocrítica sobre os valores culturais que propiciaram o golpismo de 2016. Foi constrangedor ver intelectuais e artistas que se dizem "de esquerda" defender o culturalismo conservador da bregalização, sob a desculpa de "combater o preconceito" achando que o tal "popular demais" seria uma "rebelião popular essencialmente esquerdista e libertária". 

Na prática, porém, esses ideólogos assinavam embaixo nos esquemas de divulgação cultural trazidos pela mídia oligárquica, desde rádios regionais controladas por ricas famílias latifundiárias até apresentadores que apoiaram a ditadura militar, como Sílvio Santos. Não há como Paulo César de Araújo fazer cara de muxoxo para negar o vínculo da música brega com a ditadura militar porque os fatos confirmam, contrariando as fantasias coitadistas do autor do livro Eu Não Sou Cachorro Não.

Enquanto, na televisão, Sílvio Santos "desenhava" os mesmos paradigmas socioculturais do "popular demais" que Pedro Alexandre Sanches servia como um "mascate" na imprensa de esquerda, o dono do SBT, nos anos 1970, havia ganho da ditadura a concessão para esta rede e havia se beneficiado com a aquisição de uma fazenda no Araguaia.

A falácia do "combate ao preconceito" da bregalização cultural serviu como "cabeça de praia" para o golpe de 2016, apesar dos ideólogos do brega-popularesco ou "popular demais" se dizerem alinhados à esquerda e "apoiadores" dos governos do PT. Interesses diversos estavam em jogo, como subsídios do Ministério da Cultura a atividades e coletivos dos intelectuais envolvidos, aumento de reserva de mercado dos fenômenos popularescos e aumento do faturamento das indústrias de cerveja, que são alimentadas pela trilha musical popularesca que toca muito nos bares em todo o Brasil.

O "combate ao preconceito" foi "cabeça de praia" do golpe de 2016 porque o discurso em prol da bregalização cultural, além de glamourizar a pobreza e toda sua simbologia, transformando o que era problema social numa pretensa identidade sociocultural, aconselhava o povo pobre a ficar acomodado no entretenimento popularesco, sob a ridícula desculpa de que os fenômenos popularescos já seriam um "movimento cultural rebelde e político".

Em outras palavras, o povo pobre não precisava lutar por melhores salários, pela reforma agrária, por asfaltamento nas ruas suburbanas, pela instalação de passarelas para pedestres em rodovias próximas a favelas, ou outras causas sociais. Bastava deixar a conscientização política de lado e rebolar o "funk", o tecnobrega, a axé-music, o piseiro, a sofrência etc,

A serviço "free lancer" dos interesses da Folha de São Paulo, mesmo trabalhando na imprensa de esquerda, Sanches inventava que a tal "reforma agrária na MPB" eram os fenômenos popularescos, para que assim evitasse que a verdadeira luta por reforma agrária aconteça. Com esta e outras manobras, de Sanches e outros intelectuais - ver Esses Intelectuais Pertinentes... (Amazon e Clube de Autores), o "combate ao preconceito" dissolveu os movimentos sociais, esvaziou o engajamento das esquerdas e abriu caminho para a revolta direitista.

Daí que as críticas aos fenômenos popularescos, tidas como "preconceituosas" no protocolo ideológico das esquerdas médias desde 2005 - até então o "combate ao preconceito" era privativo de veículos como Globo, Folha, Abril e Estadão - , viraram pautas artificiais para ideólogos do reacionarismo alt-right como Rodrigo Constantino se passarem por "esclarecidos", tentando conquistar a confiança do cidadão indignado.

As lideranças de esquerda acabaram falando sozinhas, afinal o povo que deveria se mobilizar nas ruas estava "ocupado" dançando o "funk", o tecnobrega, a axé-music etc. Isso é que fez o "combate ao preconceito" da bregalização cultural servir de "cabeça de praia" para o golpismo de 2016, ou seja, enganava as esquerdas e dissolvia os movimentos sociais sem violência, fazendo com que a resistência popular fosse eliminada no seu nascedouro, permitindo uma ação livre da direita golpista.

Enquanto o povo pobre dançava ao som dos "filósofos" Valesca Popozuda e Marcio Vítor (do Psirico) - a "alcunha" se deve a dois factoides produzidos por gracinhas postas por professores de ensino médio em provas escolares, em 2014 - , Sérgio Moro forjava seu pretenso heroísmo e Aécio Neves mexia as peças para minar o governo Dilma Rousseff, então reeleita presidenta do Brasil.

Dizer que o "bom" culturalismo dos intelectuais pró-brega contribuiu para o golpe de 2016 parece absurdo e entristece setores das esquerdas médias. Mas Pedro Alexandre Sanches e Sérgio Moro têm mais em comum do que a cidade-natal de Maringá, no interior paranaense. A defesa do tal "popular demais", que trata o povo pobre como uma caricatura digna de núcleo cômico de novelas, foi crucial para desmobilizar o povo e abrir os caminhos para o golpismo que levou Bolsonaro ao poder.

Temos que perceber que o progressismo democrático não pode se ancorar na dicotomia raiva / não-raiva, pois há muita coisa não-raivosa que é traiçoeira para as causas progressistas e democráticas. Devemos tomar muito cuidado, pois muitos amigos das esquerdas estão aí para sabotar culturalmente as classes populares, para assim permitir que o golpe da direita se exerça diante de um povo indefeso.

Recusar-se a pensar assim não é só correr atrás do próprio rabo no culturalismo brega que sabotou as forças progressistas no Brasil. É, acima de tudo, aceitar as mentiras do discurso do "combate ao preconceito", tão mentiroso quanto o "combate à corrupção", sabotando o debate cultural forçando a complacência aos fenômenos popularescos, vários deles patrocinados até por milicianos e latifundiários.

Temos que retomar os debates culturais perdidos com o AI-5, pois era vergonhoso que havia debates culturais nos primeiros quatro anos da ditadura militar enquanto, nos dois governos Lula, debater era desaconselhado sob a pecha de soar "preconceituoso" e, pasmem, "elitista" e até "antidemocrático". Tudo para manter o culturalismo brega dos tempos de Médici e Geisel sob a marquize de um projeto político de esquerda. São essas manobras que permitiram que Jair Bolsonaro, ele mesmo com um jeitão de milico cafona, fosse eleito e fizesse o que fez contra os brasileiros.

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