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VÍTIMA DE CHARLATÃO APENAS MOSTRA A PONTA DO AICEBERGUE DO FALSO ESPIRITUALISMO


Uma coreógrafa holandesa é o que temos mais próximo das denúncias sobre charlatanismo religioso que, lá fora, revelaram casos como os de Leah Remini e do falecido Christopher Hitchens. Estes fizeram denúncias que, até agora, muitos brasileiros têm muito medo de fazer, seja por medo ou por apego a paixões religiosas, mesmo quando estas acabam atuando como um mau agouro em suas vidas.

A primeira denúncia pública contra um charlatão associado ao Espiritismo brasileiro, o também latifundiário João Teixeira de Faria, mais conhecido como João de Deus, se deu em maio de 2018, por uma postagem da coreógrafa Zahira Mous, e começava com a seguinte frase: "Este post (compartilhável) é para expor João Teixeira de Faria como uma fraude e um abusador sexual". O caso de Zahira pode ser lido neste texto do UOL.

A partir daí, começou a cair o império do suposto líder espiritualista, o pretenso "médium" que chegou a enganar muita gente, de personalidades estrangeiras como Oprah Winfrey e Madonna até famosos como a atriz Camila Pitanga - que, por conta de uma tragédia sofrida pelo amigo e colega de novela Domingos Montagner, foi orientado, provavelmente por Carlos Vereza, a procurar o religioso - , chegando a ser homenageado por um documentário narrado por Cissa Guimarães e cujo lançamento contou com farta presença de celebridades.

Atuante desde 1972, João de Deus, que cumpre prisão domiciliar por estar velho e doente, comandava a Casa Dom Inácio de Loyola, em Abadiânia, Goiás, e é acusado de vários crimes: charlatanismo, exercício ilegal da medicina, mando de assassinato, exploração de jogos de azar, enriquecimento ilícito, além de assédio moral, sexual e até estupro e atentado ao pudor. Por esses crimes, João foi condenado, há poucos dias, a 100 anos de prisão, uma sentença, digamos, bastante simbólica, pois o "médium", doente, não irá demorar a morrer.

Tendo sido entrevistada por O Globo, há cinco anos, Zahira relatou constrangedores momentos de crimes sexuais que atingiram ela. Com o tempo, outras vítimas foram encorajadas a denunciar, enquanto Zahira, apesar das ameaças e do risco sofrido pela pesada denúncia, se sentiu com a consciência tranquila diante de tamanha tarefa. Foi a partir daí que o emergente "médium", que chegou a ser capa da série "Os Grandes Nomes do Espiritismo", revista que circula nas bancas brasileiras, começou a decair.

O Espiritismo brasileiro, na sua hipocrisia, tenta agora se livrar desse "anel" que começou a apertar seus dedos até doer. Tenta fazer os brasileiros crerem que João de Deus nunca teve qualquer relação com o chamado "movimento espírita" - grupo que repagina o Catolicismo medieval, vigente no Brasil colonial, sob o rótulo do "kardecismo" - , mas fatos mostram que o farsante de Abadiânia não só estava associado ao Espiritismo feito no Brasil, mas também vinculado a uma personalidade tão idolatrada e festejada, para desespero de muita gente.

É só ver quem apadrinhou João de Deus em matéria de O Globo, de 10 de dezembro de 2018. A associação é verídica, e o apadrinhamento é de arrepiar, pois outro "médium", falecido em 2002 e tido como "lápis de Deus" ou "carteiro de Deus", foi justamente o que acobertou os crimes de João, cometidos desde 1983. 

Não podemos dizer aqui o nome do "médium" de Uberaba, por ele ser uma figura bastante azarenta e profundamente traiçoeira, apesar da reputação dizer o contrário, mas uma dica é que as iniciais do grande charlatão correspondem às consoantes da palavra "caixa".

Na matéria de O Globo, o "médium" de Uberaba, conhecido por uma caridade tão fajuta, precária e tendenciosa quanto a de Luciano Huck, mas que serve de "carteirada" para abafar denúncias e críticas contra o suposto "homem chamado Amor", chegou a assinar o documento - há uma reprodução, que comprova a caligrafia do "médium" mineiro - em 1993, solicitando a doação de um casarão que serviria de "cobertura" para os crimes de João de Deus, blindado por uma instituição "filantrópica".

Lembremos que O Globo, em 1958, chegou a dizer que o "médium" de Uberaba foi "desmascarado pelo sobrinho", Amauri Pena - morto em circunstâncias suspeitas, possivelmente envenenado por algum colaborador de um "centro espírita (kardecista)" de Sabará ou Belo Horizonte, causa mortis antecipada por ameaças divulgadas em reportagem de Manchete, de 09 de agosto de 1958 - , mas a empresa da família Marinho passou a blindar o "médium" nos anos 1970.

Depois que os Diários Associados, à beira da falência, tiveram que se desfazer do seu espólio - a TV Tupi criou um lobby "espírita" de atores, diretores e dramaturgos, como se o "médium" de Uberaba fosse um "filantropo de novela da TV" - , as Organizações Globo vestiram a camisa do "Espiritismo de chiqueiro", reproduzindo, através do Globo Repórter, a glamourização de um falso filantropo a partir da exploração adocicada de farsantes religiosos, a exemplo do que o reacionário britânico Malcolm Muggeridge fez com a megera Madre Teresa de Calcutá.

Ultimamente, o "médium" de Uberaba tem sua principal trincheira de blindagem a Folha de São Paulo, mas, descontado a denúncia de vínculo com João de Deus, as Organizações Globo continuam dando seu apoio, com seus núcleos de dramaturgia, para novelas e cinema, ao Espiritismo brasileiro, com seus enredos constrangedores de apelo moralista ultraconservador. 

A Globo adaptou e fez uma nova versão da novela que "derrubou" a TV Tupi, A Viagem, e eu, infelizmente, tive que ver boa parte da novela. O Espiritismo brasileiro é tão azarento que o ator Guilherme Fontes, que fez um espírito obsessor, sofreu infortúnios surreais quando decidiu ser cineasta, por ironia dirigindo um longa-metragem sobre o fundador da TV Tupi, Assis Chateaubriand, um filme, homônimo e baseado no livro Chatô - O Rei do Brasil, de Fernando Morais, que levou duas décadas para ser concluído.

Voltando ao caso de João de Deus, a coisa não é só preocupante por causa da figura repugnante e grotesca do "médium" de Abadiânia. E se Zahira denuncia que os fanáticos seguidores de João o consideram "inocente", muito mais gente considera seu padrinho "também inocente" o "médium" de Uberaba. 

Até as esquerdas passam pano no "médium", apesar do seu direitismo, que o fez defender e colaborar com a ditadura militar - as "cartas mediúnicas" teriam sido uma "cortina de fumaça" para a crise ditatorial e uma forma de glamourizar as mortes prematuras e abafar a indignação popular com as mortes de presos políticos, alegando que eles "estão melhor no outro lado da vida").

E isso ocorre a ponto de haver tanta gente passando pano no "médium" mineiro que até mesmo um "humilde blogueiro"  professor acadêmico autor de um blogue muito bom (apesar da passagem de pano ao "médium") se esquece que o dito "carteiro de Deus" é um "perigoso paiol de bombas semióticas com o poder explosivo maior do que uma explosão vulcânica que intoxicou a Terra no ano 536 d.C.).

Pois recentemente, segundo noticia Quem Acontece (também da Globo) a atriz e cantora Mariana Rios, apresentadora do programa A Grande Conquista, da Record TV, fez um comentário infeliz a respeito de uma coisinha boba, que é ser acusada de usar Photoshop nas fotos. Ela lembrou-se de ser nascida no Triângulo Mineiro (ela é natural de Araxá) para citar uma frase do charlatão de Uberaba que, em resumo diz o seguinte: "É fácil criticar os erros dos outros e se intrometer em assuntos que não nos dizem respeito, mas quando nos distraímos somos aprendizes que fogem da verdade".

Foi uma confissão, afinal o "médium" de Uberaba nunca passou de um farsante, de um charlatão, de um reacionário que foi beneficiado com um juiz com atribuições similares às de Sérgio Moro para, em 1944, se livrar da cadeia, apesar do arrepiante processo no qual o "médium", para se vingar da resenha jocosa que o escritor Humberto de Campos fez no Diário Carioca a uma antologia poética de 1932 com título de "Párnaso", esperou o autor maranhense morrer para criar uma obra fake supostamente "mediúnica", a psicografake. 

O próprio livro do "Párnaso" e obra pioneira da literatura fake hoje conhecida. Hoje se combate tanto as fake news, mas se deixa passar obras de oportunistas que usam os nomes dos mortos, famosos ou não, para se promover numa falsa caridade, provocando sensacionalismo barato, explorando as fragilidades emocionais dos mais ingênuos e fazendo proselitismo religioso colocando na conta dos mortos coisas e ideias que eles nunca defenderiam e atitudes que eles nunca fariam se estivessem vivos.

Sim. Um ídolo religioso se atreve a criticar os outros, tentar educar os filhos dos vizinhos, a opinar sobre assuntos fora da sua especialidade, se atreve até a fazer "profecias" sobre uma vergonhosa "data-limite" que não cumpriu suas predições, e a criar livros pseudo-mediúnicos para diversos públicos, sejam "infantis" ou "científicos" (vide um sobre a fictícia cidade de Nosso Lar, um arremedo de um bairro nobre que se avizinha a um subúrbio, o "umbral", plagiado de um livro do inglês George Vale Owen).

Mas a "carteirada" religiosa permite o vitimismo. O "médium" de Uberaba se esqueceu que as críticas deveriam ser feitas não por um depoimento em uma reportagem, mas diante do espelho da casa dele na referida cidade mineira. 

Antecipando o próprio Sérgio Moro, o "médium" mineiro sofreu acúmulo de falsas atribuições (Moro era, ao mesmo tempo, o "ativista", o "tira", o "policial", o "cidadão indignado", o "advogado de acusação" e o "justiceiro"), sendo o "filósofo", o "psicólogo", o "conselheiro sentimental", o "profeta", o "intelectual", o "ativista social" etc. Assim como Moro, o dito "carteiro de Deus" praticamente não tinha a ver com as virtudes euforicamente associadas a cada um deles por suas respectivas hordas de fanáticos.

E a "caridade", tão festejada e sempre acionada como desculpa para abafar críticas e intimidar qualquer esforço de denúncia e investigação? A "caridade" que blinda tanto o "médium" de Uberaba consiste em meras doações de mantimentos, tão precárias quanto as de qualquer supermercado de baixo escalão e tão dignas quanto as doações semelhantes que políticos demagogos e corruptos do interior fazem para arrancar alguns votos. São "caridades" que se esgotam em dois dias na despensa familiar, mas as instituições "espíritas" e seus "médiuns" ficam comemorando, presunçosos, por meses e meses.

A avalanche de Abadiânia vai atingir Uberaba. As duas cidades são separadas por meia-hora de percurso por automóvel. Coisas arrepiantes aconteceram e acontecem nos bastidores do Espiritismo brasileiro que muitos, por enquanto, se recusam neuroticamente em denunciar, preferindo se proteger na zona de conforto da omissão pelo silêncio, sob o pretexto de "evitar polêmicas". 

Ninguém discute sequer o reacionarismo do "lápis de Deus" manifesto para milhões de espectadores no Pinga-Fogo da TV Tupi, em 1971, nem mesmo as esquerdas, se alertam para essa gravidade, apesar do reacionarismo do "bondoso homem" fazer o reacionarismo histriônico do Silas Malafaia parecer o Ernesto Che Guevara no "modo ternura". Nem as maiores fábricas de indústria têxtil mostram tantas flanelas como a cidade de Uberaba. Passa-se mais pano no "médium" do que em móveis cheios de poeira.

Mas se temos "médium" João de Deus cometendo crimes sexuais, "médium" famoso de Pau da Lima apoiando Jair Bolsonaro, a farsante Otília Diogo forjando espetáculo de falsa materialização e o arrependido Amauri Pena inicialmente forçado a criar psicografakes, tudo isso tem uma origem, eles agiram assim porque alguém abriu o caminho: é o "carteiro de Deus", o "médium da peruca" de Uberaba, que ninguém gosta de ver alvo de críticas severas, de denúncias nem condenações criminais.

Só que, até agora, o "médium" fugiu da verdade e, por sorte, quase todos os brasileiros o blindam até nos piores erros, pois o ídolo religioso é uma espécie de magnata metafísico, um sujeito destinado a conquistar as "riquezas" do além-túmulo, requisitos suficientes para que ele seja blindado, na Terra, com os mesmos privilégios de impunidade dos magnatas terrenos.

Mas ninguém aguentará esconder essa mentira de mais de 90 anos durante muito, muito tempo. A morte suspeita de Amauri Pena e o fato do tio deste ser inocentado diante dos desfechos de Otília Diogo, João de Deus e afins, mostra o quanto um "médium", mesmo festejado e adorado, tem um quê de desumano, cruel, perverso, e ainda hipócrita, usando do seu vitimismo para demonizar as críticas dos outros.

Pois é fácil um "médium" sair ileso de escândalos que envolvem seu nome, quando na verdade ele é o primeiro que deveria ser investigado e incriminado. Pois foi ele que fez fraudes de materialização ou assinou documentos em favor de fraudes que não eram de sua autoria. 

Ele foi precedente de uma literatura fake cheirando a mofo tóxico, com mais obscurantismo religioso do que as já retrógradas pregações neopentecostais. E se o "médium" não matou nem quis matar o sobrinho, consentiu para que o jovem seja "sacrificado" para o tio deste construir sua gananciosa "escadaria para o céu", com os cadáveres dos mortos servindo de degrau para o charlatão que se dizia "médium dos descamisados".

O "médium" de Uberaba também deve ser responsabilizado pelo fato de João de Deus ter cometido crimes sexuais, porque criou uma marquise religiosa para abafar os escândalos que o farsante goiano já cometia há um bom tempo. Resta que apareça alguém com cara e coragem para denunciar o charlatão de Uberaba, ao invés de haver mais uma passada de pano como a gafe cometida por Mariana Rios.

Ser "médium" no Brasil trocou a qualidade de intermediário para medíocre. O "médium" de Uberaba goza da mais absoluta impunidade por conta da elite do bom atraso que domina o Brasil. Não fosse ela, talvez uma nova Zahira Mous surgisse para denunciar os podres do "lápis de Deus" e esclarecer melhor as suspeitas de "queima de arquivo" que pairam sobre a estranha tragédia de Amauri Pena. Não podemos mais ficar reféns desse obscurantismo religioso, dessa cicuta (ou "chicuta") que com seu gosto melífluo envenenou vidas e consciências humanas. 

Que nos libertemos dessas trevas da fé trevosa o mais rápido que for possível!! Como disse o próprio Allan Kardec, cujo legado foi arruinado no Brasil (e ainda tem um Neggo Tom para fazer Lyon pagar a conta do calote doutrinário de Pedro Leopoldo/Uberaba), "é preferível que um único homem caia do que todos aqueles que se sentirem enganados por ele".

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