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O PARRICÍDIO DE REFERÊNCIAS


Os referenciais de períodos culturais bastante vibrantes estão desaparecendo. Ontem, foi a vez de Jane Birkin, cantora, atriz e modelo britânica, ícone dos anos 1960, nos deixar. Ela foi consagrada pela música "J'e Taime (Mon Non Plus)", um dueto com Serge Gainsbourg que, acreditem, era uma paródia de canção romântica, uma dessas tiradas do saudoso cantor francês, conhecido pelo seu senso de humor. O então casal deixou uma filha, hoje atriz, Charlotte Gainsbourg.

Hoje perdemos, também, o grande músico, o cantor, compositor e multiinstrumentista João Donato, o acreano mais carioca da música brasileira, a um mês de conpletar 89 anos. Ele foi um músico ímpar da MPB autêntica e um dos precursores da Bossa Nova, embora seu estilo pessoal estivesse acima do gênero internacionalmente famoso.

Se nos anos 1980 já doem perdas recentes como as de Andy Rourke, ex-baixista dos Smiths, e até o brasileiro Sérvio Túlio, do Saara Saara, imagine o pessoal dos anos 1960. De uma só tacada, já perdemos nomes como Jeff Beck e David Crosby, e os que ainda estão entre nós já estão bem idosos. Os remanescentes dos Beatles são octogenários, e a dupla Mick Jagger e Keith Richards chegará aos 80 este ano.

Eram tempos movimentados. Bastante hedonistas, sim, e até com certos vícios, como o uso de drogas, nicotina e álcool, mas em compensação havia um humanismo que não existe hoje nesse hedonismo que mais parece um consumismo de emoções, um Carnevale do cenário identitarista do Brasil de hoje que alterna a libertinagem brega com o obscurantismo místico-religioso. É o tempo do não-raivismo que gera uma festa frenética e obsessiva, que fecha os espaços para quem quer pensar, sentir e até chorar.

Vivemos uma fase ruim no Brasil. Sem aqui dizer que o bolsonarismo valeu a pena, pois este blogue foi um dos primeiros a pedir para os brasileiros não elegerem o nefasto ex-presidente, mas havia, pelo menos, algum espaço para o debate humanista e o questionamento do "estabelecido". Hoje esse espaço ainda existe e não é reprimido pela aparente democracia de hoje, mas ele é alvo de cancelamento. Não se pode ser rebelde, solteiro, racional, contestador, no Brasil de Lula 3.0.

Ontem, no dia em que Jane Birkin faleceu, eu li uma coluna no UOL, um dos poucos textos que fogem daquele culturalismo da Folha, que normalmente mostra o quanto a liberdade humana, hoje, é uma concessão da mídia corporativa, um consórcio comandado pela Folha de São Paulo.

O texto, intitulado "Kundera, Lee, Zé Celso - Minhas referências estão morrendo. Agora somos nós", é de autoria de Natália Timerman, que, aos 42 anos, também destoa, pelo jeito, de sua geração nascida entre 1978 e 1983, por sinal praticante do problema que ela mesma cita, o "parricídio de referências".

Pois no Brasil de 1978-1983, veio uma geração que se fechou, culturalmente, num repertório limitado em que os anos 1990 eram a época suprema e os anos 1980 eram apenas a época de sua infância. É uma geração presa ao hit-parade, às zonas de conforto do establishment, educadas culturalmente por Xuxa Meneghel, Jovem Pan, 89 FM e que cresceram num tempo em que a crítica musical passou por um "enxugamento" depois que a antiga revista Bizz deu lugar à pragmática e mainstream Showbizz.

Se tínhamos, nos anos 1980, umas boas dezenas de críticos musicais a mostrar algo além das 100 mais da Billboard, da mesmice do hit-parade roqueiro (defendido sob o eufemismo de "clássicos do rock"), da indigência do pop comercial estrangeiro e da música popularesca no Brasil, nos anos 1990 a crítica musical passou a ser um monopólio de uma meia-dúzia e críticos que tentavam fazer crer que mediocridades como Guns N'Roses, Marilyn Manson, Black Eyed Peas e David Ghetta eram "a salvação do planeta".

Isso porque Natália Timerman se lembrou de referências que soam "antigas" para sua geração. Milan Kundera? Para um público que só lê livros de estudantes-vampiros, cavaleiros medievais atormentados e "garotas do lago" andando perdidas em florestas góticas, soa muito complicado. 

Rita Lee? A tiazona é simpática e divertida, mas nada que tire os olhos da geração 1978-1983 ao brega-vintage de É O Tchan, Michael Sullivan e de "Evidências" com Chitãozinho & Xororó. Uma geração que, se buscar coisas antigas, vai preferir Gretchen e outra Rita, a Cadillac, do que ouvir a sábia "Ovelha Negra", por exemplo.

Zé Celso? Se o ator, diretor e dramaturgo escandalizava para botar o público para pensar e agir - isso principalmente se levarmos em conta a influência do Living Theatre no teatro interativo do fundador do Teatro Oficina - , hoje o escândalo é um fim em si mesmo, tão banalizado que não escandaliza. Independente de ser teatro, atuação ou performance musical, nomes como Inês Brasil e Pabblo Vittar simbolizam aquela provocação que não provoca, mas diverte a turminha do 1978-1983.

Então, como explicar Jane Birkin, João Donato, David Crosby, Jeff Beck, para esse pessoal? Se a turma dos 1978-1983 e quem nasceu depois está "descobrindo" os anos 1980 com exagerada supervalorização - o extremo-oposto da desvalorização generalizada que os fez se apegarem aos anos 1990 e sua continuidade em 2000 - , fica complicado falar nos anos 1960, que o chamado senso comum no Brasil acha que se limitou a 1968. Imagine eu explicar o vibrante ano de 1961, tema do meu livro 1961 - O Ano Que Havíamos Esquecido?

Natália Timerman descreve um tema interessante, o parricídio de referências, analisado pelo escritor David Foster Wallace (não confundir com o marido de Katherine McPhee, David Foster, músico, produtor e compositor) no livro Um Antídoto para a Solidão.

O tema se refere ao desprezo e rejeição de referenciais culturais mais antigos, e isso era um esporte para a geração 1978-1983, para a qual tudo que era produzido antes de 1973 não prestava. E até coisas posteriores, também. Police, Smiths, New Order não prestavam. R.E.M. antes de Out of Time é desprezível, com exceção de um imaginário compacto com as músicas "It's the End of the World", "Orange Crush" e "The One I Love".

Beatles, então, nem se fala. A geração 1978-1983, na sua juventude presa nos anos 1990 e 2000, via com desdém a banda de Liverpool e outros grupos britânicos como Rolling Stones, Who e Led Zeppelin (que, apesar de "mais novo" que os Beatles, era fundado por Jimmy Page, músico britânico atuante na pré-Beatlemania). Só o Deep Purple (de outro pré-Beatlemania, o ex-Outlaws Richie Blackmore) recebia consideração, e mesmo assim sob a humilhante condição de forçado one-hit wonder, com "Smoke on the Water".

Pois a rejeição dos mestres do passado, vivos ou não, e as lacunas que as mortes de vários veteranos deixam para nós fazem a gente refletir sobre o parricídio de referências. Sem ter noção dessa palavra, que só conheci ontem, já refletia sobre esse processo quando, em dezembro de 2002, soube do falecimento de Joe Strummer, fundador do Clash. Essa perda, aliás, forçou o chamado poppy punk a assumir a herança contestatória do punk original, de uma forma ou de outra.

Natália reproduziu um longo trecho que também gostaria de reproduzir, com a integridade do trecho por ela copiado, porque todo o texto mostra uma reflexão contundente sobre os tempos de hoje e sobre a farra hedonista que o governo Lula 3.0 dá aos brasileiros, dentro do clima de "desenvolvimentismo de Cinderela", com a falsa impressão de que, por tudo parecer tão fácil de realizar, apesar do presidente estar secretamente doente e aparentando mais idade que seus 78 anos, o Brasil se tornará facilmente a potência de Primeiro Mundo. Daí o clima de festa semelhante ao narrado neste trecho:

"Para mim, esses últimos anos da era pós-moderna pareceram mais ou menos como aquela situação em que você está no ensino médio e os seus pais vão viajar e você dá uma festa. Por um tempo aquilo é genial, é livre e libertador, a autoridade parental se foi, está derrubada, um festim dionisíaco do tipo o-gato-foi-embora-vamos-brincar. Mas aí o tempo passa, e a festa vai ficando cada vez mais ruidosa, e as drogas acabam, e ninguém mais tem dinheiro para comprar drogas, e coisas foram quebradas e derramadas, e tem uma queimadura de cigarro no sofá, e você é o anfitrião, e aquela casa também é sua, e você gradualmente começa a desejar que os seus pais voltem e restaurem um pouco de ordem na porra da sua casa. Não é uma analogia perfeita, mas a sensação que a minha geração de escritores e intelectuais ou sei lá o quê anda me dando é de que são três da manhã e o sofá está com vários buracos de queimadura e alguém vomitou no porta-guarda-chuvas e nós estamos querendo que a festa acabe. O trabalho parricida dos fundadores do pós-modernismo foi maravilhoso, mas o parricídio produz órfãos, e não há festim que compense o fato de que escritores da minha idade foram órfãos literários durante os nossos anos formativos. Nós estamos meio que desejando que uns pais apareçam de novo. E claro que a gente não fica muito à vontade com esse desejo — quer dizer, o que é que a gente tem na cabeça? Somos assim tão covardes? Será que tem alguma coisa na autoridade e nos limites que nos seja realmente necessária? E aí vem o sentimento que nos deixa ainda menos à vontade, na medida em que vamos gradualmente percebendo que na verdade os pais nunca mais vão voltar — o que significa que nós teremos de ser esses pais".

Evidentemente, o contexto brasileiro é outro. Aqui temos uma "Contracultura de resultados", que é musicalmente precarizada, diferente da Contracultura original. Não temos Jimi Hendrix, Janis Joplin, Richie Havens, mas Anitta, Pabblo Vittar, Wesley Safadão e, quando muito, o trap, espécie de estilo formado por "consórcios" de funqueiros e pela geração menor do hip hop brasileiro (tipo Projota e Filipe Ret), uma falsa vanguarda no país em que até o mofado brega dos anos 1970 é tido como "cult".

Mesmo assim, o clima de festa é intenso. Drogas, cerveja, cigarro, tudo consumido em doses industriais, na expectativa do Brasil entrar no Primeiro Mundo antes do próximo Reveillon, na maior recreação, sob eventual fanatismo futebolístico e religioso e num contexto em que os que se dão melhor na conquista do emprego não dão muita importância ao trabalho que assumem e os que ganham na sorte grande não têm ideia de usar de maneira proveitosa o grande dinheiro obtido e, às vezes, subvalorizado.

Vivemos uma fase horrível em que o Brasil fecha espaços para quem usa melhor o cérebro, não se submete ao "espírito do tempo" festivo de hoje, exerce o senso crítico sem moderação, e se indigna com o que há de errado no establishment de hoje.

Aqui a festa está começando, na casa do garoto boa pinta, que, ao roubar o termo "nerd" dos jovens solitários, compensou dando a estes um novo rótulo o "InCel", com a carga pejorativa dos antigos "quatro-olhos" dos anos 1980. "Nerd" hoje, pasmem, é o valentão da escola que passou a usar demais a Internet e a agir como um palhaço.

Hoje a nossa "boa" sociedade ainda não consegue ver o mundo fora de sua "bolha" festiva, agora que a sala e a cozinha estão superlotadas, só com gente festiva, de bem com a vida, contando piadas e rindo de forma ruidosa. Aqui no Brasil as pessoas nem precisam pensar na "volta dos pais" do anfitrião. Para contrabalançar com o hedonismo libertino ao som, hoje, de piseiro, "funk" e trap, nada como a religiosidade medieval de "madres" de Calcutá e "médiuns" de Uberaba que pregam o quanto sofrer desgraças é "tão bonito".

Bonito, certamente, para quem está fora desse Carnaval brega-identitário da "boa" sociedade dos 30% que já fez seu parricídio de referências sem o menor escrúpulos, inspirando titio Rogério Skylab, ex-vanguardista convertido a um ressentido artístico que, hoje, prefere o brega ao Rock Brasil, a também participar dessa iconoclastia gratuita.

O mais grave é que o parricídio de referências aqui é quase um linchamento cultural, só contido por razões protocolares. Por exemplo, ninguém mais demoniza o Belchior, porque ele virou um guru identitário, aos olhos da patota pós-1978, incluindo os atuais mileniais. Mas Raul Seixas, antigo guru, agora é cancelado, junto com Cazuza, Renato Russo, Tom Jobim e João Gilberto. Mesmo assim, "Como Nossos Pais" nunca é levada a sério, mesmo para a patota que aprecia o atual governo Lula.

Com isso, vemos que a festa já começa ruidosa, com gente rindo alto até altas horas da madrugada, incomodando a vizinhança que quer dormir. Fora desse Carnaval brega-identitário, temos gente pobre lutando para viver, gente com sérios problemas financeiros, pessoas realmente pensantes que são discriminadas, assim como os solteirões que vivem com os pais e passam as noites de fins de semana tomando achocolatado em pó e vendo desenhos do Snoopy.

Enquanto isso, os privilégios caem sobre subcelebridades, humoristas que invadem posições sérias no mercado de trabalho e pessoas que ganham em loterias e promoções de produtos sem ter necessidade disso e sem ter noção do que fazer com o dinheiro, provavelmente gastando muito mal com coisas supérfluas.

É um cenário muito perigoso, se percebermos que esta festa que "nunca acaba" irá acabar um dia, independente dos "pais do anfitrião" voltarem ou não. Só que no Brasil, há a tendência da "boa" sociedade ser muito boa em festejar, mas será péssima em encarar uma ressaca. E temo, muito mesmo, que a ressaca poderá ser dramática e até trágica. Tempos difíceis, fingindo serem fáceis demais.

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