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PRISÃO DE LULA, CULTURALISMO CONSERVADOR E CRISE NO BRASIL


Ontem foi domingo e, aparentemente, não publiquei um texto ou vídeo refletindo o cumprimento de um ano da prisão do ex-presidente Lula.

Mas ontem à noite estive escrevendo a presente postagem.

No Dia do Jornalista, o Sete de Abril de 2018, o ex-presidente que havia servido de vidraça para os maus jornalistas foi preso.

Eu queria sair um pouco do agenda setting e das informações que já se escrevem muito por aí.

Como, por exemplo, o fato de que a prisão foi arbitrária, as acusações foram infundadas, e serviram para evitar que o ex-presidente concorresse a um novo mandato.

Evidentemente, as esquerdas erraram, nos últimos cinco anos, e creio que por boa-fé, embora com uma grande teimosia em manter certos procedimentos ingênuos.

Aderiram ao culturalismo conservador que, sob a máscara do "combate ao preconceito", veio com o papo da "pobreza linda" através da tal bregalização do "popular demais".

Prostituição "linda", alcoolismo "lindo", comércio de piratas e contrabandeados "lindo", barracos caindo aos pedaços "lindos", mediocridade musical "linda", ignorância "linda".

Tudo isso se supunha levantar a auto-estima do povo pobre, reforçar seu ativismo identitário etc.

Mas foi culturalismo conservador e transformação da miséria em uma zona de conforto.

A intelectualidade "bacana" fez a festa da bregalização, sobretudo através do "funk", todo mundo aderiu achando que era progressismo nato.

Só que isso foi culturalismo conservador, que botou assunto nas elites reacionárias, cujos ideólogos não tinham antes o que dizer e a intelectualidade "bacana" lhes deu pauta.

Perdemos o protagonismo. O povo pobre estava distraído com a "ditabranda do mau gosto" do "popular demais" que poucos admitem ser um subproduto da mídia oligárquica.

As forças progressistas ficaram isoladas. Dilma Rousseff perdeu o mandato. Dois anos depois, Lula foi preso.

Por outro lado, Michel Temer e Jair Bolsonaro herdaram as "pautas-bombas" de Eduardo Cunha que constituíram nas "reformas" hoje conhecidas, a trabalhista e a previdenciária, a Escola Sem Partido e o desmonte das garantias sociais e do patrimônio econômico nacional.

O papo de "cultura transbrasileira" que a intelectualidade "bacana" empurrou goela abaixo nas esquerdas hoje abriu caminho para a entrega da base de Alcântara (MA) para os estadunidenses.

O sonho de combinar, pela cafonice, o provincianismo com a americanização, resultou no pesadelo da burrice umbiguista brasileira que ignorou os avisos de meio mundo para não votarem em Bolsonaro.

Essa burrice misturou um narcisismo bairrista-digital, um típico provincianismo de redes sociais, com a americanização do entreguismo cultural, da submissão basbaque ao hit-parade dos EUA, ao consumo voraz de enlatados cinematográficos de valor duvidoso.

E aí vemos as condições culturais que enfraqueceram as forças progressistas.

Nem precisaria ser urubólogo, hidrófobo ou coxinha. Pode-se ser anti-petista fingindo solidariedade, defendendo um Brasil mais brega e bajulando Lula e Dilma, fazendo "bom esquerdismo", cumprindo as regras para ficar bem na fita às portas do Centro Barão de Itararé.

Ou fazer artigos ou mensagens de impacto que pareçam agradáveis à turma do Brasil 247 ou Diário do Centro do Mundo.

"Inimigo interno" é um fenômeno inédito no nosso país, porque aqui os que apunhalam os outros pelas costas pagam rodadas de chope muito antes.

E aí tivemos muitos "bons esquerdistas" que desviaram o povo dos debates públicos e colocaram a falácia de que bastava rebolar o "funk" para fazer "ativismo político".

O povo pobre foi retirado do verdadeiro ativismo, do debate sobre direitos trabalhistas, reforma agrária, políticas salariais, saneamento, urbanismo e qualidade de vida.

Diante disso, o povo pobre ficou na bolha do "popular demais", e os coxinhas se aproveitaram para fazerem, "eles mesmos", o "seu ativismo".

E deu no que deu.

A mesma mídia venal que lançava o "popular demais" que ingenuamente se imaginou ser uma pauta esquerdista foi a que propagou toda a campanha pela Lava Jato contra Dilma Rousseff, contra as empresas nacionais, contra as estatais, contra o PT, contra Lula, contra a esquerda.

A ação alienígena da intelectualidade "bacana" dentro das esquerdas, com o canto-de-sereia de ideias "legais e provocativas" que emulavam técnicas narrativas de Marc Bloch e Tom Wolfe, enfraqueceu as forças progressistas.

Com isso, as esquerdas atuaram de maneira ingênua e foram pegas por uma Operação Lava Jato que surgiu de surpresa.

E, diante disso, as esquerdas perderam o protagonismo e os progressos incipientes mas promissores que haviam no Brasil estão sendo desmontados, aos poucos.

Atualmente, temos uma crise descontrolável. O Brasil, numa situação vulnerável, perde seu patrimônio e até parte de seu território.

A base espacial de Alcântara é, hoje, uma extensão do território dos EUA.

A Petrobras está sendo preparada para ter seu espólio dividido para várias companhias estrangeiras.

A "reforma da Previdência", a bola da vez, tende a submeter os trabalhadores a pagar muito para a previdência privada, para, na aposentadoria (se houver), receberem uma micharia.

E assim temos um Brasil sucateado. Em parte, adotar o cavalo de Troia do "popular demais", armado pela mídia venal, influiu na queda de Dilma, na prisão de Lula e na vitória de Jair Bolsonaro.

O povo pobre não poderia reagir para impedir isso. Havia sido "colocado" no playground brega e foram brincar de "ativismo" na provocatividade mercadológica do "popular demais".

Quando muito, víamos a classe média de esquerda se comportando como o Exército de Brancaleone com manifestações pontuais, que repercutiam, mas de forma insuficiente para frear os efeitos do golpismo político de hoje.

As classes populares não podem defender reforma agrária, não podem ser sindicalistas, não podem fazer movimento estudantil nem defender moradias. E nem podem sonhar em ter um de seus membros presidente da República.

As classes populares só "podem" rebolar o "funk" e permanecer na breguice da "pobreza linda". É o que as elites querem.

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