O jornalismo de escritório, fechado para o mundo e de costas para os fatos, ainda insiste na palavra “balada”, como de vez em quando ocorre no noticiário “sério”, pelo qual não se poderia usar uma gíria, mas ela é usada de forma abusiva, comprometendo a boa escrita jornalística.
Comparo isso com a nova moda de “farmar a aura”, um processo de idiotização cultural num contexto em que o que era imbecil ou medíocre há trinta anos hoje é considerado “genial”. Fala-se que o “sertanejo” de hoje só fala de “encher a cara”, mas os canastrões promovidos a “gênios” Chitãozinho & Xororó tiveram um sucesso chamado “Cerveja”.
A onda de “farmar a aura”, antes de mais nada, é composta de rituais estranhos de rodas de jovens que se competem abanando as mãos, fazendo gestos inusitados ou qualquer coisa que possa chamar a atenção dos amigos. Algo tolo e inócuo, mas que a geração Z brasileira está adotando junto a um vocabulário inspirado em jogos de Minecraft, em sucessos do trap e em reality shows como Ru Paul’s Drag Race.
Fala-se muito a gíria “balada” como se fosse fora desse contexto. Não é. “Balada” foi o “farmar a aura” do seu tempo. Tudo que existiu há 30 anos parece normal e organizado e, por isso, falsamente decente e falsamente genial, mas se vermos o contexto da época veremos que as taos “baladas” das boates brasileiras de 30 anos atrás eram patéticas demais para se tornarem um ideal de vida, como a Faria Lima, lutando com todos os jeitos e recursos, quer atualmente.
Imagine jovens se embriagando e consumindo entorpecentes e vivendo uma curtição vazia, ao som de uma música eletrônica qualquer nota, mas dentro de atitudes “normais”. Só que o nível de serventia social era tão vazio quanto “farmar a aura” e isso não é difícil de entender.
Com a tal “balada”, a vida noturna virava um fim em si mesmo. A diversão não era mais um meio de se distrair e aliviar sua mente, mas transformar a noite num produto de consumo, num processo frenético de escravizar o prazer aos instintos que necessitavam de um ambiente, de um ritual repetitivo de um fundo musical, de consumo exagerado de bebidas e outras drogas e à competição informal de piadas entre uma dança e outra.
A pessoa nem sabe se está se divertindo. A tal "balada" - na prática, uma versão cafona da rave britânica - é um cenário alucinante de luzes fortes que se alternam de forma frenética. O som é extremamente barulhento, em volumes máximos. A pessoa acaba ficando surda e com problemas de visão ao longo do tempo. Nem dá para alguém conversar com seu ou sua pretendente, o que dá para perceber a propaganda enganosa, endossada pela imprensa, de que esses ambientes seriam "ideais" para quem procura alguém para namorar.
A tão alardeada propaganda de vida amorosa era conversa para turista inglês ver e para boi brasileiro dormir. Casais não dançavam mais abraçados, apesar de haver o antigo (e verdadeiro) significado de “balada” como música lenta. O “amor” é apenas uma fachada para relações meramente sexuais, sem afinidades pessoais, sem o caráter humano das relações autenticamente afetivas.
Sob o rótulo de “balada”, a gente vê muitas relações tóxicas, principalmente as conjugais, surgirem nesses ambientes . Boa parte dos feminicídios tem origem no “amor de noitada”, com o machão se passando por aquilo que ele não é, um sujeito descontraído, gentil e bem humorado.
Esse pano de fundo, aliado à ganância de um empresariado ligado à diversão noturna, que usa a gíria “balada” como marca de um pretenso ideal de vida, mostra o quanto os rituais de “farmar a aura” hoje em dia são idiotizantes. Mas não é a idiotização no passado, mais organizada e sob o verniz de normalidade, que é melhor que a de hoje. Não é por ser antiga que se torna uma maravilha, ela se torna ruim de qualquer maneira.

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