Um caso foi divulgado no portal Investi Brasil, que citou a grande repercussão da frase de um jovem, que declarou: “Favela não é cultura. Favela é pobreza, desordem e caos”. O jovem reforçou sua tese argumentando sobre a necessidade de criar políticas habitacionais para a população carente.
Embora o internauta tenha recebido manifestações de solidariedade nas redes sociais, ele sofreu ataques e foi vítima de cancelamento. Tudo porque os descolados não gostaram do comentário do rapaz de que favela não é cultura.
Antigamente, os jornalistas sérios alertavam para o problema crônico das favelas, definidas como uma grande tragédia social, consequente do abandono da população pobre depois da Abolição da escravidão. É um triste efeito da exclusão imobiliária que forçou os pobres a improvisar construções precárias que não têm segurança nem conforto.
Somente nos últimos 25 anos, surgiu a narrativa, com uma forte dose de hipocrisia social, o tratamento glamourizado das favelas, aliado à espetacularização da pobreza, apenas amenizada pelo assistencialismo político, que cria uma cosmética de progresso sociocultural que, todavia, não rompe com a miséria social. É o "ufanismo" das favelas, um subproduto dessa visão etnocêntrica da burguesia (com seus intelectuais orgânicos) que se diz "esclarecida".
A pobreza acaba sendo tratada como “etnia”, como “estilo de sociedade” e, pasmem, como um “ideal de vida”. Sob o aparato do “combate ao preconceito”, a burguesia ilustrada, se achando “mais povo que o povo”, adota uma postura paternalista, porém cinicamente preconceituosa, mesmo por trás de uma visão falsamente generosa e pretensamente objetiva.
Fica a impressão de que, para a burguesia ilustrada, a elite de chinelos Havaianas invisível a olho nu, o desejo do pobre é ser pobre, daí o mito da “pobreza linda” e da favela como “coisa linda de se ver”. Através dessa visão, vieram ideias depreciativas como "paisagens de consumo" e "safáris humanos", com as elites se divertindo às custas do povo pobre. E foi isso que encorajou pessoas como o internauta em questão a dizer que “favela não é cultura”.
Na verdade, a glamourização da favela é um sério desserviço pois se romantiza a pobreza e, ao defender a favela como instituição, isso acaba depreciando os favelados que ficam reféns de uma simbologia que deveria ser temporária mas se torna permanente.
E a burguesia ilustrada, ao investir dinheiro para “melhorar” as favelas, apenas está subornando o.pobre para que ele continue pobre, no sentido simbólico do termo. É como se comprasse o pobre para ele aceitar os elementos socioculturais de sua miséria, com mais consumo é só um pouquinho de cidadania. Isso não traz solução alguma e apenas mostra a falsidade de uma elite egoísta metida a generosa, versão moderna do “amigo dedicado” da obra de Oscar Wilde.

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