Corre um forte medo nas redes sociais. A constatação de que o sistema de valores degradado que atinge o Brasil e deixa muita gente na zona de conforto é em grande parte planejado por executivos e publicitários da Faria Lima faz muitos internautas reagirem e recusarem a admitir essa realidade.
Reagem achando que esse sistema de valores prevalecente em nosso país se desenvolveu com a naturalidade do ar que respiramos e, só por fazer parte do cotidiano de muitas pessoas, seria “impossível” atribuir qualquer manipulação ou qualquer processo de alienação sociocultural.
Tudo parece agradável, mesmo diante de cenários de idiotização cultural, de obscurantismo religioso e de processos de indução ao consumo cego e voraz. Pessoas acordam, passam o dia e vão dormir tranquilas se submetendo a esse processo que lhes parece natural e espontâneo.
A gente vê que o Brasil decaiu muito. Em termos culturais, o Brasil está,no conjunto da obra, pior do que em 1963. Até agora, o Brasil não resolveu seus entulhos culturais dos tempos do governo Geisel. Muitos dos “heróis” brasileiros, mesmo entre as esquerdas, eram ídolos promovidos durante a época do AI-5.
A Faria Lima é muito mais do que uma elite empresarial, é um think tank dedicado não só a promover o consumismo de produtos pela população brasileira, mas também de criar uma engenharia cultural que pusesse freio às tensões sociais dos diversos segmentos sociais deixados de lado da partilha de benefícios sociais e econômicos.
Seria ingenuidade que a Faria Lima, através da rádio 89 FM, tenha se apropriado da cultura rock pela finalidade de “viabilidade econômica”. A ideia verdadeira é domesticar e até imbecilizar o público de rock. Vide a atrocidade de uma campanha da 89 mostrar um bebê de um ano tocando bateria. Para um grupo empresarial que defende a escala 6x1 e, se preciso, até 7x0 no trabalho, tanto faz.
Da bregalização cultural ao Espiritismo brasileiro, as impressões digitais da Faria Lima existem e não dá para negar. A Faria Lima é representada culturalmente a partir dos meios de Comunicação, como TVs, rádios, jornais e revistas e, ultimamente, pelas filiais das Big Techs que controlam as redes sociais.
Há um padrão de valores socioculturais que inexistia ou era menos influente antes do golpe militar de 1964 que, lançado pela grande mídia durante o “milagre brasileiro” e a Era Geisel, foram depois vendidos como “valores perenes” através de um lobby empresarial com relações que vão da religião, do agronegócio e até da mobilidade urbana e do transporte público que se prolongou nos governos Collor e FHC e buscou sobreviver durante os governos do PT.
Seria simplório, tolo e ilusório, portanto, achar que a idolatria aos “médiuns”, a gourmetização da música brega-popularesca, a pasteurização do radialismo rock pela 89 FM e Rádio Cidade, a pintura padronizada nos ônibus e a difusão de gírias como “balada” e dialetos em portinglês (como body, dog, bike etc) não teriam influência da Faria Lima e só refletem “os anseios e emoções das pessoas nas comunidades”.
Não há almoço grátis e, por trás desses fenômenos descritos no parágrafo anterior, há diversos jogos de interesses, que incluem desde o anestesiamento da população até a ocultação da corrupção empresarial, como, neste caso, nos ônibus visualmente padronizados. A Faria Lima é a meca do empresariado e, por isso, estabelece essas relações de interesses para fazer do Brasil um país social e culturalmente devastado, mas dando a falsa impressão de que tudo “está bem”. Enquanto isso, as elites se enriquecem às custas da ingenuidade da multidão.

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