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A MORTE DE CHARLIE WATTS NO CONTEXTO DE UM CULTURALISMO RUIM

CHARLIE WATTS EM 1965 E NOS ÚLTIMOS ANOS DE VIDA.

A morte de Charlie Watts encheu de tristeza o mundo do rock, que já sofre uma crise aguda pelos surtos conservadores de seus músicos.

Os Rolling Stones eram uma das poucas bandas que conseguiram renovar e manter o vigor musical e, hoje, perderam o discreto e pacato Charlie Watts, que não resistiu às complicações de uma cirurgia.

Apesar de pacato, tendo permanecido casado uma única vez e ter sido mais tímido e reservado, Charlie tinha um estilo vigoroso de tocar bateria, dando ritmo à sonoridade robusta da banda dos parceiros Mick Jagger e Keith Richards.

Watts estava na banda desde 1963 e havia se licenciado da turnê para realizar uma cirurgia. O músico havia completado 80 anos de idade em junho passado.

As perdas de grandes músicos de rock se soma à perda de tantos talentos que dificilmente são compensados por jovens à altura.

Na atuação, o Brasil perdeu Paulo José e Tarcísio Meira. No cenário musical dos EUA, o remanescente da dupla Everly Brothers, Don Everly, faleceu sete anos após o irmão Phil.

Sim, eles eram idosos e um dia teriam que nos deixar. Mas num cenário de subcelebridades e ídolos musicais medíocres, isso é assustador.

Afinal, o que é ser baterista num cenário de pop sintético, de "bandas" (sic) sem instrumentistas que dançam e cantam (isto é, com ajuda do computador) enquanto a instrumental é um prato previamente montado por gananciosos produtores, músicos e compositores?

Há um baterista no k-pop? Não. Há um baterista no "funk"? Não. Na pisadinha, a "bateria" mais parece som de jogo eletrônico (games, traduzido para o portinglês).

Um membro do BTS só tocou bateria numa apresentação dentro daquela perspectiva igual a de um bebê que bate no bumbo para agradar os pais e os amigos destes.

Naqueles tempos de rock britânico, ser músico era coisa séria. Watts era um dos nomes do cenário do rock do Reino Unido, riquíssimo e movido por gente que montava bandas desde muito jovem.

Era um cenário cultural muito rico e vigoroso, diferente desse culturalismo que só os jornalistas culturais isentões acham ser uma maravilha. E ainda se arrogam em despejar justificativas aqui e ali.

E temos os chamados mileniais (millenials, em portinglês) que esnobam os músicos veteranos.

Para eles, os Rolling Stones e os Beatles são coisas do passado. Pouco lhes importa se um Charlie Watts já morreu ou se John Lennon, George Harrison e Brian Jones morreram há muito tempo.

"Legal", para os mileniais, é o popularesco de Wesley Safadão, Marília Mendonça, Luan Santana e outros canastrões lacradores. 

Ou algum pop confuso da linha Vitão, Luísa Sonza e o ultracomercialismo de Anitta e Pabblo Vittar.

Ou a MPB carneirinha de Anavitória, Melim e um Tiago Iorc perigosamente parecido com Luan Santana.

"Legal" é a pseudo-vanguarda brega-popularesca de Gretchen, Michael Sullivan, Art Popular, Raça Negra, Chitãozinho & Xororó etc.

Ou o rock fácil de Guns N'Roses e outras mediocridades que rolam nas 89 FM da vida (fico espantado porque só eu consigo reconhecer que a 89 FM, aqui de São Paulo, é uma "Jovem Pan com guitarras").

Ídolos mortos, para os mileniais, são os Mamonas Assassinas, o Mr. Catra, o Cristiano Araújo, o Gabriel Diniz, que só por serem falecidos não significa que viraram geniais ou representam perdas irreparáveis na nossa música, até porque todos sempre foram medíocres.

E aí vemos o quanto os mileniais se acham os reis da cocada preta. É porque seus filhos, se é que os mileniais já os tem, ainda são muito pequenos.

Hoje os mileniais, arrogantes, dizem: "Os Rolling Stones não nos representam. Legal é BTS, Kanye West, Nicky Minaj, Dua Lipa, Cardi B".

Mas quando seus filhos chegarem à idade de terem alguma consciência, ou seja, 13 anos de idade, serão eles que diram que os ídolos dos seus pais mileniais é que "estão passados".

E olha que a maioria da música curtida pelos mileniais é ruim. E não digo isso porque eu tenho 50 anos. Digo isso porque não sinto a menor energia musical dessa patota toda.

E aí vemos o quanto os Rolling Stones foram uma lição de vida, mesmo em suas imperfeições. Mas, musicalmente, a banda sempre foi impecável, mesmo quando tentava fazer algo diferente sempre se manteve numa linha roqueira coesa, firme.

E vemos que Charlie Watts é o primeiro a falecer dos principais músicos que estavam no Desert Trip, aquele festival feito no mesmo 2016 que viu David Bowie morrer, é de doer o coração.

A esperança deve vir nos pós-mileniais que verão em nomes como Nicky Minaj e Wesley Safadão umas grandes palhaçadas e não aceitarão narrativas hipócritas que vendem gente mofada como Michael Sullivan, Raça Negra e Chitãozinho & Xororó como "vanguarda".

A geração pós-milenial que virá por aí será uma geração a deixar o isolamento digital das redes sociais e retomar o contato com a vida real.

Talvez os roqueiros idosos e mortos que fizeram sucesso no passado possam retomar o diálogo com as gerações que virão por aí, que verão na "velha música" o caráter novidadeiro e o frescor e o vigor que o comercialismo musical enrustido e lacrador de hoje não consegue oferecer.

Ficam aqui meus lamentos pelo falecimento de Charlie Watts e a solidariedade com os demais Rolling Stones e com os familiares e amigos do baterista. E permanecem as lições que o músico nos deixou e que valerão para a posteridade.

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