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GOLPE CONTRA DILMA ROUSSEFF É ALERTA PARA O PRÓPRIO LULA


Sim, o golpe contra Dilma Rousseff ocorreu. E por etapas.

A última delas foi há cinco anos, quando ela tornou-se impedida de seguir o seu governo, por definitivo.

De lá para cá, os golpistas promoveram uma série de retrocessos sociais e venderam riquezas nacionais e empresas públicas para empresas estrangeiras.

Os direitos dos trabalhadores foram cancelados. Uma fachada de legalidade permitia abusos de todo tipo, com desculpas de qualquer espécie.

As esquerdas, tiradas do poder, se iludiram com o pátio a que os golpistas reservaram no círculo formalmente democrático.

A partir daí, as esquerdas se infantilizaram tanto que se perderam no identitarismo que contaminou as redes sociais.

Os esquerdistas, salvo aqueles que são mais lúcidos e com visão crítica do mundo, passaram a esquecer que o golpe existiu e passaram a sonhar com uma redemocratização caindo do céu.

O esnobismo infantil que gritou "Fora Temer" se revelou inócuo, embora inicialmente divertido. E Temer completou o mandato rindo da cara do povo brasileiro.

O caminho se abriu para Jair Bolsonaro, que venceu fácil demais através de fraudes eleitorais sob cortesia do estadunidense Steve Bannon e mediante pesquisas eleitorais supervalorizadas pelas esquerdas médias.

Jair Bolsonaro é medíocre e ruim o suficiente para ter sido expulso do poder por um impeachment que deveria ter ocorrido há uns dois anos.

Ele era fácil de ser derrubado. Mas cresceu, sob a conivência da direita moderada e sob o infantilismo das esquerdas.

Agora Bolsonaro planeja um golpe, e pode contar até mesmo com o apoio militar dos EUA.

Pode até ser que o governo Biden fique cauteloso e desembarque do apoio a Bolsonaro assim que este perder o controle, mas a verdade é que os EUA consentem em preferir manter o encrenqueiro presidente, se é para evitar a volta do PT à Presidência da República.

Lula estava lúcido e realista até pouco tempo atrás, com um comportamento exemplar na época em que foi preso ilegalmente, por conta da Operação Lava Jato, e no ano passado, diante do caos da pandemia causado pelo descaso bolsonarista.

Mas Lula começou a se perder quando as esquerdas "chapeuzinho vermelho" passaram a tomar conta da narrativa, sonhando demais e sem um pingo de discernimento da realidade.

Afinal, Lula está fazendo alianças com a direita moderada que, em parte, derrubou Dilma Rousseff.

E, em contrapartida, Lula está falando demais, sobre questões como a regulação da mídia.

E isso é ruim. Lula recorre até ao coronelismo radiofônico baiano (rádios Metrópole e Salvador) para dar entrevistas e busca se aliar com a nata do neoliberalismo não-bolsonarista.

E aí ele fala em regular a mídia, cancelar a reforma trabalhista e o teto dos gastos públicos e seus aliados circunstanciais não gostam.

Sem querer, Lula fez renascer o antipetismo.

Me lembro do filósofo Paul Virilio, quando pensava que toda novidade gera um lado maléfico.

A volta de Lula tornou-se também a volta do antipetismo.

Enquanto as bolhas da esquerda "chapeuzinho vermelho" falam que Lula está dominando tudo, fazendo até a direita se renda a ele, nas ruas a realidade é outra.

Nas ruas o que eu mais vejo é gente irritada com a hipótese de Lula voltar à Presidência da República.

Todos aqueles clichês do imaginário antipetista retornaram com toda a força, e eu, sinceramente, ainda não vi uma pessoa falando bem de Lula.

Mas vi gente falando alto, com aquela retórica do "Luladrão".

As esquerdas não acreditam nisso, acham que o antipetismo é um barulhinho pequeno diante da grande festa identitarista.

Infelizmente, as esquerdas andam iludidas, confundindo o possível com o certeiro.

Se iludem quanto pesquisas de intenção de voto, que sabe-se lá que pessoas entrevistaram ou se realmente entrevistaram, dão favoritismo a Lula em diversas hipóteses.

Se iludem quando o Judiciário aponta indícios de punibilidade legal nos crimes de Bolsonaro, mas ainda não os põe em prática e hesita em fazê-lo.

Perdidas nas bolhas, as esquerdas não sabem que o antipetismo voltou com força e que já demonstra sua evidência em dois episódios.

Um é a reação à constrangedora onda do "Lula saradão", no qual as tietes do petista cismaram com as coxas treinadas pela ginástica. É o complemento da imagem risível de "galã" que as mulheres esquerdistas passaram a conceber do petista.

A mídia resolveu criticar esse burburinho e ainda apontou que o governo do Ceará teria barrado banhistas para deixar Lula e sua namorada Rosângela da Silva, a Janja sozinhos numa praia de Fortaleza para o presidenciável exibir sua forma física.

Que Lula tenha direito à privacidade, vá lá. Mas a interdição da praia serve de gancho para o ódio antipetista, que acusará o petista a proibir que banhistas curtam seu dia de praia.

No caso da regulação da mídia, a Folha de São Paulo despejou um artigo falando mal de Lula e "preocupada" com o que julga ser o risco de um "governo autoritário" pelo petista.

Como é que as esquerdas, de repente, estão tão cegas e arrogantes no seu triunfalismo fantasioso?

A realidade é outra. Lula, ao se aliar com a direita moderada sob o pretexto de "defesa da democracia", está comprometendo boa parte de seu programa de governo.

Neste caso, a terceira via tem uma vantagem em relação a Lula. A terceira via terá a liberdade de ação que Lula, amarrado pelas alianças moderadas, mas conservadoras, não terá.

E é aí que o golpe contra Dilma Rousseff em 2016, assim como o contra João Goulart em 1964, soam como um alerta para Lula.

Os dois começaram com programas de governo conservadores e, quando resolveram ousar, foram expulsos do poder.

Lula tende a seguir o mesmo caminho. Pelas alianças que fez, terá que saldar as dívidas políticas com um programa de governo mais do que moderado, quase um "governo Temer" com um pouco mais de generosidade humana.

Os aliados vão querer cargos ministeriais para os partidos envolvidos, e isso forçará Lula a fazer um governo sem muita força para romper os retrocessos de 2016.

Só que, quando ele começar a romper, o risco de golpe contra ele não é nulo.

Estamos numa situação que mergulha o Brasil no momento mais trágico de sua fragilidade dos últimos anos.

Não acredito que vamos viver na melhor das fases. Temo que o pior esteja por vir.

As esquerdas não podem continuar brincando porque, iludidas, poderão botar tudo a perder justamente por acharem que está tudo ganho.

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