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BRASIL AINDA NÃO SUPEROU PASSADO ESCRAVOCRATA


Ano de 1888. Depois da euforia causada pela assinatura da Lei Áurea, feita pela Princesa Isabel, a realidade voltou a fazer presença. Houve o exagero da atribuição à filha de Dom Pedro II pelo fim da escravidão, se esquecendo que a família imperial, embora defendesse, em tese, a Abolição, sempre se manteve hesitante quanto ao fim do trabalho escravo, dependente dos interesses dos grandes proprietários de terras que impunham esse lamentável padrão de exploração econômica no Brasil.

Outros abolicionistas houve, como os irmãos André e Antônio Rebouças, José do Patrocínio e Joaquim Nabuco, mas também o esquecido e mais audacioso Luís Gama. No imaginário do brasileiro médio, eles são subestimados ou ignorados, mas foram eles que, de alguma maneira, agiram para dar fim a esse longo período de quase 400 anos de escravidão, uma terrível mancha na história de vários países, mas principalmente, e de forma mais dramática, no Brasil.

Apesar de todo esse empenho, como muita coisa que acontece no nosso país, as grandes causas se diluem em ações parciais ou em novidades deturpadas por modos arcaicos de enxergar os fenômenos. Com isso, a Abolição ocorreu sem indenizar os senhores de escravos, mas também sem ressocializar os escravos libertos.

Muitos não percebem o clima de apreensão que os escravos libertos passaram a sentir. Para eles, o futuro era sombrio, e muitos negros perdiam o sono sem saber o que farão na vida. Um misto de desalento e pânico fez com que vários negros voltassem aos antigos engenhos, para ao menos obter trabalho, e mesmo assim era um trabalho degradante, pessimamente remunerado, com refeições cujos preços eram cobrados de forma exorbitante. 

Ou seja, os ex-escravos, na condição de assalariados, ganhavam mal e não podiam se alimentar dignamente. Só para ter um pouco mais de ganho, tiveram que aumentar a carga horária de trabalho, em horários exaustivos e longos, não raro sob o escuro da noite, num Brasil que mal começava a implantar a energia elétrica.

Isso significa que o pesadelo do povo negro, que não era considerado cidadão brasileiro, continuava, apenas mudando as situações. O descaso público contra os ex-escravos criou as condições para o surgimento da pobreza contemporânea, ou seja, do tipo de povo pobre que hoje conhecemos, e as primeiras residências improvisadas davam origem às incômodas e terríveis favelas, hoje exaltadas, lamentavelmente, por movimentos identitários mais preocupados em transformar essas residências em "paisagens de consumo" e "safáris humanos".

Ainda se vive sob a sombra do racismo e da escravidão. Índios e negros que, de forma ao mesmo tempo brilhante e sem receber um pingo de gratidão, deram contribuições à nossa cultura e até ao nosso cotidiano urbano, ainda são vistos com muita estranheza pela sociedade. Até pouco tempo atrás, o Brasil viveu um período de sete anos de golpismo, com um empoderamento e um protagonismo da sociedade reacionária que tentava forçar o retrocesso da nossa História.

A situação é mais complexa que se imagina. Li um texto de Neggo Tom, colunista do Brasil 247, sobre o Espiritismo brasileiro, até então vista como uma religião "moderna", "futurista", "democrática" e "progressista", e supostamente destinada a permanecer incólume à onda de contestações aos movimentos religiosos existentes no Brasil.

Até pouco tempo atrás, a única expressão do mal reconhecida sob o aparato da fé religiosa estava nas religiões neopentecostais. Mas um episódio mudou quando um "médium espírita" muitíssimo idoso, atuante em Salvador, resolveu defender os truculentos terroristas do Oito de Janeiro, classificando a prisão e a criminalização deles como "injusta".

O "médium" (conhecido por uma obra fake falsamente creditada à sóror Joana Angélica) acumulava, desde 2017, incidentes lamentáveis. Chegou a alegar que os naufrágios de refugiados da África para a Europa era "punição por dívidas de encarnações passadas". Apoiou, no seu evento "pela paz", um estranho alimento à base de restos de comida (vários deles estragados ou contaminados por doentes de hospitais), chamado "farinata". 

Não parou por aí. O "médium" baiano disse em entrevista que "é possível ser feliz na desgraça". Fez comentários homofóbicos e anti-esquerdistas em um "encontro espírita". Já exaltou a figura de Sérgio Moro e definiu Jair Bolsonaro como uma "esperança para o país" e o convidou para visitar uma "mansão" que aloja crianças pobres no bairro de Pau da Lima, na capital baiana (já passei perto do local, quando passeava pelo ônibus da linha 1310 Estação Pirajá / CAB).

O "médium" também é amigo e eventual parceiro de outro relativamente mais jovem, de projeção menor, mas que é queridinho da alta sociedade de Salvador, e atua em Pituaçu. Além de sua instituição ter levantado sua sede de maneira irregular, sem alvará (crime conhecido como "invasão de colarinho branco"), ele faz piadas preconceituosas em suas palestras (ridicularizando gordinhas, sogras e louras), e é acusado de pagar mal prestadores de serviços e de aprisionar e explorar crianças e adolescentes negros de origem humilde que ele "aloja" em sua instituição.

Voltando ao "médium" mais idoso, o mais grave é que este "médium" lançou, anos atrás, uma série de livros com o título de "Responde". O "médium" tinha fama de "intelectual" e chegou a ser tratado como "professor" e "cientista". Eu já ouvi palestras com ele, dotadas de um pedantismo grandiloquente, com pretensões de erudição forçada. Muitos acreditaram nesse pseudo-intelectualismo, se esquecendo de que um verdadeiro intelectual nunca tem a pretensão de ter respostas prontas para tudo.

A título de comparação, terminei a trilogia de livros do jornalista (com um forte apetite de historiador) Laurentino Gomes sobre escravidão. Ele forneceu informações consistentes e realistas, mas não tem a pretensão de dizer que fez um "trabalho definitivo" e ele mesmo agradeceu a várias pessoas que não só lhe ofereceram informações adicionais como corrigiram os primeiros textos produzidos por ele em suas pesquisas. 

Com um excelente trabalho, creio que li todos os mais conhecidos livros de Laurentino, ele se mantém na humildade de não querer oferecer "respostas prontas", mas puxar debates e novas pesquisas sobre essa triste face da História do Brasil, a escravidão, num contexto em que, em parte, passa por períodos que o autor já descreveu nas demais obras.

A lamentável atitude do "médium" de Salvador, que fazia turismo para se pavonear em eventos "espíritas" da Europa e EUA, e cujo filme biográfico teve a participação de atores progressistas , causou repercussão negativa, fazendo com que até o Cinegnose - que costuma passar pano em outro "médium", o de Uberaba, que foi amigo e parceiro do hoje bolsonarista - e Henry Bugalho, influenciador digital e escritor, falassem do episódio. Foi esse escândalo que fez Neggo Tom escrever o seu artigo.

Embora bem intencionado em seus argumentos, Neggo Tom erra ao creditar o Espiritismo brasileiro como "fiel" ao pensamento de Allan Kardec. Não é. E nem Kardec queria que o Brasil fosse uma "pátria do Evangelho", essa foi uma invenção puramente brasileira, trazida pelo "médium de peruca" de Uberaba que, mesmo postumamente, recebe mais passagem de pano do que automóvel sujo.

A origem do Espiritismo brasileiro remete mais à deturpação feita pelo desafeto de Kardec, Jean-Baptiste Roustaing, combinada a uma necessidade de acolher dissidentes católicos que, ressentidos com as transformações da Igreja Católica, resolveram relançar o antigo Catolicismo medieval, vigente no Brasil colonial e difundido pelo movimento jesuíta, aproveitando a nomenclatura importada de Kardec.

Esse Catolicismo medieval de botox, que aqui chamamos de Espiritismo, é bem mais igrejeiro que o original, e devemos reconhecer que Kardec teve virtudes, sim, como sua ênfase no pensamento científico e crítico. Já li as obras dele, nos tempos em que eu segui a religião "espírita", entrando em contato tanto com o Espiritismo original como o bastardo feito no Brasil.

Neggo Tom deve ser alguém que nunca seguiu qualquer tipo de Espiritismo. É direito dele ter essa escolha legítima. Ele decidiu analisar os textos de Kardec como um leigo querendo pesquisar e buscando entender um assunto novo, e por isso ele não esteja informado da deturpação que o Espiritismo francês sofreu no Brasil. Até porque essa deturpação ninguém teve coragem de informar oficialmente, nem mesmo o mais empenhado jornalista investigativo, nem mesmo a mais corajosa mídia progressista.

Mas Neggo Tom se esforça em entender a questão do racismo, por ele ser um negro, apesar da pouca profundidade em mergulhar numa religião que não é a dele. O trabalho dele é bem intencionado, mas devemos ter cuidado com certas abordagens, pois existe também o contexto da época.

Sim, Kardec erra feio ao definir o negro como "criatura inferior", só que isso foi socialmente compartilhado de maneira aberta pela sociedade de seu tempo, tanto que mesmo almas consideradas "melhores" caíram na tentação de contrair preconceitos racistas e outros próprios daqueles tempos anteriores aos de estudos antropológicos que depois revelaram aspectos mais humanos e positivos de negros e índios. Esses estudos só começaram a ocorrer a partir da primeira metade do século XX.

Pode não ser a intenção de Neggo Tom, mas existe uma tendência de jogar Kardec contra a parede, talvez por um secreto ressentimento de quem entra em contato com os questionamentos graves contra o Espiritismo brasileiro. Essa tendência fica parecendo aquela coisa: "não podendo inocentar o culpado, se culpa o inocente ou um culpado menor".

Já vi exemplos assim no radialismo rock e na cultura musical. Quando se questionava a canastrice da Rádio Cidade, do Rio de Janeiro, na abordagem do rock, seus fanáticos seguidores, bastante temperamentais, inventavam que até a Fluminense FM, rádio de rock original, autêntica e até hoje nunca superada em sua qualidade de programação, "fazia muito jabá".

Recentemente, as críticas aos fenômenos popularescos, como a pisadinha, o "funk", o brega-vintage (tipo Michael Sullivan, Bell Marques, É O Tchan e Chitãozinho & Xororó), eram rebatidas por furiosos e idiotizados internautas das redes sociais que não aceitavam que tais fenômenos fossem creditados como "comerciais". Investindo em fake news, inventavam que "comercial" era a Legião Urbana, pela disputa judicial entre dois músicos remanescentes e o filho de Renato Russo.

Sim, com toda a gravidade dos comentários racistas de Kardec, que parecem supostamente seguir o pensamento de intelectuais eugenistas muito em moda naqueles tempos, há no Brasil uma preocupação em botar no pedagogo francês discípulo de Pestalozzi uma culpabilidade acima da real, com o secreto objetivo de poupar os "médiuns" brasileiros, como se estes fossem "vítimas" de erros atribuídos ao professor de Lyon que nem sempre ele cometeu.

Considero o "médium" de Uberaba, o festejado "homem chamado Amor" ou o "lápis de Deus", como o pior de todos os que se envolveram com o Espiritismo de qualquer natureza. Embora ele seja considerado até um "Herói da Pátria" - título forçadamente incluído por influência de Franco Cartafina, parlamentar ligado ao coronelismo de Uberaba e que votou a favor de várias propostas do temeroso governo de Michel Temer - , o "médium" possui aspectos muito sombrios que não custa repetir até o pessoal memorizar de vez.

O "médium" foi pioneiro na literatura fake, lançando livros que, creditados "espiritualmente" a escritores e poetas famosos, não apresentavam as caraterísticas originais desses autores. Uma das vítimas, Humberto de Campos, teve o maior número de livros, e a malandragem virou um caso de polícia em 1944, mas o "médium" não só foi beneficiado pela impunidade como conseguiu assediar e enganar o filho do mesmo nome do lesado escritor, que, tomado de fascinação em favor do "médium", cancelou os processos judiciais recorrentes contra o charlatão de Minas Gerais.

O "bondoso médium" também apoiou fraudes de materialização e era protetor de farsantes, mas saía de fininho quando um escândalo chegava aos seus pés. Seu sobrinho Amauri Pena quase virou discípulo mas este, ao denunciar o tio e outros dirigentes "espíritas", sofreu ameaça de morte, como informou Manchete em 09 de agosto de 1958. Daí sua morte ter sido suspeita, provavelmente sob as ordens de um dirigente "espírita" que tutelava o "médium" e executada por um funcionário de um "centro espírita" de Belo Horizonte ou Sabará, em 1961.

E, para que não haja gafes como um comentarista convidado do Brasil 247 chamar o reacionário "médium" mineiro de "comunista", devemos lembrar, pela enésima vez e sempre que for necessário, que o "lápis de Deus" recebeu homenagens entusiasmadas da Escola Superior de Guerra (!), "cérebro" da ditadura militar, que estava em sua fase mais repressiva, em 1972.

Isso porque o "bom médium", então prestes a ostentar o traje brega de ternos brancos, peruca brilhante e os mesmos óculos escuros do igualmente reaça (mas tido como "esquerdista" nos últimos anos) Waldick Soriano, defendeu apaixonadamente a ditadura militar, com uma convicção que teria feito Cabo Anselmo ficar de queixo caído. 

O "médium" produziu uma mensagem fake atribuída ao "espírito Castro Alves", uma insanidade por ter sido o nome de um abolicionista usado para defender um regime que apoiava métodos de opressão semelhantes aos dos antigos senhores de engenho. Mas o apoio mais explícito se deu em 1971, num programa da TV Tupi, em que o "bondoso médium", cuja conduta ranzinza desmascara a ilusória imagem de "suavidade e candura" a ele atribuída, pedia para "rezarmos pelos militares (Brilhante Ustra incluído, por associação), que estavam fazendo do Brasil um 'reino de luz' (?!)".

O "médium" de Uberaba, que também trabalhava como inspetor de gado zebu, a serviço dos "coronéis" (equivalentes atuais dos antigos senhores de engenhos) da cidade mineira (hoje um dos maiores redutos do bolsonarismo em Minas Gerais, tendo dado vantagem a Jair Bolsonaro nas votações muncipais de 2022), havia, naquele programa da TV Tupi, atacado João Goulart e os movimentos operário, camponês e sem-teto. Ver que as esquerdas chegam a prestar adoração a esse "médium" é um acinte típico da "síndrome de Estocolmo".

Ainda em 1971, o "bondoso médium" foi desmascarado, na revista Realidade de novembro daquele ano, por ninguém menos que o famoso repórter José Hamilton Ribeiro, que durante anos participou do Globo Rural. Entre outras coisas, Zé Hamilton pediu ao "médium" produzir uma "psicografia" de uma pessoa que nunca existiu e o "médium" simplesmente "psicografou". Na mesma reportagem, foi divulgado um laudo médico que comprovou que a suposta mediunidade do "lápis de Deus" era efeito de distúrbios mentais que produziram alucinações.

O bolsonarismo dos "espíritas" de hoje tem muito menos influência de Allan Kardec do que do "bondoso médium" de Pedro Leopoldo e Uberaba, este uma das figuras mais reacionárias de toda a História do Brasil. Seus mais de 400 livros mostram um Brasil ressentido de não ter vivido a Idade Média, pois tais obras mostram ideias dignas do século XII. Apesar da falsa imagem "progressista", o "médium" de Minas Gerais era racista (apesar da pele parda), machista e fascista. E lamentável como um pretenso profeta, diante do fiasco de sua "data-limite" confirmado postumamente em 2019.

Graças ao "lápis de Deus", que acobertou João de Deus quando denunciado pelos seus crimes já em 1993, oferecendo-lhe a Casa Dom Inácio em Abadiânia, o Espiritismo brasileiro se rebaixou a uma seita da "sordidariedade", uma vergonha institucional que nada tem de intelectualizada, sendo mais um Catolicismo medieval de botox, que se torna um envoltório para os mais trevosos preconceitos sociais. 

Graças ao "médium" de Uberaba, criaram-se condições para a sobrevida do legado obscuro da ditadura militar, mesmo atravessando o período da redemocratização e contaminando o imaginário das esquerdas (o "médium de peruca" é um dos "brinquedos culturais" idolatrados pelos esquerdistas médios), e que influíram na ascensão do bolsonarismo e dos retrocessos golpistas.

Daí que vemos exemplos como o que ocorreu em Bento Gonçalves, cidade do interior gaúcho, quando um empresário da cidade de Valente, no interior da Bahia, criou uma "oferta de emprego" supostamente ligada a uma empresa que prestava serviços para vinícolas gaúchas do porte da famosa Aurora.

150 baianos foram trabalhar em Bento Gonçalves e se depararam com instalações degradantes, sujas e sem conforto, além de receberem remuneração atrasada, sofrerem agressões físicas e maus tratos de toda espécie, ameaças de morte e punições como choques elétricos e spray de pimenta. Eles fugiram e denunciaram a trágica realidade à Justiça. O empresário foi preso e o caso está sob investigação.

Para o "bondoso médium" de Uberaba, talvez os 150 escravizados fossem, pelo juízo de valor do "iluminado carteiro das plêiades espirituais", a reencarnação de "senhores de engenhos" gaúchos do século XIX, em alegação feita sem fundamento nem misericórdia.  O "iluminado homem" sempre pregava para as pessoas sofrerem caladas e submissas as piores desgraças, sob desculpa de "um futuro melhor". Para um religioso desse nível, escravidão é "sinônimo de libertação".

É o mesmo julgamento infundado contra as vítimas de um incêndio num circo em Niterói, no fim de 1961, acusadas levianamente de terem sido "romanos sanguinários" do século II. E o "médium" foi premiado com o nome de uma precária e nada ciclista "avenida de Ciclovia" no bairro niteroiense de Piratininga, na Região Oceânica, oferecendo um atrativo para milicianos, estupradores e latrocidas que atuam nesta região. O medievalismo do "médium de peruca" encontra afinada sintonia num Brasil que, ainda retrógrado, não superou seu passado escravocrata.

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