Uma estranha mania dos jovens brasileiros de hoje em dia é cantar os sucessos comerciais infantilizados do passado. Músicas como "Superfantástico", "Lua de Cristal", "Xibom Bom Bom", "Ilariê", "Não Se Reprima" e outras canções similares de repente passaram a ser cantadas por gente na faixa dos 18 aos 30 anos, não só por pretensa nostalgia de algo que não eram nascidos ainda para vivenciar, mas dar um pretenso tratamento de "canções de protesto".
De repente enfrentamos situações surreais como o de Xuxa Meneghel, que nunca foi uma cantora de verdade e, de repente, passou a ter uma reputação, entre a juventude woke, como se fosse uma "Joan Baez brasileira". Sim, isso mesmo. O FEBEAPÁ, o famoso "festival de besteira", sobrevive décadas depois da perda do seu criador Sérgio Porto, e vivemos um processo de imbecilização cultural sem precedentes.
Já não era suficiente o brega vintage, a nostalgia calculada pelos homens de negócio e pela mídia venal, com a MPB acolhendo de braços dados um Michael Sullivan que queria destruí-la, tal como galinhas felizes ao verem uma raposa se aproximando delas? Ou ver jovens imitando o vestuário de Woodstock e cantando "Evidências" na versão de Chitãozinho & Xororó, uma dupla que nenhum hippie, por mais careta que tenha virado, se encorajaria a apreciar?
E aí vemos canções como "Lua de Cristal" promovidas a "canções de protesto", não se sabe por que motivos. Será por causa de versos como "Vamos com vocês / Nós somos invencíveis, pode crer / Todos somos um / Por isso não existe mal nenhum"? Mal nenhum? É uma indireta contra uma canção de Cazuza, definido como um "chato" pela comunidade woke ao lado de Renato Russo, este por ironia aniversariante de 27 de março tal como Xuxa?
E por que essas canções passaram a ser cultuadas por jovens adultos e por que, por outro lado, grupos como É O Tchan passaram a perseguir um pretenso status cult? De repente essas músicas tão tolas para quem tem um pouco mais de dois neurônios em funcionamento passaram a ser ouvidas por gente de nível universitário?
Isso se deve porque, no ano passado, o influenciador digital Felipe Bressanim Pereira, o Felca, denunciou outros influenciadores que estimulavam a sexualização precoce de crianças, além de forçá-las a ter um comportamento adulto. Felca denunciou o cantor de pagofunk Hytalo Santos de criar um reality show com crianças adotando comportamento típico de pessoas adultas.
O caso gerou uma série de discussões e causou impacto até no chamado "combate ao preconceito", pois o "funk" e o "pagodão" baiano estão envolvidos nas denúncias que vieram a partir do exemplo de Felca, criando problemas para a expressão desses gêneros para o público infantil.
Isso fez com que os empresários ligados a esses fenômenos tivessem que redirecionar o público. E como no Brasil se trabalha um clima de parque de diversões, com o consumo do entretenimento obsessivo, então tanto faz vender essas canções infantilizadas para um público de jovens adultos.
Digo canções infantilizadas porque elas nunca foram canções de fato infantis, que valorizassem a verdadeira infância e buscassem tratar as crianças com dignidade e respeito. As canções infantilizadas sempre carregaram algum apelo de sexualização, de apelo ao consumismo e de diretrizes de comportamento adultos que as crianças ainda não compreendem nem estão preparadas para assumir.
E aí o mercado brega-popularesco, marcado por sua hipocrisia, transforma músicas infantilizadas em "canções de protesto", enquanto lá fora, por ironia, atores juvenis na casa dos 25 anos estão descobrindo nomes como Fleetwood Mac, Velvet Underground e Crosby Stills Nash & Young. E aqui tem gente graúda achando que "A Melô do Piripipi" é vanguarda. Triste Brasil...
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