Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”.
Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário.
Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”.
Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan", "Não Se Reprima", "Superfantástico", "He-Man" e outros se vendem como "relíquias cult" é assustador, vendo a que ponto se chegou a imbecilização cultural brasileira.
Tudo isso é trabalhado pelos engenhosos publicitários da Faria Lima como pretensas vanguardas. Chegou-se a requentar o finado ídolo Michael Jackson, relançando antigos sucessos como se fossem “músicas novas”, persistindo também a falsa imagem de “roqueiro” que muitos insistem em ver no cantor. Sem falar da supervalorização do Guns N’Roses, que nunca foi banda de rock clássico que se fala por aí de maneira tão irresponsável.
Sim, o “ar puro” que a geração Z, mesmo fumando cigarros, respira vem do ar condicionado dos escritórios empresariais do Itaim Bibi. Para muitos, soa chocante constatar que as crenças, emoções e modos de vida dos brasileiros dos últimos anos tenham sido fruto de estratégias de logística publicitária da Faria Lima.
Até a noção de “vanguarda” soa patética, trazida por uma elite empresarial que luta até para manter viva uma gíria caduca e cafona como “balada”, da qual muitos falam quase cuspindo na cara do outro. Uma “vanguarda” que nada tem de , vanguardista porque se fundamenta justamente na retaguarda artística e cultural, como na música brega-popularesca.
Uma dupla claramente conservadora como Chitãozinho & Xororó seria rejeitada pela Nação Woodstock. Quem conhece a história de Woodstock sabe que o festival de 1969 primava pela excelente qualidade musical e pelo caráter arrojado dos artistas que lá se apresentavam. Muito diferente do estilo careta e antiquado da dupla breganeja paranaense, que mesmo emulando folk rock o faz de um jeito canastrão e completamente cafona, forçado e culturalmente mofado.
Com toda a boa vontade, um nome como João Gomes não tem um milésimo do talento e da espontaneidade de um Chico Science e, como supostos aspirante a emepebista, é um pau mandado que em nada acrescentaria à música nordestina que já teve Luís Gonzaga, Jackson do Pandeiro e, num passado recente, Moraes Moreira. Pode haver trainee que dificilmente um ídolo popularesco vai se equiparar a um nome autenticamente MPB.
Neste contexto, citamos até o finado Lindomar Castilho que só é comparável e equiparado ao também finado produtor Phil Spector pelo crime de feminicídio. A mediocridade cultural mostra que o apoio da classe média abastada é inútil e infrutífero, pois o mérito vai para essa elite, que apenas ensina uma “linha de montagem” para os ídolos popularescos “melhorarem artisticamente”. Mas tudo soa sempre postiço.
Portanto, tratar a música brega-popularesca como “vanguarda” só faz sentido nas mentes solipsistas e etnocêntricas das elites intelectuais que pregaram o tal “combate ao preconceito”.
Estas é que nunca viram os bregas por perto, de tão ocupadas com aquilo que chamam de “MPBzona”. Quiseram, nos seus juízos de valor, adar uma classificação fora da realidade com base nas suas impressões pessoais. E esses intelectuais “bacanas” ainda se gabam de achar que têm a “visão mais objetiva sobre cultura”.
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