JOÃO GOMES E JORGE DU PEIXE, DA NAÇÃO ZUMBI - O "coitado" da situação não é o que muita gente imagina ser.
Ultimamente, ou seja, nas últimas semanas do ano passado, a mídia noticiou com certo entusiasmo as apresentações da banda de mangue beat Nação Zumbi com a participação do cantor brega-popularesco João Gomes, que agora virou um queridinho de setores da imprensa cultural, da intelectualidade e de setores da MPB mainstream.
João virou o hype da vez, desfilando ao lado de descolados de plantão. Dançou com Marisa Monte, fez dueto com Vanessa da Mata e Gilberto Gil e até com som de arquivo de Luís Gonzaga. E fez até pocket show em uma livraria, para reforçar esse novo marketing do popularesco pretensamente cool.
Isso lembra o que foi feito antes com Zezé di Camargo, vinte anos atrás. Então lançando o filme Os Dois Filhos de Francisco, do finado diretor Breno Silveira, Zezé e seu irmão Luciano gravaram um disco duetando com artistas de MPB e circulou nos meios artísticos e intelectuais durante um breve período. Até o historiador “isentão” Paulo César de Araújo definiu Zezé di Camargo e Luciano como “sofisticados”.
A ironia é que o hype de João Gomes se dá justamente quando Zezé do Camargo, que se vendia em 2005 como uma figura ao mesmo tempo “humanista” e “poética”, escondendo seu apoio a Ronaldo Caiado com o apoio condicional aLula, hoje virou alvo de cancelamento, justamente quando passou a ser bolsonarista e desistir do especial de Natal no SBT após ver Lula participando da inauguração do canal SBT News.
Tanto no caso de Zezé di Camargo quanto de João Gomes e de outro ídolo popularesco, mesmo que seja o “roqueiro” Odair José, nota-se um caráter distante deles ao meio emepebista que acabam frequentando. E quem acha que tais eventos celebram a “verdadeira cultura popular”, está enganado.
Não são os ídolos popularescos os coitadinhos a buscar um lugar nobre no banquete das MPB. Quem acha que o convívio musical entre ídolos popularescos e a MPB são a realização do “combate ao preconceito” e a “ruptura de barreiras” não sabe a verdadeira história por trás desse “entrosamento”.
Na verdade, trata-se de uma relação de negócios. E quem está na pior não é o ídolo popularesco que enche plateias e supostamente “leva pau de crítica”. Quem está na pior são os nomes da MPB e do Rock Brasil que vêem seus espaços serem fechados, aumentando o risco de cair no ostracismo.
A música brega-popularesca tem baixa qualidade e é feita com claros objetivos comerciais. Ela é calculada para fazer sucesso fácil e não tem valor artístico nem cultural. Sua "cultura" se dá pura e simplesmente pelo consumo por um grande público e sua finalidade maior é ser trilha sonora para o consumo de bebidas alcoólicas.
Por isso é que a Nação Zumbi decidiu tocar com João Gomes. Não foi porque, em tese, o ídolo do piseiro seria um “novo Chico Science”, até porque não tem um milésimo do talento do finado artista. Imagine João Gomes cantando versos como "Computadores fazem arte / Artistas fazem dinheiro" com o nível de conhecimento de causa de um menino de três anos lendo um documento confidencial de física nuclear.
A Nação Zumbi foi tocar com João Gomes porque o mercado nordestino é dos mais difíceis e inflexíveis que até para ser banda de coreto em Jaboatão dos Guararapes a banda pernambucana teria dificuldades. O que impera é o comercialismo rasteiro, porém dominante e dominador do forró-brega, que domina quase todo o Nordeste, deixando a axé-music para a Bahia. São as famosas "monoculturas" musicais.
Daí que é a Nação Zumbi que está pedindo espaços para o João Gomes, este sim rico e protegido de empresários e grandes fazendeiros. O dueto é, portanto, mais uma das muitas relações de negócios que estão por trás dos “espontâneos” duetos entre a MPB e a música brega-popularesca.
Esses duetos ocorrem porque, para furar o bloqueio que a música popularesca impõe, é necessário haver duetos ou outras “parcerias”, com direito a muito faz-de-conta na troca de sorrisos e elogios. Daí a cobertura “elogiosa” da imprensa com as apresentações de João Gomes e Nação Zumbi. Faz parte do negócio.
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