No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados.
O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego.
Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transformaram suas vidas numa happy hour constante, bebem cerveja em quantidades diluvianas e tem apetite descomunal para comprar e fazer de suas casas uma exposição de marcas de prestígio, pouco importando a qualidade do produto.
Pode ser até sorvete de banha com açúcar e corante ou um falso café composto de cevada, pó de madeira, carvão, areia e impurezas diversas, desde que seja sob uma grande marca “respeitada” no mercado.
Os “animais consumistas” são a versão radical dessa burguesia ilustrada, e sua ganância em acumular dinheiro e consumir é insana. Mais preocupados com o “ter” em vez de ser, seu senso de humanidade é praticamente nulo. Se sentem como “coisas” enquanto, para eles, “seres” são marcas, ídolos, logotipos e símbolos dos quais precisam obter vínculo através do consumo e assim terem alguma razão de “ser”.
Essas pessoas são profundamente egoístas e suas vidas só estão a serviço da diversão e do hedonismo mais doentio. Os “animais consumistas” possuem uma personalidade tóxica que só é amistosa para trocar piadas e risos. Mas esses amigos das risadas logo abandonam alguém que disser que sofre uma grave diversidade.
Os “animais consumistas” acham que toda pessoa que implora por ajuda é um golpista. Em nenhum momento cedem dinheiro para ajudar alguém, a não ser quando há alguma vantagem social em jogo. No fundo, esses trogloditas pós-modernos só querem mesmo o ritual de sempre de consumismo voraz e hedonismo irresponsável.
O Brasil se esquece que a escalada da violência se deu por conta dos abusos do milagre brasileiro de 1969 a 1974. O autoritarismo da ditadura militar e a ganância das elites civis fizeram com quem o alegado crescimento econômico, que fez o Brasil ser considerado a “oitava economia do mundo”, sofresse uma grave crise, tanto pela crise do petróleo no Oriente Médio em 1973 quanto pela concentração de renda da burguesia, que se deu bem com a inflação.
Os pais da atual burguesia ilustrada que hoje posa de “esquerdista desde 1500” acumularam muito dinheiro durante o milagre brasileiro e sua consequente crise. Mas a revolta do povo pobre fez eclodir uma onda de assaltos, porque não havia meios das classes populares serem atendidas em suas necessidades. Até o mercado de trabalho se tornava mão fechada, só querendo pessoas de aparência “agradável”, não necessariamente “bonita”.
Daí o preço da exclusão social. Não ocorrem mais tantos assaltos quanto há 40, 50 anos, até por conta das câmeras de segurança instaladas nas cidades que intimidam grande maioria dos assaltantes, receosos em marcar bobeira e irem para cadeias superlotadas. Por isso não há tantos assaltos quanto na década de 1970, por exemplo.
Falta uma consciência real de inclusão social, não esse falso altruísmo do moleiro do conto "O Amigo Dedicado" de Oscar Wilde, que a intelectualidade "bacana" tanto expressa em relação aos pobres, essa falsa defesa da "cultura das periferias", o tal "combate ao preconceito" que só traz mais preconceitos, fazendo o pobre virar refém de sua própria pobreza.
E temos também a religião do Espiritismo brasileiro e de congêneres como a Legião da Boa Vontade, que fingem ajudar o próximo, mas pregam sempre a manutenção do sofrimento humano, aconselhando os oprimidos a permanecer na sua desgraça em troca de um "lugar no Céu" ou a só vencer mediante dificuldades praticamente intransponíveis.
Se os pobres tivessem sido apreciados de maneira digna e verdadeira, muitos dos assaltos deixariam de acontecer, pois os excluídos deixariam de ser excluídos e passariam a ter acesso à qualidade de vida, sem que sejam forçados a serem prisioneiros da própria simbologia da pobreza, e sem a necessidade de furtar bens alheios. Só a intelectualidade burguesa acha a pobreza linda e joga a trilha sonora da bregalização para celebrar essa hipocrisia que mais parece uma miséria premiada. Quem gosta menos de pobreza é o pobre da vida real.
Quando há assaltos que, em São Paulo, ocorrem nos Jardins, no Morumbi, no entorno da Avenida Paulista e em Pinheiros, isso serve de aviso para a burguesia ilustrada que odeia ajudar quem precisa e não dá um centavo para as vaquinhas online ou para ajudar os pobres com famílias a sustentar. O pouco que essas elites recusam a ceder em prol do próximo acaba tendo o preço do muito que perdem nos assaltos, pagando a conta da vida opulenta de tantos supérfluos.
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