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MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

 NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS.

A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível.

No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses comerciais estratégicos.

Ultimamente, o cantor de piseiro João Gomes anda sendo associado tendenciosamente a artistas de MPB, de maneira claramente oportunista. Já exibiu vídeo com Luís Gonzaga num de seus shows, dançou com Marisa Monte, cantou com Nação Zumbi, se apresentou num pocket show com a presença de jornalistas ligados à MPB e prepara uma "parceria" com Ney Matogrosso. Dizem que isso é uma estratégia do empresário do ídolo popularesco pernambucano para atingir novas reservas de mercado.

Agora a apelação foi mais adiante, e um exemplo disso é uma matéria da página da Nova Brasil FM que tenta forçar o vínculo emepebista aos nomes do trap e do "funk", a ponto de se apropriar até de nomes considerados mais arrojados, como Secos e Molhados e Belchior.

A estratégia é mais agressiva do que a que ocorreu há 28 anos, quando ídolos do brega-popularesco do começo dos anos 1990, principalmente de "sertanejo" e "pagode romântico", apareciam em programas de TV, principalmente das Organizações Globo, gravando covers emepebistas ou duetando com artistas conhecidos de MPB, um artifício que eu defini como "MPB de mentirinha".

Naquela época, os ídolos brega-popularescos gravaram canções mais conhecidas, geralmente grandes sucessos de MPB contemporâneos ou alguns mais antigos. Canções de Djavan, de Milton Nascimento e músicas antigas como "Nervos de Aço", de Lupicínio Rodrigues, eram apropriados pelos cantores que, anos antes, haviam se tornado o símbolo da mediocridade social do período do governo Fernando Collor de Mello.

A "MPB de mentirinha" não convenceu, soando forçada e sem espontaneidade, sendo duramente criticada como um meio de mascarar o repertório ruim dos ídolos popularescos, que tiveram que se contentar apenas com a formação de um lobby que os fez se tornarem prestigiados na alta sociedade.

Entre 1999 e 2001, críticos musicais e mesmo a MTV Brasil partiram para criticar de forma austera a supremacia da música brega-popularesca. O crítico Mauro Dias, de O Estado de São Paulo, chegou a comparar a hegemonia dos ritmos brega-popularescos a um "massacre cultural".

Reagindo a essa crítica, a mídia empresarial, comandada pela Rede Globo e pela Folha de São Paulo, decidiu iniciar uma campanha de "combate ao preconceito", uma forma de tentar salvar a música brega-popularesca do desgaste e fazer se manter e até crescer no mercado.

Com uma dedicação comparável à dos antigos "institutos" golpistas IPES-IBAD, o "combate ao preconceito" se sustentou na falácia de que os sucessos da música brega-popularesca eram "expressões do povo pobre", mesmo quando, na verdade, seus ídolos são sustentados e promovidos por grandes empresas de entretenimento, com apoio de multinacionais e de poderosas oligarquias empresariais e fazendeiras, tanto de caráter nacional quanto regional.

O "combate ao preconceito" fez aumentar, como um câncer em estágio avançado, o número de cantores e grupos de música brega-popularesca, sufocando a MPB e impedindo que haja uma renovação de caráter significativo na música brasileira de qualidade. Mercados regionais acabaram se fechando na "monocultura" dos ritmos popularescos locais.

Atualmente, para um artista de MPB e de Rock Brasil poder se apresentar em certos locais, terá que fazer algum dueto com um ídolo brega-popularesco do respectivo lugar. É assim com a axé-music, com o "funk" e, principalmente, com o "sertanejo" e o forró-brega, cujos ídolos brega-popularescos carregam a imagem de falsos coitados, pois na verdade eles exercem poder respaldado pelo coronelismo midiático de sua região.

Dessa maneira, o exemplo recente de João Gomes, na festejada (pela mídia) performance junto ao grupo de mangue beat Nação Zumbi, mostra que o coitado não é o ídolo do piseiro, apesar do jeito "simples" que ele demonstra diante do público. O "coitado" da situação é a banda fundada pelo falecido Chico Science, que precisava tocar com o cantor de piseiro para não perder mercados dentro do próprio Estado, Pernambuco.

Os ídolos brega-popularescos é que detém o poder e existe um lobby que envolve até produtores de TV e críticos musicais, mesmo quando estes estão engajados com a MPB. Duetos entre emepebistas e popularescos soam "bonitos" para quem aposta na pretensa "ruptura do preconceito" entre intérpretes "populares demais" quando aparecem nestas performances tendenciosas. Mas, no fundo, são meras relações de negócios, nas quais quem pede espaço é a MPB e o Rock Brasil, não o ídolo popularesco, que já tem espaços demais de apresentação em todo o país.

Agora a estratégia é enganar a juventude que começa a descobrir nomes mais arrojados da MPB dos anos 1960 e 1970, criando um vínculo forçado com os ídolos brega-popularescos para assim estes penetrarem em mercados cada vez mais exigentes, mas que são constantemente induzidos a aceitar a mediocridade reinante. Vide pessoas com idade universitária cantando sucessos da Xuxa, como "Ilariê" e "Lua de Cristal".

Depois do brega-vintage de gente como Michael Sullivan, É O Tchan, Bell Marques, Gretchen e Chitãozinho & Xororó com "Evidências", a estratégia de forçar o vínculo de gente como Belchior, Mutantes, Secos e Molhados e outros com nomes popularescos é mais um plano para o império brega-popularesco, sob as bênçãos da Faria Lima, manter seu poder e evitar o progresso da cultura musical brasileira, mantendo o povo culturalmente inferiorizado, enquanto os empresários do "popular demais" se enriquecem de forma exorbitante.

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