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O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO, FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO.

A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país.

Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra.

Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso do cinema, há quem diga que, se nesse setor é assim, na música deve estar melhor ainda.

Não, não está. Enfiar João Gomes, Chitãozinho & Xororó, É O Tchan e o “funk”, além de Gretchen e Odair José, nesse cenário não tem um pingo de lógica. Todos se enquadram num culturalismo que vem dos tempos do milagre brasileiro é que, de certa forma, se ascenderam em algum momento entre o governo Sarney e o governo Collor ou durante o culturalismo neoliberal de FHC.

Não há como usar esses nomes da bregalização musical como atestado de que nosso país está no melhor momento cultural. Nem se usar como desculpa o fato de haver “várias narrativas”, como se fosse uma feira de subúrbio. A cultura de qualidade está presa nas bolhas sociais que estão felizes em suas rotinas, mas isso também não é motivo para ficarmos felizes.

A chamada cultura brega-popularesca, que é uma espécie de “popular de mercado”, representa a privatização da cultura popular. A narrativa oficial, ao modo das propagandas comerciais, apela para mentiras como dizer que o tal “popular demais” representa os sentimentos e o cotidiano do povo pobre. 

Esses fenômenos são, na verdade, produtos que são consumidos por um público que, em tese, têm menor poder aquisitivo, mas isso não significa uma verdadeira cultura popular. Significa apenas que o povo pobre consome esses produtos trazidos pelo poder midiático e sob o apoio de oligarquias empresariais, políticas e latifundiárias que investem nessa “cultura” com “sabor artificial de povo”.

Soa, portanto, uma forte idealização subjetiva desses intelectuais burgueses em classificar o mercadão cultural e comportamental popularesco como “genuinamente popular”. Essa “cultura” é fajuta porque é moldada nas mesas de negócios, independente do teor que o mercado explora dos sentimentos autênticos do povo de uma região.

A comparação com a fabricação de alimentos industrializados é certeira. Aromatizantes, conservantes, corantes e aditivos químicos são acrescidos em alimentos e bebidas cujos sabores são artificiais, apenas imitando os sabores originais. Em muitos casos, como em sorvetes e biscoitos, há apenas a gordura hidrogenada com açúcar que são somados a um processo químico que imita o gosto e o cheiro do respectivo sabor.

Na música popularesca, é a mesma coisa. No forró-brega, por exemplo, houve durante anos um problema em reproduzir clichês de cultura nordestina, pois os grupos reproduziram a estética de cabaré e de piratas de Hollywood e faziam um som que cruzava disco music, country e ritmos caribenhos. Só depois se apelou para reproduzir o “nordestino de verdade”, mesmo assim resultando num protótipo que mais parece ter saído do humorístico A Praça é Nossa.

No cinema, o imaginário popularesco se deu nos pobres caricatos de comédias como Vai Que Cola e Ó Paí Ó, os “pobres de novela” que se tornam modelos a serem seguidos pelos pobres reais que, ganhando mais dinheiro, passam a assimilar, ao seu jeito, o estilo de vida burguês.

Portanto, filmes como Eu Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto não representam o Brasil de João Gomes, de Chitãozinho & Xororó, de É O Tchan e do “funk”. Estes estão mais para filmes da Xuxa e franquias cômicas com Faustão, Luciano Huck etc. Infelizmente é o Brasil popularesco que prevalece e isso é preocupante, pois se deixarmos isso ocorrer haverá novas nostalgias sustentadas por muita mentira de caráter etnocêntrico. Culturalmente, o Brasil continua na UTI.

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