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MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE.

Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha.

Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima.

Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intelectualidade orgânica. Era a crise do governo Fernando Henrique Cardoso, no seu segundo mandato, e a ideia é tentar salvar o tucanato através de um culturalismo de caráter populista.

A ideia é retomar o engajamento dos “institutos “ golpistas IPES-IBAD dos anos 1960, incluindo os “Cabos Anselmos” a seduzir as esquerdas com seu “canto de sereia” socializante, para evitar que novas formas de engajamento cultural popular, à maneira do que estumulavam os CPCs da UNE e da MPB dos festivais da canção, reapareçam.

Daí que veio o discurso do “combate ao preconceito”, que entre o fim do governo FHC e o começo do governo Lula, foi disseminado pela mídia hegemônica, como Globo, Folha, Abril, Estadão e os canais popularescos como SBT, Record e a revista Contigo.

Com narrativas que utilizavam roupagem de “objetividade”, como documentários, reportagens, monografias e ensaios, o “combate ao preconceito” uniu o método IPES-IBAD com clichês do discurso tropicalista, como o pretexto de “provocatividade”, por exemplo, e a falácia de que o mero entretenimento popularesco, muitas vezes patrocinado por grandes latifundiários, seria a “expressão de uma rebelião popular em curso”.

Pedro Alexandre Sanches, o “menino de ouro” de Otávio Frias Filho, foi desligado formalmente da Folha de São Paulo, mas queria levar a “alma” desse periódico para a mídia esquerdista, sabotando e enfraquecendo as pautas culturais. Sanches não conseguia enganar com o falso esquerdismo pois se limitava a imitar as agendas mais manjadas difundidas da mídia progressista.

A música brega-popularesca mostrava sinais de esgotamento entre 1998 e 2002. A Rede Globo tentou “emepebizar” os ídolos popularescos da década de 1990, com resultados comerciais satisfatórios, mas artisticamente desastrosos. Os nomes popularescos, do “sertanejo”, “pagode”, axé-music e outros ritmos gravavam covers de MPB sem conhecimento de causa e com um jeito superficial e canastrão comparável ao de calouros de reality shows musicais.

Depois do brega-vintage criar uma nostalgia postiça através de Michael Sullivan, É O Tchan, Chitãozinho & Xororó, Bell Marques etc, a gourmetização do brega-popularesco agora investe no hype de vender o ídolo do piseiro, João Gomes, para um público descolado, jogando ele para os cenários da MPB, num processo enganoso de promovê-lo como "grande coisa", quando sabemos que é o cantor pernambucano que está em situação dominante e a MPB é que negocia com ele a entrada no mercado de shows fechado e restritivo do Norte-Nordeste.

Com isso, toda uma logística de discurso e persuasão de fazer inveja aos ideólogos dos “institutos” que ajudaram a derrubar João Goulart em 1964 foi feito, caprichando na imagem de coitadinho dos ídolos popularescos que faziam sucesso estrondoso mas não eram “levados a sério” culturalmente. A retórica passou a ser tomada de clichês, como a tal “luta contra o preconceito”. Eis alguns bordões:

“(Os sucessos popularescos) São a expressão verdadeira do povo pobre”;

“Autossuficiência das periferias”

“Grito de dor (sic) do povo pobre”

“MPB com P maiúsculo” ou “Popular com P maiúsculo”

“A verdadeira MPB”

“Reforma Agrária (sic) na MPB “

“Enquanto acusam de alienado, (o ídolo popularesco) segue lotando plateias e conquistando multidões por onde passa”

“Seu sucesso (o do ídolo popularesco) é um soco na barriga da hipócrita sociedade do bom gosto”

“Combate ao apartheid cultural”.

O think tank de chapéu de frutas na cabeça incluiu principalmente antropólogos, cineastas, historiadores, artistas e jornalistas culturais. Uns apelavam para explorar a imagem de “coitadinhos” dos ídolos “populares demais”. Outros agrediam e ofendiam, nos fóruns das redes sociais, quem criticasse os ídolos da música brega-popularesca.

No Orkut, por trás da imagem “humanista” de Zezé di Camargo e Luciano forjada pelo filme Os Dois Filhos de Francisco, fãs da dupla goiana perseguiam quem estivesse repudiando os dois cantores. Era um processo de intolerância que dava o tom do reacionarismo oculto de Zezé - que escondia seu apoio a Ronaldo Caiado pelo apoio condicionado a Lula, em 2005 - , depois explicitado por seu apoio a Jair Bolsonaro.

Com o "funk", o "sertanejo", a axé-music, o forró-brega e o "pagode romântico" liderando, a música brega-popularesca cresceu demais. A desculpa de querer apenas "os seus espaços" fez com que esse universo musical crescesse demais e sufocasse a MPB e o Rock Brasil, hoje carentes de uma renovação real.

A situação é catastrófica, mas deixou a máscara cair do discurso "contra o preconceito" que, além de ser uma mera conversa para boi dormir, foi apenas um papo furado para vender cerveja, já que bares e boates é que são as verdadeiras interessadas na gourmetização da música brega-popularesca. Aquele negócio de dizer que se tratava de "modos de vida e emoções das comunidades" era cascata, o "combate ao preconceito" queria mesmo é enriquecer as indústrias de bebidas alcoólicas e de outros produtos do lazer brasileiro, como automóveis e celulares.

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