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MTV E RADIALISMO ROCK SÃO FORMATOS DIFERENTES, MAS TIVERAM UMA SINA COMUM


Refletindo sobre o fim da MTV, lembremos que o rótulo de “a TV do rock” é completamente estúpido e equivocado, pois isso restringe o valor e o horizonte cultural que a Música Television exerceu ao longo de sua existência. No Brasil, atribuição de “TV do rock” não só foi equivocada como acabou derrubando outro formato genial que há décadas não irradia mais: o formato de rádio de rock, assim, com a preposição “de”.

Confundir o formato da MTV com o de rádio de rock, nos anos 1990, foi crucial para desnortear emissoras pioneiras, inclusive a Fluminense FM, que depois foram extintas uma a uma, enquanto, até hoje, o formato de rádio de rock até agora nunca foi introduzido de forma adequada em muitas capitais do Brasil, até hoje esperando, em vão, o aparecimento de uma Flu FM local.

Enquanto isso, quem se deu bem foi a 89 FM, de uma família apoiadora da ditadura militar e líder do empresariado da Faria Lima que, tomando “emprestado” o estilo e a linguagem da Jovem Pan - no fundo, os Camargo, da 89, e os Amaral de Carvalho, da Pan, são irmãos de uma mesma elite empresarial - , criou um formato deturpado de radialismo rock que acostumou mal os ouvidos de muita gente boa, incluindo muito titio roqueirão de jaqueta de couro.

É irônico afirmar, no entanto, que se MTV e rádios de rock deveriam ser vistos como estilos completamente diferentes, suas decadências as fizeram sofrer uma sina bastante comum: a redução de seus formatos a horários específicos, de preferência noturnos. A MTV continua passando clipes, mas só depois do fim de noite.

Muitos imaginam que as “rádios rock” - assim, sem preposição - , da forma como vieram desde 1989, tinham programação “24 horas de puro rock’n’roll”. Mentira. As rádios funcionavam como qualquer rádio pop convencional, apenas tocavam o que havia de rock no hit-parade em geral. Em muitos casos, o repertório da grade diária permanecia inalterado e repetitivo durante um período de quatro a seis meses.

Ninguém reclamou porque até hoje o formato da Fluminense FM é, até hoje, inédito para muita gente. Muita gente levou gato por lebre e o que se viu de radialismo rock foi o que eu defini como “Jovem Pan com guitarras”, porque o perfil era idêntico, só mudava a música tocada.

A grade diária tinha locutores que não tinham o estilo da rádio de rock. Os locutores contratados mais pareciam “sobras” do que as rádios de pop ou popularesco não contratavam por excesso de demanda. Locutores com vozes e jeitões de animadores de gincanas e de comercial de eletrodomésticos e cuja intimidade com o rock era comparável ao de Tiririca com a física nuclear.

As “rádios rock” dessa época só eram elogiadas porque os críticos musicais, além do fato dessas emissoras integrarem um forte lobby empresarial, só as sintonizavam no fim de noite, quando a programação era mais cautelosa. Era entre as 22 horas e a meia-noite, assim como os tapa-buracos da madrugada, que o repertório era um pouquinho menos comercial, sem falar dos programas de especialistas transmitidos no fim de noite.

Assim como a MTV se reduziu a um canal de reality shows, o radialismo rock está morto ou quase morto, com grande parte das ditas “rádios rock” sendo apenas rádios pop que “só tocam rock”, e, mesmo assim, limitadas a medalhões ou nomes comerciais. Apenas umas raras webradios conseguem cumprir algo próximo das rádios de rock originais.

E se o YouTube agora virou canal de exibição de videoclipes - vide seu canal oficial VeVo - , a mesma plataforma digital hoje tem mais músicas de rock do que as “rádios rock” que, hoje em dia, não conseguem sair da zona de conforto do hit-parade. Em especial a canastrona 89 FM, rádio que atende aos interesses dos yuppies de jaqueta da Faria Lima.

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