PRETENSO ATIVISMO SOCIOPOLÍTICO, O "FUNK" ENGANOU AS ESQUERDAS, QUE ENDOSSARAM NARRATIVAS PRODUZIDAS PELOS GRUPOS GLOBO E FOLHA.
A campanha do “combate ao preconceito”, que gourmetizou os fenômenos popularescos sob a desculpa de ser o “popular com P maiúsculo”, foi uma guerra cultural tramada pela Globo e Folha para enfraquecer as lutas populares no Brasil e permitir a retomada reacionária de 2016.
Mordendo a isca, a mídia alternativa, seduzida pelo capataz freelancer de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, que passeou pelas redações da imprensa de esquerda para fazê-la pensar culturalmente “igual à Ilustrada”, quase faliu ao empoderar supostos fenômenos populares que são patrocinados pelo latifúndio, pelas grandes corporações e pelas oligarquias midiáticas.
A bregalização, ao ser vista como um pretenso ativismo sociopolítico, sob a desculpa da “provocatividade” e da “reação contra o bom gosto”, desviou as classes populares da participação do projeto progressista de Lula.
A bregalização deixou os debates públicos reduzidos a reuniões de cúpula, com jornalistas progressistas, lideranças dos movimentos sociais, o proletariado e o campeonato falando “sozinhos”. Afinal, o povo foi brincar dançando o “funk”, o “sertanejo”, a axé-music, o tecnobrega e o forró-brega achando que estava fazendo uma “revolução libertária”.
Já vi muito reacionário, verdadeiros lobos de direita em peles de ovelhas negras de esquerda, defendendo ídolos e fenômenos popularescos, de forma bastante agressiva e desrespeitosa. Em nome da lacração e das verbas estatais do Ministério da Cultura, muito reaça travestiu-se de “bom esquerdista” para parecer bonzinho, mas a verdade é que foi gente infiltrada querendo sabotar os debates populares.
O “funk”, a cereja do bolo dessa falácia toda, se vendeu durante anos como um falso movimento libertário. Os funqueiros, carregados de vitimismo e protegidos pela Globo e Folha, eram o Cabo Anselmo da vez, patrocinados pela CIA através de ONGs colaboradoras como Soros Open Society e Fundação Ford.
O discurso se revelou uma farsa quando o “funk” e seus derivados, o “funk ostentação” e o trap, produziram ídolos que se enriqueceram de forma abusiva às custas de um pretenso “discurso de pobreza” e envolvidos até em esquemas de apostas ilegais na Internet e colecionando bens caríssimos como carros de luxo, mansões, aviões particulares e lanchas.
Com exclusividade, Linhaça Atômica desmascarou as ligações de Rômulo Costa, da Furacão 2000, e de Bruno Ramos, da Liga do Funk, com o golpe de 2016. Rômulo anestesiou as esquerdas com o “baile funk” de Copacabana e, depois, foi comemorar fazendo parceria com um político apoiador de Temer e, depois, de Bolsonaro. Rômulo era, em 2016, sogro da golpista radical Antônia Fontenelle.
A Liga do Funk participou de um pretenso protesto contra a Rede Globo, em São Paulo, em março de 2016, mas poucos meses depois, a mesma organização participou de uma matéria do programa Fantástico, na mesma emissora. Apenas Bruno Ramos não deu depoimento, para evitar problemas com seu “esquerdismo “.
A bregalização cultural, ancorada na campanha “contra o preconceito”, abriu caminho para o golpe por vários meios. O “confinamento” das classes populares no entretenimento popularesco foi uma armadilha através da qual a intelectualidade pró-brega contribuiu para sabotar o projeto progressista de Lula.
Isso era um meio tanto para evitar movimentos como o CPC da UNE e o engajamento da MPB nos festivais dos anos 1960. A ação intelectual, espécie de IPES-IBAD com roupagem “tropicalista”, complementou a política de concessões de rádio e TV feitas por Antônio Carlos Magalhães e José Sarney nos anos 1980, “desenhando” o coronelismo midiático que definiu a supremacia da cultura brega-popularesca dos anos 1990 até hoje.
Isso influiu muito na desmobilização popular. Era inútil haver intelectuais esnobando acusações de alienação cultural, como se o sucesso “popular demais” passasse ao largo disso. O caráter alienante era explícito. Por exemplo, boa parte dos patrocinadores do “sertanejo” e do forró -brega são fazendeiros que expulsaram ou exterminaram camponeses para defender o (ab)uso da terra.
Daí o inevitável. O "combate ao preconceito", que foi uma narrativa desenvolvida pela Globo e pela Folha mas que transitou pela mídia de esquerda, favoreceu o golpe de 2016, como um IPES-IBAD versão micareta.
A roupagem de documentários, monografias e reportagens enganou a mídia alternativa e editorias de política e cultura, dentro de um mesmo veículo - como Caros Amigos, por exemplo - , divergiam quando a primeira mostrava um povo batalhador e conscientizado e a segunda mostrava um povo caricato e por demais festivo, apenas consumindo o "sucesso do momento" trazido por rádios "populares demais", mas controladas por poderosas famílias oligárquicas.
Assim, o "combate ao preconceito" fingiu contrariar o poder midiático que gerou ou apoiou suas narrativas, enquanto, por baixo dos panos, legitimava esse mesmo poder. Rádios comandadas por oligarcas e redes de televisão, além de jornalões e revistas da mídia empresarial passaram a se empoderar por trás do discurso "inocente" da glamourização do popularesco, e isso permitiu que oportunistas usassem o discurso da "cultura de verdade" para derrubar os governos do PT.
O PT mordeu a isca e foi contaminado pela sabotagem cultural da bregalização e dos "brinquedos culturais" - valores socioculturais da direita ditatorial que tentaram ser "ressignificados" para as esquerdas médias entre 2002 e 2016 - , o que fragilizou o atual mandato de Lula, que só é grandioso na embalagem e no discurso barulhento da bolha lulista.
Agora, com o golpe ocorrido na Venezuela, tudo se desnorteou e vivemos um período bastante complicado, com as lutas populares praticamente impossíveis de ocorrer, primeiro por causa da festividade identitária que foi gerada no carnaval da bregalização "sem preconceito", e, segundo, pelo descrédito a que as próprias esquerdas permitiram relegar os movimentos sociais, o proletariado e o campesinato.
Daí ser triste os lulistas pedirem para as classes populares se mobilizarem, depois de abandonarem essa mesma multidão. O descrédito dos excluídos da vida real a Lula só faz piorar a situação e, com a queda de Nicolás Maduro, as chances de Lula ser reeleito começam a se reduzir. Está tudo complicado na América Latina.
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