É MAIS CONFORTÁVEL SE CONTENTAR EM VER PEÇAS SOLTAS DE UM QUEBRA-CABEÇA.
Compreender a realidade é difícil, quando um sem-número de pessoas, nas redes sociais, persiste em narrativas agradáveis, marcadas principalmente pela perspectiva da polarização política e de um culturalismo degradante que transforma o entretenimento e o mercado musical em verdadeiros processos de domesticação das massas.
Se o Irã teve sua “revolução cultural” que derrubou um projeto de sociedade moderna, no Brasil o que vimos foi um projeto de modernização sociocultural traçado entre 1958 e 1963 que foi derrubado tanto pela racionalidade postiça do IPES-IBAD quanto pelo ativismo fajuto de Cabo Anselmo.
Depois do golpe de 1964, vieram “novos normais” que, de maneira aberrante, passaram a integrar o cotidiano das pessoas de tal maneira que parte do culturalismo conservador virou alvo de nostalgia. Até nossas esquerdas foram tentadas a se guiarem pelo culturalismo da Era Geisel para acolher os “brinquedos culturais” que fizeram as forças progressistas pensarem o Brasil como se fosse uma novela das nove da Rede Globo.
Só mesmo acompanhando a linha do tempo das últimas seis décadas para observarmos o monstruoso cenário que peças soltas de um quebra-cabeça não conseguem mostrar. A realidade fragmentada impede essa compreensão e faz com que até setores de esquerda adotassem posturas patéticas, como a defesa do “funk”, por exemplo.
O “funk” foi um Frankenstein culturalista que assimilou elementos de domesticação das classes pobres durante a Era Geisel, que no entanto não tiveram relação com a verdadeira cultura do funk autêntico dos anos 1970, esta sim uma resistência cultural mal entendida pelas esquerdas de então.
A falta de compreensão e de análise de uma linha do tempo coesa faz as esquerdas acharem que um sucesso popularesco como “Meu Coração é Vermelho” é “hino socialista”. Setores de esquerda tratando um nome comercial como Bad Bunny como se fosse “cantor de protesto” é de uma ingenuidade comparável à de um pato recém-nascido que, ao ver uma pedra, a chama de “mãe”.
Para piorar, a risível atribuição do sucesso de axé-music “Xibom Bom Bom”, composta por um produtor e empresário, como “inspirada em O Capital de Karl Marx” trouxe uma abordagem estúpida que fez com que sucessos infanto-juvenis como “Ilariê”, “Superfantástico” e “Lua de Cristal” virassem “canções de protesto”.
Esse clima “sorvete na testa” é tão preocupante que faz com que bolsonaristas lançassem a narrativa fake de que a Rede Globo e a Folha de São Paulo viraram “puxadinhos do PT”, visão completamente fora da realidade e sem um pingo de lógica.
Na verdade, não foram a Globo e a Folha que “viraram petistas”, mas as suas pautas culturais que foram ingenuamente assimiladas pelas esquerdas, transformando as editorias culturais da Caros Amigos, Fórum, Carta Capital, Brasil de Fato e outros em espaços de abordagens vexaminosas. Pareciam o caderno Ilustrada nos seus piores momentos.
O Brasil está culturalmente devastado. A impressão que se tem é que o empresariado foi brincar de ser produtor cultural e pessoas sem talento brincam de serem artistas e celebridades. É uma grande ilusão que se acredite que é só investindo em dinheiro que a música brega-popularesca melhora de qualidade e as subcelebridades se tornem algo próximo de intelectuais.
Pensar de forma fragmentada não permite entender a estrutura dramática de nossa crise cultural. A realidade possui ligações e muitas vezes cenários surpreendem quando são revelados através da junção de peças soltas.
Entender a realidade pelas peças soltas sem ligação é evitar observar as armadilhas cotidianas, e a vida não é feita de narrativas prosaicas. Daí que no golpe de 2016 poucos conseguem entender as estranhezas do governo Lula, que para voltar ao poder teve que negociar com a direita moderada. Só quem observa bem a realidade é que pode perceber que nem Lula é um deus.
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