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POR QUE DEIXEI DE ME CONSIDERAR UM NERD

ANTIGAMENTE, NERD ERA AQUELE QUE ERA AGREDIDO PELOS VALENTÕES DA ESCOLA. MAS HOJE OS VALENTÕES SE ACHAM MAIS NERDS DO QUE OS NERDS QUE AGREDIRAM.

Por que eu deixei de ser um nerd ou um loser?

Parei para pensar e vi o quanto havia uma multidão lamentável a meu redor, quando eu, sem perceber, glamourizava minha inferioridade social.

Arrivistas, periguetes, bolsomínions, mistificadores, enfim, gente da pesada que fez com que eu pensasse "Credo, o que é que estou fazendo aqui?".

Antigamente, nerd era aquele que era vítima das agressões dos valentões. Vítima de valentonismo, termo que o pessoal insiste em creditar no inglês, bullying, só para dar a impressão de que o fenômeno foi uma invenção de jovens sádicos do Colorado, EUA.

Fiquei 32 anos me considerando um nerd. É o tempo de vida da sempre querida Brittany Murphy.

O último filme que vi quando ela estava viva, A Agenda Secreta do Meu Namorado (Little Black Book), de 2004, mas exibido no Brasil no Supercine (Rede Globo) de 07 de novembro de 2009, eu vi pelo seguinte motivo; um filme de nerd sob o ponto de vista de uma mulher.

E aí vi o quanto o termo nerd se resultou numa deturpação sem controle, que o sentido original acabou sendo forçadamente extinto.

E olha que, curiosamente, eu me interessei por usar óculos de nerd porque achei legal o visual de um guitarrista do Inxs, por incrível que pareça.

Eu curtia, musicalmente, os Smiths, e via Morrissey usando óculos na foto interna do Hatful of Hollow (1984), mas, por incrível que pareça, foi um membro do Inxs que me inspirou a usar o visual nerd.

Via filmes como Vingança dos Nerds (Revenge of the Nerds) também de 1984.

Eu, na minha adolescência, me identificava com a arte que expressava frustrações humanas. Smiths, Joy Division, poesia ultrarromântica do século XIX. Li Werther, de Goethe, em 1989, 215 anos depois do lançamento original.

Quando vi, em 2015, que o seriado Big Bang Theory, que eu vi muito, estava se tornando menos nerd naquele sentido original e virava uma espécie de versão geek do seriado Friends, passei a pensar se valia a pena ser considerado nerd.

Se o universo nerd passou a ser ocupado por viciados em computação e jogos eletrônicos, quadrinhos e seriados de ficção científica, e, no contexto brasileiro, até por caubóis de carrossel do "sertanejo", por bolsomínions e por mulheres-objetos siliconadas, então não sei o que estava fazendo nesta condição.

Pior que passaram a surgir nerds criminosos. Um nerd de Brasília cometeu feminicídio anos atrás. Um outro matou uma parceira de partidas de jogos eletrônicos pela Internet.

Ver que o sofrimento real do Ultrarromantismo deu lugar ao "ultrarromantismo de borracharia" do "pagode romântico" ou à "sofrência" do "sertanejo universitário" ficou constrangedor.

Sempre tem hora de mudança. E o mais irônico é aos 50 anos, que completarei no próximo dia 21, idade que antigamente era associada à consolidação de valores, visões e atitudes.

Aliás, nunca as pessoas mudaram tanto depois dos 50 anos de idade. E eu, um homem do Rio de Janeiro, mais precisamente da cidade de Niterói, estou hoje vivendo em São Paulo.

Chega de ser perdedor. Chega de sofrimento. E chega de sofrência. Não sou nerd, não sou "lúzer" nem "gíque". Eu só quero ter a oportunidade de poder ser eu mesmo.

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