A preocupante glorificação do "funk", agora retomada por uma exposição sobre o gênero no Museu da Língua Portuguesa, mascara a realidade de um gênero que é meramente comercial, sem objetivos artísticos nem culturais, mas que insiste em narrativas falsamente libertárias que não possuem sentido lógico algum.
A exposição tem o nome pretensioso e oportunista de "Funk - Um grito de ousadia e liberdade", e serve apenas para mostrar o quanto a intelectualidade "bacana", espécie de think tank da burguesia ilustrada, investiu em muito etnocentrismo para glorificar esse gênero da música brega-popularesca.
O "funk" era somente um pop dançante comercial, feito para puro entretenimento. É marcado pela relação hierárquica entre o DJ, o "cérebro", e seu porta-voz, o MC. Sua principal caraterística é o rigor estético não-assumido e nivelado por baixo. No "funk", não há arranjadores nem compositores no sentido criativo do termo. Uma batida padrão é usada invariavelmente pelos seus intérpretes, conforme certas temporadas. O "funk" discrimina a figura do músico, é sempre aquela estrutura rígida do DJ, do MC e, às vezes, alguns dançarinos.
A ideia de uma hipotética "riqueza artístico-cultural" do "funk" é fruto da imaginação fértil dos intelectuais "bacanas" em mentir e manifestar juízos de valor como se fossem "análise objetiva". Inserções levianas de referenciais que nada têm a ver com o gênero, como a Semana de Arte Moderna, o punk rock e a Revolta de Canudos, foram introduzidas para enganar a opinião pública.
E aí o que se viu, sob o aparato de documentários, reportagens, monografias, ensaios e outros recursos textuais "objetivos", é um monte de invencionice cheia de argumentações duvidosas, feitas mais para confundir a opinião pública e forçar o seu apoio através da persuasão, com forte cheiro de marketing, e da exploração do coitadismo dos ídolos funqueiros. O "funk", pelo que se saiba, é o primeiro estilo musical brasileiro que se promove através do discurso vitimista.
Se observar bem essa narrativa em torno do "funk", cujo apelo "científico" lembra os antigos artigos dos "institutos" IPES-IBAD só que mesclados com imitações fajutas da retórica tropicalista, tudo o que se fala em favor do "funk" não é mais do que fruto da imaginação fértil de intelectuais burgueses e seu etnocentrismo em torno do que eles acham que deve ser o povo pobre no Brasil.
Tanto isso é verdade que o "funk" diz mais sobre a visão estereotipada do povo pobre, o "pobre de novela", que é mais submisso às regras de mercado e ao "sistema" que finge combater. Isso se comprova quando os ídolos do "funk", ao longo do tempo, se tornam bastante ricos, entrosados com a burguesia que os patrocina e lhes dá apoio.
Já o pobre da vida real não se sente representado pelo "funk" e o vê com muita desconfiança, por tratar as classes populares de maneira caricatural e estereotipada. Pais e mães ficam preocupados em ver os jovens mergulhados nesse universo de futilidade, violência e baixarias, e aqui se fala em pais e mães negros e pobres, mas com vivência anterior a esse processo de deterioração cultural que se avançou em todo o Brasil nos últimos 35 anos.
A exposição do Museu da Língua Portuguesa abre um precedente perigoso para a prevalência de narrativas mentirosas e altamente falaciosas em torno dos estilos brega-popularescos, nas quais o que vale é a visão da burguesia ilustrada sobre o que ela acha que é a "cultura popular", com o único objetivo de alimentar a indústria de cerveja e outros produtos de consumo, como automóveis e celulares, às custas de toda essa retórica de "combate ao preconceito", que tem mais preconceitos do que aqueles que diz combater.
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