Quem observa bem a realidade sabe que a velha ordem dos tempos da ditadura militar continua intata. Boa parte das estruturas montadas desde a queda de João Goulart e consolidadas na Era Geisel estão mantidas em pé e, pasmem, continuam influenciando a sociedade brasileira até hoje, de forma mais intensa do que se pode imaginar.
É irônico, mas a complexidade do tempo fez com que os descendentes da geração que derrubou Jango 1964 estejam identificados com Lula a ponto de querer reelegê-lo quantas vezes quiser. A burguesia ilustrada não se atrependeu dos erros de seus antepassados, apenas se cansou de agir pelos mesmos métodos, assim como tornou-se impossível usar as velhas táticas que o contexto atual não permite mais fazer.
Seria agradável e muito confortável acreditar que não é assim. Imaginar que no Brasil o povo é livre, que a cultura flui como se fosse criação da Mãe Natureza e que todos são espontâneos. Como havia dito Renato Russo em “‘Índios’” da Legião Urbana: “Quem me dera, ao menos uma vez (...) acreditar que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes”.
Mas a coisa não é assim. Se os idosos são bombardeados pelo obscurantismo religioso, se os adultos “sérios” são bombardeados por overdose de noticiários e se o público jovem é bombardeado por entretenimento, isso não é fruto de um período de generosidade e fraternidade que passou a haver no nosso país. Há uma estratégia perversa em jogo.
O objetivo é distrair as pessoas e evitar haver conscientização e mobilização. O obscurantismo religioso escraviza almas dando a impressão de pretensos consolo e libertação. A overdose de notícias submete mentes às diretrizes editoriais da imprensa corporativa mas dá a impressão contrária do suposto livre pensamento. A overdose de entretenimento subordina jovens à indústria de lazer, consumismo e hedonismo, mas dá a impressão de que a juventude é dona de seus milhões de narizes.
O que os netos das famílias golpistas de 1964 têm de diferentes em relação aos antepassados são os meios estratégicos de poder, aliados a estruturas tecnológicas e sociais bem diversas das de 60 anos atrás. As famílias que ajudaram a derrubar Jango eram bem mais brutas nos seus modos de pensar e agir, as famílias dominantes da Era Geisel ganhavam em técnicas de planejamento mas perdiam das atuais gerações porque os métodos eram demasiado tecnicistas e as perspectivas meramente economicistas ou politicistas.
As estruturas de dominação hoje, feitas pelas classes dominantes, mudaram. Elas têm muito de Publicidade, ingrediente tímido nos anos do general Geisel e um grotesco rascunho em 1964. Atualmente a elite do bom atraso assimilou a informalidade e a descontração hippie que as big techs permitiram nos ambientes do Vale do Silício, fazendo com que ambientes de trabalho, com toda a opressão e precarização existentes, simulem o astral juvenil nas universidades.
A ideia agora e criar um bem estar moral, com a fé obscurantista travestida de “transformadora”, uma segurança racional com a overdose de informação e uma sensação de “felicidade plena” com a overdose de entretenimento, principalmente pela facilidade extrema com que se chamam ídolos musicais estrangeiros para se apresentarem no Brasil.
Esses processos mascaram a herança que os atuais gestores socioculturais da Faria Lima receberam da ditadura militar. Tudo parece livre, organizado e equilibrado, mas é só uma ilusão. No lugar do AI-5, temos o AI-SIMco, o princípio de estar de acordo com tudo sob pena de ser cancelado na Internet. No lugar o IPES-IBAD, temos a Faria Lima persuadindo de forma oculta os corações e mentes da população.
Até o apoio de Lula, mesmo com uma antiga simbologia próxima a de João Goulart, foi possível porque Lula, hoje, abriu mão de muitos de seus princípios e reduziu seu projeto político a um mínimo denominador comum de ações sociais que não incomodam as elites dirigentes. Isso fez com que setores flexíveis da direita acolhessem o petista, enquanto as forças de esquerda raiz abandonassem o presidente.
Com isso, vemos que o atual cenário manteve as velhas estruturas que, com suas caraterísticas atuais, estão no poder há 50 anos. Identificar essas estruturas não é fácil, mas é necessário, pois isso impõe limites à emancipação social verdadeira no nosso país e trava o processo de busca de desenvolvimento, que já é difícil. Se continuarmos no sistema de valores dos tempos da ditadura, com seus ídolos e paradigmas, o Brasil continuará no atoleiro.
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