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TRANSFÓBICO, RATINHO É SUBPRODUTO DO "OPINIONISMO DE FM"


Na semana passada, o apresentador Carlos Massa, o Ratinho, cometeu transfobia ao comentar no seu Programa do Ratinho, do SBT, no último dia 11 de março, a nomeação da deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP) para a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados. Disse o apresentador:

"Não achei muito justo, não. Com tanta mulher, por que vai dar para uma mulher trans? A Erika Hilton. Ela não é mulher, ela é trans".

Ratinho até tentou dizer que "não é contra mulher trans", mas fez um comentário bastante grotesco e cheio de clichês machistas:

"Se tem outras mulheres lá, mulher mesmo... Mulher para ser mulher tem que ser mulher, gente! Eu respeito todo mundo que tem comportamento diferente. Tá tudo certo! Agora, mulher tem que ter útero, tem que menstruar, tem que ficar chata três quatro dias".

Erika Hilton, que é uma das parlamentares mais atuantes em prol do interesse das classes populares, decidiu processar o apresentador, e anunciou sua medida no seu perfil na plataforma digital X:

"Sim, estou processando o apresentador Ratinho. Sei que, pela audiência irrisória de seu programa, que até onde sei não agrada nem suas chefes no SBT, lhe resta apelar à violência. Porque o que o apresentador cometeu foi uma violência, um ataque, e não foi só contra mim. Ratinho interrompeu seu programa pra dizer que mulheres trans não são mulheres, que mulheres que não menstruam não são mulheres, que mulheres que não têm útero não são mulheres e que mulheres que não têm filhos não são mulheres".

Erika é autora do projeto que extingue a escala 6x1 no trabalho, além de atuar votando a favor do interesse público. O que Ratinho fez foi um crime de transfobia e de total desrespeito e humilhação a uma pessoa. A repercussão negativa fez com que houvesse até pedido de suspensão do Programa do Ratinho, que parece ter desagradado até a cúpula do SBT, hoje comandado pelas herdeiras de Sílvio Santos.

Ratinho é um subproduto do "opinionismo de FM" que, nos anos 1990, gerou uma inflação de locutores "tudólogos" que, em seguida, inspirou também o jornalismo sobrecarregado de FM que jogava overdose de informação nos ouvintes, que, com excesso de notícias e comentários, terceirizavam a opinião para uma minoria de comentaristas "especializados".

Indo na cola do noticiário populista, Ratinho lembrava o finado locutor baiano Raimundo Varela, com seu juízo de valor barato que, no fim de cada comentário, encerrava com alguma batida. Varela reagia dando socos na mesa, já Ratinho, originalmente do Paraná, batia com um cacetete.

O "opinionismo de FM", que para as classes populares era representado por esses locutores broncos e, para as classes abastadas, pelos "especialistas imparciais" que reproduziam as visões de mundo do empresariado, derrubaram a ilusão de que a overdose de informação, no Brasil, era sinônimo de "liberdade de expressão".

Tirando uma exceção aqui e ali, como o saudoso Ricardo Boechat, da Band News, os comentaristas da mídia televisiva e radiofônica se comprometiam a promover a obesidade informativa de pessoas que recebiam notícias e opiniões sem parar para pensar, sem dar uma pausa para respirar e analisar a opinião transmitida. Mesmo o bonapartismo pseudo-esquerdista de Mário Kertèsz, da Rádio Metrópole, em Salvador, não escapa dessa avalanche noticiosa ininterrupta.

E isso fez com que o opinionismo gerasse um público de pseudo-intelectuais, que com seus carrões caros sintonizavam o rádio FM se achando "esclarecidos", gente que se gaba em "não ter opinião" até ouvir seus comentaristas de estimação falarem quase sempre a visão do empresariado, criando nos ouvintes um cenário imaginário onde a Bovespa, a Avenida Paulista, o Maracanã e os botecos de Ipanema são colocados lado a lado numa hipotética "nação noticiosa".

Essa overdose de informação foi crucial para o nível de opinião dos pretensos formadores do senso comum se tornar mais conservador, indo desde as maravilhas de defender "objetivamente" as privatizações de empresas públicas até promover o fanatismo pelo futebol como "guerrilha política" de mentirinha. Tudo isso com TVs e rádios FM se transformando em "satélites do planeta Folha", como se o periódico da família Frias fosse a personificação do "paraíso" em termos de notícia e opinião.

E assim a bola de neve cresceu e a overdose de informação, defendida no Brasil sob as desculpas de "prestação de serviço" e "defesa da cidadania", convertendo meros comentaristas de notícias em dublês de juristas e prefeitos, fez a opinião pública ser privatizada e desnorteada para visões mais elitistas e conservadoras, enquanto um público ouvinte e telespectador, achando que nasceu "sem opinião", se gaba em "pensar" de forma subserviente conforme seu comentarista de estimação.

Daí que figuras como Ratinho deitam e rolam, enquanto as transformações da sociedade brasileira, que escapam das visões editoriais de jornalões, telejornais patronais e rádios "ounius", são mal compreendidas e até repudiadas.

Talvez se houvesse um freio para esse bombardeio de notícias que impede as pessoas de parar para respirar e pensar ajudasse a compreender melhor a realidade e verificar que uma mulher trans como Erika Hilton merece respeito e consideração, principalmente pela ajuda que ela faz para tornar o Brasil menos desigual. Um pouco menos de agenda setting e mais de vida humana é necessário para abrir nossas consciências e não aceitar aberrações como Ratinho.

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