VÁRIOS PAIS DE FAMÍLIA POUCO IMPORTAM COM O CANCELAMENTO DOS CURRÍCULOS, MAS EMPRESAS PODEM ESTAR JOGANDO FORA A OPORTUNIDADE DE TER UM EXCELENTE PROFISSIONAL, PRINCIPALMENTE PARA AS HORAS DIFÍCEIS.
A triste realidade de que o mercado de trabalho não está aceitando mais currículos é algo para pensar, principalmente com o moralismo de pais de família que passam pano e até apoiam as imposições de empresários e patrões que só traz dificuldades para quem procura emprego.
Ter um trabalho de acordo com a vocação, por exemplo, é luxo. O moralismo familiar diz que é frescura. Há um desprezo pela missão social do trabalho e ainda resiste uma visão corrente, durante a ditadura militar, de que a necessidade é puramente de ganhar dinheiro.
E aí os pais acham “ótimo” que as empresas tenham cancelado o recebimento de currículos, que a “novidade” é que os recrutadores “não têm tempo” para verificar os currículos e a manobra é o candidato conversar com o funcionário de uma empresa para procurar um gerente para pedir pessoalmente um emprego. Sendo trabalho precarizado, tudo bem.
Só que esse verdadeiro boicote aos currículos é uma rajada de metralhadora nos pés, neste país comandado pela Faria Lima. Pessoas preparadas para fazer uma empresa crescer ou para salvá-la nos momentos de dificuldades são desprezadas pelos recrutadores, que preferem “estrelas” ou “gente bonita” para trabalhar.
Rejeitar currículos é comparável a implodir uma caverna sem ver se tem uma mina de ouro por dentro. O verdadeiro talento não vai ficar conversando com um funcionário para saber onde está um gerente. Vários fatores tornam essa iniciativa pouco exitosa.
Primeiro, se o funcionário é veterano, ele sabe que há o risco de perder o emprego e pode dizer ao candidato que o gerente está “ocupado”. O funcionário mais novo em tempo de trabalho pode ser mais receptivo, mas pode depois ver que um concorrente está a caminho.
Segundo, é ingenuidade atribuir a um gerente uma possibilidade de encontro pessoal se isso é ainda mais complicado do que receber currículos. Um gerente irá perder seu tempo para ouvir alguém pedindo trabalho? Ele também teme ver aproveitadores procurando ele, isso quando não se cogita o risco de uma represália.
O mercado de trabalho tem seus vícios e graves problemas. É certo que muitos pais de família glorificam o empresariado e o patronato e são comuns as brigas que eles têm com os filhos que não compartilham essa postura.
Só que devemos ver que, se mercado de trabalho, da forma como está, fosse algo divino, Daniel Vorcaro seria Jesus Cristo. E também é inútil nossos patriarcas “admitirem” que o mercado tem defeitos e depois passar pano neles, pois isso só revela uma complacência com os abusos e erros dos empresários, patrões e recrutadores.
Enquanto isso, o currículo de quem poderia salvar uma empresa da crise se perde sob um monte de lixo.
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