O Brasil comandado pela Faria Lima vê o circo da polarização pegar fogo. De um lado, o lulismo, de outro duas forças que não se confundem, o bolsonarismo e setores reacionários da direita moderada, quietos há três anos e hoje reativos dez anos após o golpe de 2016.
No entanto, a disputa de narrativas, mesmo dentro do contexto do poder da mídia venal, já não é a mesma coisa. Há o caso do PowerPoint do casos do Banco Master, transmitido pelos noticiário da Globo News de 20 de março de 2026, que mostrava integrantes do governo Lula citados sem qualquer confirmação nem o devido contexto das supostas denúncias, relacionadas com supostas conexões dos negócios espúrios do banqueiro Daniel Vorcaro, hoje preso.
O episódio teve repercussão bastante negativa. Ex-jornalistas experientes da Rede Globo, como Neide Duarte e Ary Peixoto repudiaram o uso do PowerPoint. Neide escreveu que “qualquer tio do churrasco faria uma matéria dessas”.
Com esse efeito, a jornalista Andreia Sadi, no programa Estúdio I, também da Globo News, pediu desculpas afirmando que “o material estava errado e incompleto e também não deixou claro o critério que foi usado para a seleção das informações”, acrescentando que a matéria estava em “desacordo com os nossos princípios editoriais”.
Vivemos uma situação diferente da de 20 anos atrás, no entanto. Não se trata de um maniqueísmo comparável à luta entre os lavajatistas (parcela golpista que emergiu do escândalo do “mensalão” e gerou o bolsonarismo) e os lulistas, até porque o presidente Lula, hoje, está ainda mais moderado e tendo conquistado parte da direita moderada que lhe fez oposição.
Hoje esse esquerdismo mainstream está menos ousado, se é que havia feito alguma ousadia antes. Diante de João Goulart, que era um fazendeiro criador de gado, o ex-operário Lula sempre foi tímido no sei esquerdismo. Temos hoje um “esquerdismo” de promessas, retóricas e opiniões, quase nunca de ações concretas.
É certo que o PowerPoint da Globo News soou grosseiro e primário no seu antipetismo infantilesco mais digno de moleques ressentidos praticando vandalismo. Devemos criticar o governo Lula pelos erros que ele cometeu. Condenamos a narrativa lavajatista, embora reconheçamos que o lulismo hoje anda muito decadente e pior do que o que o presidente Lula mostrou nos seus dois mandatos anteriores, já moderadíssimos, porém bastante esforçados.
Nosso esquerdismo atual está tão frouxo que, no âmbito cultural, ele absorveu muitos fenômenos de direita que, supostamente, estavam associados à alegria do povo pobre, o que é sinal da falta de discernimento da pequena burguesia quanto o que seria realmente significativo para as classes populares.
Tudo de repente ruiu em narrativas fragmentadas e concorrentes. Se a narrativa lavajatista relançada pela Globo News não consegue mais surtir o efeito unificador da direita golpista de 2016, o "combate ao preconceito" que, em 2002, não consegue mais promover a "frente ampla" do brega-popularesco na sua busca generalizada em algum lugar "ao Sol tão bonito da MPB", hoje vive uma polarização ideológica, depois que uma parcela aderiu ao bolsonarismo.
De um lado, temos o "baixo astral" do breganejo, de grande parte do forró-brega de "corno" e de alguns ídolos cafonas mais antigos. Alguma ovelha "verde-amarela" da axé-music, do "funk". De outro, a "alegria" da axé-music, do "pagode romântico" e do "funk", ou de algum forró-brega mais "alto astral". A polarização entre lulistas e bolsonaristas também segue o tom e mesmo cantores musicalmente idênticos como Odair José e Amado Batista se dividem nessa trincheira ideológica.
Esse cabo-de-guerra ideológico torna-se bastante tóxico e banalizado, com os dois lados se achando vitoriosos na sua discurseira. Mas isso faz o Brasil ficar bastante confuso e tenso, não ajudando a promover o progresso político nem o sociocultural. Pelo contrário, essa disputa de narrativas frouxas só tende a piorar as coisas.
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