A música brega-popularesca é a música comercial por excelência do Brasil. Mas seus defensores, uns com arrogância, outros com a falsa imparcialidade dos “isentões”, despejam sempre o bordão “você não precisa gostar, mas tem que respeitar”. “Respeito”, no caso, é uma desculpa para blindar o complexo de superioridade que os fenômenos musicais popularescos exercem por conta do sucesso estrondoso.
A narrativa tenta fazer crer que esses fenômenos são “naturalmente populares”. Fala-se que esses sucessos musicais refletem os “sentimentos do povo”, falam da “vida cotidiana das classes populares” e por aí vai. Mas tudo isso é conversa para gado bovino dormir.
A música brega-popularesca não é popular, ela é “popularizada” por um poderoso lobby que em nada lembra a dita “autossuficiência das periferias”. Se os fenômenos popularescos expressam culturalmente alguma coisa, são os interesses de riquíssimos e muito poderosos empresários do entretenimento, que são parceiros de empresas multinacionais e grandes proprietários de terras. Reforma agrária na MPB é o cacete.
Daí que é estranha essa defesa toda. Se a música brega-popularesca fosse realmente a “mais pura expressão da cultura do povo pobre” não havia essa poderosa indústria que inclui o apoio escancarado da mídia venal. Portanto, nada a ver com a falsa vanguarda dos devaneios etnocêntricos da intelligentzia “sem preconceitos”, mas muito preconceituosa.
O que existe é um lobby poderoso e um esquema de marketing sofisticado demais para um tipo de música marcado pela mediocridade. São músicas feitas para trilha sonora de bebedeira, mas a mídia força o vínculo afetivo extremo. E sabemos que a mediocridade gera mais fanatismo, porque seu apoio não é sólido, daí que sua defesa é obsessiva, como nos fundamentalismos. Tudo feito à força, pela raiva.
Só para comparar, vamos citar, no terreno oposto ao popularesco, uma vertente da MPB que é ridicularizada (por pura inveja) pelos defensores do brega-popularesco, que é a Bossa Nova, marcada pela surpreendente criatividade musical e artístico-cultural..
Na Bossa Nova, seus adeptos defendem com serenidade e humildade. Por outro lado, no "funk", no "sertanejo", no "pagode romântico" e na axé-music, a defesa é mais agressiva, porque a mediocridade artística traz essa insegurança de apoiar essas tendências, daí seu "gabinete do ódio" que pude ver nas redes sociais desde 2005.
O papo de que “ninguém precisa gostar mas deve respeitar (sic)” os fenômenos popularescos mais parece o velho moralismo alimentar dos anos 1940, empurrando chás amargos para a criançada. Se bem que a música brega-popularesca nada tem de nutritiva, muito pelo contrário. Sua elaboração sempre teve valor duvidoso, é claramente inspirada numa leitura provinciana do pop estadunidense e, portanto, os sucessos "populares demais" são o suprassumo do viralatismo cultural.
Prefiro inverter o discurso e dizer: "Ninguém precisa detestar a música brega-popularesca, podendo até gostar, mas deveria admitir que ela não tem valor relevante e precisa de uns copos de cerveja para descer no organismo".
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