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A PEGADINHA DE FALSOS ESQUERDISTAS

FIQUEM ESPERTOS - APESAR DE ESTAR JUNTO A LULA (CENTRO), LINDBERGH FARIAS (DE CAMISA POLO) E MARCELO FREIXO (D), O PREFEITO CARIOCA EDUARDO PAES (DE CAMISA AZUL MARINHO E CALÇA CINZA) É UM POLÍTICO DE DIREITA, QUEIRAM OU NÃO QUEIRAM LULISTAS E BOLSONARISTAS.

Nesta foto acima, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, aparece na inauguração de um túnel que integra um novo complexo viário no bairro de Campo Grande, na Zona Oeste carioca. Ele aparece ao lado do presidente Lula, o que faz muita gente crer, principalmente os bolsonaristas, que o prefeito carioca é um figurão da esquerda política local, certo?

Errado. Erradíssimo. Eduardo Paes é um político de direita, mas que usa o esquerdismo como sua marquise ideológica. De valentões de Internet a políticos arrivistas, passando pelos intelectuais pró-brega, por tecnocratas ambiciosos e por latifundiários nordestinos, há uma parcela da direita brasileira que, mesmo incluindo antigos apoiadores da ditadura militar, passou a apoiar "incondicionalmente" o presidente Lula por ele ser mais mão aberta no atendimento aos interesses estratégicos de cada um destes segmentos sociais.

Bancar o esquerdista favorece a lacração nas redes sociais. Faz do internauta reacionário, que humilha os outros nas redes sociais devido a alguma discordância qualquer, um "cara legal", bastando apenas anunciar que "vai votar no 13" nas próximas eleições. Faz, também, pretensos intelectuais ganharem a reputação de "modernos" e faz oligarquias darem a falsa impressão de que "se abriram aos novos tempos". 

Como jornalista, não posso subordinar a interpretação da realidade ao império dos escritórios, gabinetes e outros ambientes fechados. Também não posso me sujeitar aos caprichos das narrativas de lulistas e bolsonaristas, o que significa que também não posso escrever para trazer abordagens agradáveis.

A realidade não é assim como as pessoas ditas "legais" querem que seja. No que se diz a ideologia, não existe essa coisa das esquerdas acharem que se fulano é de direita mas os esquerdistas gostam dele, ele vira "de esquerda". Do mesmo modo, também não há esse negócio da extrema-direita dizer que se sicrano é de direita e os bolsonaristas odeiam ele, ele vira "de esquerda".

A realidade é complexa e as esquerdas médias é que, com suas posturas estranhas para seu meio, permitem esse duelo de mentiras de dois lados. O lulismo foi composto por uma invasão "alienígena" de gente que odiava Vargas e Jango, que defendeu o golpe de 1964 e o AI-5, que apoiou Collor e FHC mas que, salvo exceções, sem abrir mão de seus princípios, passou a apoiar Lula vidando vantagens sociais estratégicas.

Poucos se tornaram "esquerdistas-novos". Muitos continuam de direita, de forma não declarada. Os antigos apoiadores da ditadura, José Sarney e Mário Kertèsz, usam o esquerdismo como marquise a partir do abrigo partidário do MDB e hoje tentam se projetar sob a sombra do presidente Lula. 

Eduardo Paes apoia Lula porque o petista tem mão aberta para financiar projetos políticos do prefeito carioca. Vide festivais de música, eventos esportivos de ponta e construções que atendem a interesses de grupos empreiteiros, como complexos vários, escolas e hospitais públicos e conjuntos habitacionais. Paes sabe que um Tarcísio de Freitas ou um Bolsonaro da vida não iriam liberar verbas estatais tão generosas quanto as de Lula.

Mas não há um único vestígio, um único sequer, de qualquer medida de Paes em prol das classes populares, que possa justificar o hipotético esquerdismo que se atribui ao carioca, cujas camisas de colarinho têm o cheiro forte da burguesia da Faria Lima misturado com o calor das areias da Barra da Tijuca. 

Mesmo as atenções que Paes dá para a parte humilde da Zona Oeste carioca (Campo Grande, Bangu, Santa Cruz e Sepetiba) soam mais como criação de um curral político do que para um mínimo ato de benefício para a população mais necessitada.

O prefeito Eduardo Paes até ensaiou um quixotismo ao relançar o "pesadelo sobre rodas" que é o "baile de máscaras" dos ônibus padronizados. Ele fingiu brigar com o empresariado dos ônibus cariocas, mas tudo o que fez foi beneficiar politicamente a poderosa família Constantino, do Grupo Comporte, acusada de querer montar monopólio no transporte rodoviário paulista. 

E não nos esqueçamos que, quando Eduardo Paes lançou a pintura padronizada nos ônibus cariocas em 2010, os busólogos que mais apoiaram a medida eram bolsonaristas de primeira hora, com todo o comportamento reacionário que depois se tornou conhecido entre os seguidores do "capitão". 

A afinidade com a decisão do prefeito carioca em dificultar o direito de ir e vir da população com a imposição de uma mesma pintura para diferentes empresas de ônibus uniu Paes e os "bolsólogos", esperançosos em integrar o gabinete da Secretaria Municipal de Transportes carioca.

Eduardo Paes é tão esquerdista quanto o Edir Macedo é um babalorixá do candomblé. Mas a pose de "esquerdista" do prefeito carioca, amigo de Luciano Huck e colega de partido de Ronaldo Caiado 
(o carioca e o ruralista goiano são do PSD), soa uma grande pegadinha para quem vive de narrativas fáceis nas redes sociais. 

Temos que encarar a realidade acima do que soa agradável. É preocupante o comportamento de crianças birrentas que contamina muita gente adulta e até idosa,  e isso movimenta o cabo-de-guerra das narrativas da polarização. Gente confundindo juízo de valor com objetividade, opinião com fato, escrevendo bobagens e inverdades nas redes sociais com o apoio de centenas com a mesma visão atrofiada das coisas.

Infelizmente vivemos tempos em que, no Brasil, os fatos não têm voz nem vez, e o negacionismo factual persiste combatendo o senso crítico e se submetendo a mentiras lançadas como pretensas verdades. Assim o Brasil decai, em vez de progredir, e não será a teimosia de uns aloprados que irá salvar nosso país.

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