Se segurem nas poltronas. O obscurantismo religioso disfarçado de ecumenismo futurista, mas que mal consegue esconder seu moralismo punitivista mesmo com doces e suaves palavras, usará o cinema para adoçar corações e mentes com sua mancenilheira da fé.
Títulos como “Nosso Lar”, “Mensageiros”, “Sexo e Destino”, “O Advogado de Deus” e “A Viagem” puxam uma onda de dramalhões melosos e vergonhosamente piegas que prometem ao público incauto “esclarecimento, luz e sabedoria através do entretenimento”, sob a chancela do Espiritismo brasileiro, nome de fantasia para o Catolicismo medieval que vigorou no Brasil colonial.
A burguesia ilustrada está feliz da vida. Vai ver filmes que, a seu ver, “trazem lições de vida” e “são até divertidos”, sem falar daquela masturbação pelos olhos que é a comoção reduzida a um mero divertimento fútil, não raro às custas do sofrimento alheio.
E alguém pensa que esses filmes “espíritas” são ou serão lançados por generosidade humana e pelo saudável propósito de esclarecer e evoluir as pessoas, através da “boa nova”? Quanta ingenuidade!
Nos anos 1990, quando os neopentecostais estavam em ascensão, o discurso coitadista era o mesmo dos “espíritas” de hoje. Naquela época, ser “evangélico” era um atrativo e novelas bíblicas (sob a ótica neopentecostal) também prometiam “valores elevados”, “mensagens sublimes” e “grandes lições de vida”. Canções “gospel”, mesmo com cantores berrando, eram “mensagens do Alto” e pastores e “bispos” eram vistos como a salvação de vida para muitas pessoas. E continuam sendo, para muitos.
Cerca de 30 anos depois, tudo isso resultou no que atualmente conhecemos como o braço religioso do bolsonarismo. As seitas neopentecostais se revelaram reacionárias, preconceituosas e obscurantistas, embora também assistencialistas dentro de seus princípios, acolhendo os pobres diante da lacuna do poder público em atender a sociedade mais carente.
E o Espiritismo brasileiro? Com as devidas diferenças de contexto, a farsa se repete. O discurso coitadista, a narrativa salvacionista, a suposta despretensão e a defesa de "valores da família cristã", mesmo que sob um prisma mais "flexível", remetem a mesma campanha que os neopentecostais fizeram há três décadas atrás.
E vimos que as seitas neopentecostais tentaram consolidar o apoio do público com novelas e filmes, com interpretação supostamente "realista" dos textos bíblicos, com ênfase no Velho Testamento. Já o Espiritismo brasileiro, por sua vez, tenta investir em enredos "contemporâneos", mas dentro de narrativas que remetem, em parte, ao Novo Testamento, dentro de leituras permitidas pelo Catolicismo medieval.
Afinal, o Espiritismo brasileiro estabelece profundo silêncio em relação a parábolas como a do mau credor, porque esta parábola, presente no Evangelho de Mateus, capítulo 18, versículos de 21 a 35, contraria os interesses dos opressores.
Devemos lembrar que os opressores, dentro da Teologia do Sofrimento, verdadeira fonte dos postulados "espíritas" adotados no Brasil, são vistos como "instrumentos" da suposta evolução espiritual dos oprimidos, que, segundo a religião, devem sofrer calados as piores desgraças em troca das "bênçãos eternas" no "além-túmulo".
E tudo isso foi, é e será "ensinado" pelos dramalhões que integram o chamado "cinema espírita". Eu, quando segui a religião, tive a provação de assistir a alguns deles, pude conferir que esses enredos são antiquados, piegas, com um repertório moralista que remete, quando muito, aos anos 1940 do século passado, já fedendo a velhas ideias medievais que, no entanto, muita gente boa pensa ser "atemporal" e "futurista".
Fico muito triste ao ver que esse obscurantismo religioso fantasiado de dramaturgia, se servindo, muitas vezes, da vitrine de talentosos atores de televisão - outro recurso já feito, antes, pelas seitas neopentecostais - , pretende criar uma onda de filmes falsamente "esclarecedores", mas que na verdade vendem bolor como recheio de um bolo novo. Os chamados "filmes espíritas" se lançam enganando as pessoas que, deslumbradas, cairão nessa emboscada da fé medieval disfarçada de "sabedoria".
A triste história dos "neopenteques" vai se repetir, apenas reescrita sob um novo roteiro.
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