CORTEJANDO RITMOS POPULARESCOS, RAIMUNDOS E MAMONAS ASSASSINAS FIZERAM OS JOVENS SE AFASTAREM DA CULTURA ROCK, COM A AJUDA DOS LOCUTORES POP DAS RÁDIOS "ROQUEIRAS" 89 FM E CIDADE.
Assumir, em tese, uma causa nem sempre quer dizer ser amiga dela. Às vezes, é para destruir a causa por dentro. A raposa que cuida do galinheiro não vira uma nova espécie de galinha, continua sendo raposa e predadora. Da mesma forma, o lobo em pele de cordeiro não vira uma ovelha.
Nos anos 1990, o radialismo rock sofreu uma piora muito grande. No lugar daquelas rádios com personalidade e estilo, entraram as rádios de linguagem pop que apenas tinham um vitrolão roqueiro ou algo parecido, pois tocavam apenas nomes comerciais ou medalhões.
Depois que vimos um festival de mentiras em matéria sobre os 40 anos da 89 FM - pelo menos deveria ter a educação de dizer que a 89 surgiu quando Britney Spears fez quatro anos de idade - , refletimos como um radialismo rock deturpado, que nos anos 1990 adotava uma linguagem, perfil e mentalidade análogas à Jovem Pan, influiu mais negativamente do que positivamente na cultura rock.
As narrativas dizem que foi a favor, mas a realidade das circunstâncias mostra o oposto. Prestemos atenção nas bandas tocadas: Raimundos e Mamonas Assassinas, que foram os maiores sucessos da 89 FM e sua congênere no Rio de Janeiro, a Rádio Cidade (cujos locutores bebiam chope no Baixo Gávea com os caras da Jovem Pan Rio).
Os Raimundos lançaram um disco que supostamente tirava sarro com o sucesso do É O Tchan, intitulado Só No Forévis, com direito a glúteos femininos na contracapa e, na capa, os membros da banda com instrumentos de pagode. A animada paródia não seria uma forma sutil de atrair os adolescentes para o som popularesco?
E os Mamonas Assassinas, a banda que faleceu no auge da carreira, comovendo um país inteiro? O som do grupo, que dava ênfase no humor, fazia paródias nada depreciativas ao som popularesco, como o “sertanejo” e o “pagode romântico” e, principalmente, o brega de raiz. Uma das faixas, “Lá Vem o Alemão”, contou com a participação dos grupos Negritude Júnior e Só Pra Contrariar (Alexandre Pires incluído).
O fenômeno dos Mamonas gerou uma cema de bandas engraçadinhas que eram “distribuídas” para as rádios pop e as ditas “roqueiras” conforme o som. Grupos como Fincabaute e Pino Solto, com sonoridade próxima ao Dr. Silvana, rolavam na Jovem Pan, enquanto a dupla “rockaneja” 89 e Cidade vinha com Ostheobaldo, Baba Cósmica, Velhas Virgens e Peter Perfeito, entre outros. Os Virguloides, juntando rock pasteurizado com “pagode romântico”, aparecia nos dois lados.
Isso criou nos jovens uma curiosidade com o som popularesco, o que diz muito dessa mentalidade nada roqueira daqueles que operavam as “rádios rock”, desmentindo o que Júnior Camargo falou recentemente para a Rolling Stone Brasil, sobre a tal "resiliência" da 89 FM no rock.
A falta de pessoal especializado nas rádios fez com que o rock perdesse terreno como referência musical da juventude. Em vez de orientar os ouvintes para o rock, os locutores poperó da 89 e Cidade, até pela sua falta de identificação natural com o rock, acabaram estimulando a garotada a mergulhar fundo na música popularesca. Assim, a juventude se afastou da cultura rock por achar o brega-popularesco mais divertido.
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