É preocupante a forma com que o empresariado investe na cultura rock com suposto entusiasmo e dedicação. Diferente do que acontece lá fora, quando as gerações recentes descobriram bandas e músicos dos anos 1960, 1970 e 1980, passando admirar suas músicas, no Brasil o que se vê é uma exploração comercial do revival roqueiro, principalmente o Rock Brasil, reduzido a um misto de karaokê, convescote e coluna social, que trata o rock como um som sem alma..
E aí vemos cenas caricaturais, no perfil da 89 FM A Rádio Rock (feller) no Instagram, de uma moça eufórica pegando pilhas de discos de vinil, como se fosse uma ensandecida fã de rock. Mas tudo muito idiotizado, mais uma questão de consumir rock do que em valorizar a música, a cultura.
E aí temos até eventos pretensiosos,voltados para a alta sociedade, que juntam rock e orquestra, descontextualizando a coisa. Mas se até no trap temos MC Hariel nessa empreitada, o que dizer do rock? Tudo bonito na embalagem, mas sem alma, sem a energia original, sem o contexto social originário dos roqueiros brasileiros.
E que cultura rock temos no Brasil, que só serve de trilha sonora para tiozões do food truck e para dos enzos dos parquiletes (parklets)? O pessoal canta versos como “Nas favelas, no Senado, sujeira pra todo lado”, “Eu me perdi na selva de pedra” e “Sou uma minoria mas pelo menos falo o que quero apesar da repressão” sem ter ideia do que tais letras querem dizer.
A situação é gritante e mostra o cinismo de empresários, publicitários e radialistas que se passam por “amigos do rock”, que acham que podem vestir a camiseta preta e fazem gestos ridículos como o sinal do capeta com as mãos e as linguinhas para fora. Sem falar do bordão “Hoje é Dia de Rock, bebê!”, que é a coisa mais horrível feita em nome do gênero.
Isso nem de longe valoriza a cultura rock. Só traz mais dinheiro para quem promove esses espetáculos que nem acrescentam muito à cultura roqueira por se concentrar somente nos hits. E isso num mercado que investe numa overdose de shows internacionais, que, pelos seus preços extremamente caros, afastam grande parte dos fãs dos artistas relacionados, pois não têm grana para pagar esses ingressos nem as refeições caras e ruins oferecidas nos eventos.
Tudo vira apenas negócio e já dá para perceber como os jovens acabam canalizando suas rebeldias com a música brega-popularesca, que nada tem de rebelde, mas custa barato e é de fácil acesso por esse público. Reflexos de um país culturalmente devastado e atrasado que é o Brasil.

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