INTÉRPRETES CONSIDERADOS BAIXARIAS MUSICAIS NO COMEÇO DOS ANOS 1990.
Hoje temos um grande problema que é a nostalgia pela nostalgia. A supervalorização dos anos 1990 e 2000 no Brasil, como épocas supostamente gloriosas, mostra a falta de discernimento das pessoas a respeito do que era antigo e saudoso.
Nas redes sociais, há relatos até certo ponto consistentes de que,nos últimos anos, as pessoas passaram a ser escravas da tecnologia e a trocar brincadeiras saudáveis por estranhos “desafios da Internet”, coisas do nível de “passar meia hora com a cabeça dentro de um balde d’água”.
Um meme com imagens produzidas nas redes sociais circula mostrando várias comparações. É o contraste do rapaz sem tatuagem que, na praia, aparece com bermuda florida e o rapaz tatuado com flores no corpo, também na praia, usando uma bermuda branca. Uma moça com traços naturais de seu rosto, no passado, enquanto que, hoje, há a moça com lábios exageradamente esticados devido à plástica. A criança de ontem que brincava de pipa e a criança de hoje que manipula um drone.
Sim, os valores sociais no Brasil decaíram tanto que muitos jovens vão assistir a shows ou a sessões de cinema com seus celulares estendidos, gravando imagens. Isso é um fenômeno mundial, é verdade, mas é no Brasil que ele se manifesta até as últimas consequências. Lá fora, é apenas um vício como tantos outros, mas no Brasil é um meio de “farmar a aura”.
Mas isso não quer dizer que se possa investir cegamente numa nostalgia preguiçosa em que tudo que é antigo é maravilhoso. Muita coisa medíocre anda sendo vendida como “vintage” de maneira irresponsável, só porque, à primeira vista, parece “melhor” do que os fenômenos de hoje em dia.
Foi nos anos 1990 que se plantou ou se cultivou a mediocridade de hoje. Na música brasileira, os fenômenos brega-popularescos da época só pareciam “legais” porque havia a figura do arranjador, além do fato de que muitas canções não são de autoria dos intérpretes, mas de outros compositores.
Além disso, a mediocridade musical de um passado recente não se torna mais valiosa com as baixarias musicais de hoje. As baixarias musicais, assim como a estupidez cultural de 35 anos atrás, não viraram preciosidades. Não há um perecimento reverso, ou seja, uma perenidade, o que era porcaria antes continua sendo porcaria hoje.
As disputas de “farmar a aura” são as “baladas” dos anos 1990, quando jovens riquinhos e bonitos se entupiam de ecstasy (a “bala” em questão) e dançavam um som eletrônico qualquer nota, tocado em alto volume sob luzes frenéticas, ambos arrasando com a visão e a audição.
Mas isso era “normal”, porque foi há 30 anos e era “melhor” do que ficar hoje em roda de amigos sacudindo as mãos e contorcendo o corpo como nessas disputas de “farmar a aura”. Fala-se mal dos caras que dão cambalhotas por nada, mas nas “baladas” a tal conquista amorosa das propagandas tornava-se impossível pois, com tanto barulho, não dava sequer para saber o nome de pretendente, se era Jennifer ou Gislaine, Rodolfo ou Rodrigo.
E na música? Hoje Mastruz Com Leite e Magnificoss são “forró de raiz” e Chitãozinho & Xororó a “mais pura moda de viola”, mas nos seus tempos eles trucidaram sem dó o cancioneiro regional brasileiro, com uma crueldade sem escrúpulos.
O recente saudosismo da Xuxa, na sua turnê O Último Voo da Nave, mostrou o quanto patética foi resignificar a mediocridade musical em mais uma nostalgia fabricada, após o aberrante fenômeno de “Evidências” com Chitãozinho & Xororó.
A indústria do entretenimento ainda tenta vender Odair José como “subversivo” e Michael Sullivan como “artesão da MPB”, quando o primeiro demonstrou fazer um bubblegum politicamente correto e o segundo um compositor comercial (fazia com Paulo Massadas a dupla Sullivan & Massadas) que queria destruir a mesma MPB da qual ele recorre agora para tentar salvar a carreira.
E a supervalorização de nomes que nem são ou foram essas maravilhas, como Michael Jackson e Guns N'Roses? O “Rei do Pop” tratado como “guru visionário “ somente no Brasil, pois nos EUA ele foi apenas um ídolo comercial que depois de um sucesso estrondoso decaiu. E chamar Guns N'Roses de “classic rock” é achincalhar a inteligência humana, pois há bandas de rock mil vezes superiores do que a banda medíocre do encrenqueiro Axl Rose.
A mediocridade de ontem era apenas um pouco mais organizada que hoje. Pode até estar associada a lembranças agradáveis de cada pessoa, mas daí a dizer que foram fenômenos geniais e brilhantes é um sério equívoco. Lixo de ontem não se transforma no tesouro da posteridade.

Comentários
Postar um comentário