O QUE MUITOS ENTENDEM COMO BULLYING JÁ EXISTIA NO BRASIL HÁ TEMPOS, COMO NO SÉCULO 19.
As redes sociais discutem a invasão de palavras em inglês na nossa língua. Mas, infelizmente, as críticas ainda se prendem a termos de uso técnico ou midiático, como ‘delivery’, ‘staff’, ‘feedback’, ‘business’, ‘flat' etc.
As pessoas, no entanto, passam pano em palavras “cotidianas” como ‘body’, ‘bike’, ‘snack’, 'vibe', ‘boy' e ‘dog’, entre outras. Fake news, uma expressão correspondente ao plural, é falada no singular por uma população que se esquece que “nenhum” e “nenhuma” têm plural, “nenhuns” e “nenhumas”.
Até na publicidade temos exemplos de mensagens puramente idiotas baseadas nesses “dialetos” do portinglês. Uma disse, em claro instinto viralata: “Mais do que amigos… friends”. Outra mensagem imbecil, recente divulgada, diz: “Não importa a hour, eu quero é happy hour”.
Mas o que chama a atenção é que o termo bullying segue sem tradução em português. A resistência é preocupante, num país que já traduziu um inocente ‘cupcake’ para “bolo de pote”. Não há um bom samaritano que resolvesse esse problema “dessa palavra estrangeira tida como “intraduzível”.
A provável razão é que a palavra bullying virou moda a partir do atentado em Columbine, Colorado, EUA,em 1999. Daí que o uso do termo, sem tradução, na nossa língua tem a ver com o “vocabulário de poder” (words of power) analisado pelo jornalista britânico Robert Fisk.
Nota-se que o Brasil é famoso por sua imagem de “país cordial”, e nas escolas o ato de alunos valentões humilharem e agredirem outros mais frágeis e fora dos padrões sociais dominantes foi, durante muito tempo, visto como uma “saudável brincadeira entre amigos”. E isso apesar da gravidade desses casos ser denunciada há tempos, havendo vestígios até na obra O Ateneu, livro de 1888 de Raul Pompeia.
Neste caso, num país onde muitos valentões de escola se tornaram depois pessoas ricas e poderosas, não se podia falar desse processo de assédio moral como natural. A simbologia em manter uma palavra em inglês tem o sentido semiótico de sugerir aos brasileiros médios que a humilhação de uns contra outros na escola era um modismo importado dos EUA dos anos 1990, pois no Brasil isso “nunca existiu antes”.
Aqui, até se estudantes privilegiados pegassem um aluno socialmente frágil e o jogassem, literalmente, numa lata de lixo, tudo isso era visto pela sociedade e até por diretores de escola como uma “brincadeira entre amigos”, uma demonstração de “pura alegria infanto-juvenil”.
Essa complacência com os valentões de escola era tanta que, quando ser nerd começou a virar moda, o Brasil tornou-se, pelo que eu saiba, o único país em que o valentão se acha o “nerd”. Ou seja, o opressor passou a usar a máscara de oprimido e criando uma falsa identidade, a ponto de desgastar a palavra “nerd”, forçando o “nerd das antigas” a ganhar outra denominação, a de “incel”, que já começa também a se desgastar com o paradigma de “machista júnior”, complicando ainda mais o lado dos oprimidos juvenis.
Sobre o bullying, proponho como tradução o termo “valentonismo”, aproveitando que o termo ‘bully’ significa “valentão”. Mas não sou Luciano Huck para popularizar expressões pouco conhecidas. Ele, um dos figurões da Faria Lima, pôde popularizar a gíria “balada” através de um engenhoso esquema de mídia, que envolve muito dinheiro. Eu só tenho meu blogue e me esforço em divulgar nos espaços de mídias sociais disponíveis.
Enquanto isso, o Brasil faz vista grossa para a verdadeira humilhação que valentões fazem contra pessoas socialmente fora do padrão. A sociedade pensa que isso é “brincadeira de amigos” e que problema mesmo só existe nos EUA e na Europa. Quanta ingenuidade.

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