Pular para o conteúdo principal

A CONTRACULTURA ORIGINAL E A "CONTRACULTURA DE RESULTADOS"

COM TODOS OS EXCESSOS, PELO MENOS A NAÇÃO WOODSTOCK DE 1969 NÃO TINHA UM GOSTO MUSICAL ABERRANTE. O PESSOAL OUVIA BOA MÚSICA.

Foi só elogiar a Andressa Urach para ela voltar a decepcionar, retomando o extinto e, depois, reativado concurso Miss Bumbum, agora como sócia e garota-propaganda.

Certamente que, dentro desse contexto, moças como Aline Riscado e Sheila Mello não ficarão mais legais. Todas fazem parte desse contexto identitarista festivo dos tempos atuais.

Esse identitarismo é uma caricatura do desbunde brasileiro dos anos 1970, uma tentativa tardia de manifestar um hippismo no interior do Brasil, uma onda que durou até mesmo quando o punk já havia sido introduzido no Brasil para valer, em 1980.

Sim, era um desbunde que gerou um grandioso disco como Acabou Chorare, que os Novos Baianos, do saudoso Moraes Moreira, lançaram em 1972 e que tinha a façanha de combinar MPB e psicodelia roqueira.

Era compreensível, naquele Brasil de 1964-1975, que as coisas chegassem atrasado, e ainda mais quando havia um cenário político autoritário e repressivo.

Os Mutantes, por exemplo, poderiam ter tido uma discografia uns dois ou três anos mais antiga, mas só as limitações brasileiras permitiram que o grupo paulista lançassem seu primeiro disco em 1968.

"Ando Meio Desligado", por exemplo, é de 1970, mas soa bem 1967. Não por culpa de Arnaldo e Sérgio Baptista nem de Rita Lee, mas é que o Brasil sempre empurra para mais tarde as oportunidades de dialogar com o mundo.

Os Mutantes até tiveram sorte. Odair José, por exemplo, sempre soou como um cantor de pop-rock italiano de 1964-1966. 

Essencialmente, então, a coisa soa pior.

O ídolo brega, autor de "Pare de Tomar a Pílula", é o equivalente brasileiro do Pat Boone. 

Ídolos como Paulo Sérgio, Luiz Ayrão, Benito di Paula, Dom & Ravel são os equivalentes brasileiros daqueles roqueiros comportados de 1958-1960 que aproveitaram o hiato militar de Elvis Presley. Tipo Paul Anka, Neil Sedaka, Ricky Nelson, Bobby Darin etc.

Tanto isso é certo que Luiz Ayrão virou um compositor hitmaker tipo Paul Anka. E Benito di Paula o nosso Neil Sedaka. Se bem que Anka e Sedaka se tornaram competentes artistas de pop romântico, diferentes da mediocridade de seus similares brazucas.

Eu vi as letras de Odair José. Não vi uma vírgula da canção de protesto atribuída ao cara. Pior: vi um detalhe numa das canções que descrevi no livro Esses Intelectuais Pertinentes..., o clássico (sem ironia) da literatura que muita gente tem medo de ler.

Vão lá ler para entender melhor o assunto. Chega de ver gente fingindo que leu o que não havia lido.

Mas aí temos a grande diferença da Contracultura de 1965-1970 e seu arremedo tardio de 2010 para cá.

Pelo menos os identitários dos anos 1960 não fechavam os olhos para os temas trabalhistas, para as causas ambientais e para a opressão política.

No Brasil de hoje, os identitaristas fecham os olhos para esses temas importantes, e subestimam o golpismo político do qual repudiam apenas pela letra fácil, mas morta, falada ou digitada nas redes sociais.

Eles se sentem confortáveis no pátio que o golpismo de 2016 reservou para as esquerdas brincarem de "fora isso ou aquilo".

É um desbunde ainda menos clandestino, porque inofensivo. Daí que Jair Bolsonaro está brigando com a direita moderada, e não com as esquerdas. Estas estão infantilizadas e quem houver de esquerdista sério tem seu poder de ação institucionalmente bloqueado.

Até Trancoso, um local "perdido" no interior da Bahia, não é tão escondido assim quanto as comunidades hippie de 45, 50 anos atrás.

E o identitarismo que ocorre aqui é tão festivo que cai fácil até nas propagandas de empresas apoiadoras do governo Jair Bolsonaro, com uma porralouquice bem mais inofensiva do que aquela que marcou o episódio dos "Sete de Chicago".

O episódio descrito no filme Os 7 de Chicago (The Trial of the Chicago Seven) - que tem o ex-Borat Sasha Baron Cohen no papel do alucinado Abbie Hoffmann - é uma manifestação da Nova Esquerda (New Left), movimento lançado por Hoffmann e Jerry Rubin nos EUA.

Era uma esquerda porralouca, mas, mesmo assim, combativa. E eles fizeram uma arruaça num evento do Partido Democrata, em 1968, e foram condenados depois por isso.

Não vou detalhar o episódio nem dar espóiler (passo a aportuguesar o termo spoiler, peço que façam o mesmo e espalhem por aí) do filme (em que pese algumas falhas historiográficas), mas menciono para dar uma ideia de como o pessoal era mais combativo.

Hoje temos esquerdas tão inofensivas que facilmente ganham a adesão até daqueles que, há cinco anos atrás, não suportavam um segundo de Dilma Rousseff como presidenta do Brasil.

Eu, de início, até estava gostando de ver jovens brasileiros nascidos da segunda metade dos anos 1980 para frente conhecendo elementos culturais próprios daqueles tempos hippies.

Coisa que nem os pais dessa patota conseguem mesmo entender.

Vamos combinar que muitos dos mais velhos bem de vida são muito ruins de entender o passado. Vide o pedantismo vintage que contagiou, há quinze anos atrás, a geração de empresários, médicos e economistas nascidos nos anos 1950 e que eram figurinhas fáceis no colunismo social.

Eles nunca ouviram mais do que o pop competente e acessível de um Eagles ou Doobie Brothers, e, quando completaram 50 anos, lá por 2001-2005, encanaram que eram "especialistas" de jazz, falando dos anos 1950 e 1960, época de suas infâncias, como se tivessem sido adultos nesse período.

Daí que eles prometeram um Juscelino Kubitschek, mas nos trouxeram um Jair Bolsonaro, um crossover de Jânio Quadros com Ernesto Geisel. Não tinha que dar certo ver um Roberto Justus usando uma desavença com Marcos Mion para bancar o super-intelectual.

E vamos combinar, também, que esses "coroas tão cultos" nunca contribuíram para oferecer uma cultura melhor para seus filhos.

Daí que a música brega-popularesca - que, pelos níveis de persuasão, pode ser também conhecida como Música de Cabresto Brasileira - é a trilha sonora dessa "Woodstock de Disneylândia" que é o identitarismo festivo de hoje.

Enquanto gente sem teto se acumula nas ruas, exibindo miséria seja no Centro de São Paulo, seja no entorno da Central do Brasil no Rio de Janeiro, o pessoal, em nome da "liberdade", torra dinheiro tatuando o corpo, na obsessão doentia de parecer diferente na sociedade.

E isso diante de uma trilha sonora da pesada: "sertanejo universitário", "pagode romântico", forró-brega e "funk".

Haja músicas irritantes, cantores irritantes, haja canastrice, haja pretensiosismo. É muito bumbum tantã, muitos gluteos malucos rebolando ao som de canções horríveis.

Pelo menos, com todos os excessos da Nação Woodstock, a original de 1969, eles ouviam rock psicodélico, rock pesado, blues e folk da melhor qualidade.

Eles tiveram Jimi Hendrix e Janis Joplin. E os "contraculturais" de hoje têm Wesley Safadão e Anitta.

Na "melhor" das hipóteses, coisas muitíssimo medíocres como Jão, Vitão e Luíza Sonza ou a filha nada roqueira do pseudo-roqueiro Zé Luís, da 89 FM, a Manu Gavassi.

Perto desse pessoal todo, a MPB carneirinha de Tiago Iorc, que visualmente está perigosamente parecido com Luan Santana, parece a música do paraíso.

A MPB tropicalista pelo menos é um caleidoscópio de informações. Falem o que falar contra Caetano Veloso, mas ele tem uma virtude inigualável: procura se informar daquilo que ele é acusado de se apropriar culturalmente. 

Seu faro de pesquisador é inegável, em que pese suas passadas de pano na breguice reinante.

Pior são os identotários de hoje, que querem um Tropicalismo sem Caetano, assimilando apenas os pontos negativos do artista.

E aí vemos esse identitarismo festivo, essa "Contracultura de resultados" vigente, pelo menos, desde 2010, fruto da campanha intelectualoide que, patrocinada pela mídia venal, tentou (e, infelizmente, conseguiu) fazer proselitismo na mídia de esquerda.

Gente defendendo a tatuagem (gaduagem?) do corpo, o uso recreativo da maconha, a homossexualidade compulsória, a hipersexualização, uma liberdade amalucada cuja fonte de inspiração, em parte, é o culturalismo conservador e brega trazido pelo hoje bolsonarista Sílvio Santos.

Na melhor das hipóteses, essa "liberdade plena" tem como inspiração o culturalismo burguês da Folha de São Paulo e um vocabulário de poder (ver Robert Fisk e suas "palavras de poder") que inclui a reacionária Jovem Pan como fontes, até mesmo para parte das esquerdas.

É tanta degradação, que, infelizmente, o pessoal passou a "tomar no cool", achando "legal" todo esse lixo brega-popularesco, seja ouvir "funk" e "pagode romântico", curtir sofrência e ver Big Brother Brasil. Ou achar que é vanguarda curtir um esporte saturado e chato como o futebol brasileiro.

O cantor de "pagode romântico" Thiaguinho até tentou ser associado a um factoide envolvendo a it girl Marina Ruy Barbosa - da família do histórico intelectual Ruy Barbosa - , mas ela, pelo menos, disse que nem contato ela tem com o cantor.

Não deu para o "pagode romântico" curtir uma reputação cult como o jazz ganhou a partir dos anos 1950 nos EUA.

Só mesmo aqui a mediocridade é "legal", e para ser cool tem que curtir o "funk", acompanhar os jogos do Flamengo e ficar o fim de noite vendo o Big Brother Brasil. E achar a Aline Riscado e a Sheila Mello as mulheres mais interessantes do planeta.

Não sou obrigado a isso, e vejo com preocupação esse carnaval identotário, que vai da defesa apaixonada da maconha à credulidade nas falsas profecias da tal "data-limite" de um "médium" farsante glorificado por uma "caridade" tão fajuta quanto a de seu discípulo (sério!) Luciano Huck.

O "médium" é uma espécie de Maharishi para a patota identotária, mesmo a de esquerda, chamar de seu, com a mesma fala molenga do indiano, mas pelo menos o falso guru que iludiu os Beatles foi facilmente desmascarado.

Aqui muita gente prefere admitir que Humberto de Campos, depois de morrer, mudou de personalidade e perdeu seu talento, e prefere viver na zona de conforto da dúvida preguiçosa a ter que desqualificar um charlatão através do rigor da lógica.

Entre os alucinógenos materiais das drogas ilícitas e os alucinógenos sobrenaturais do pretenso espiritualismo, os identotários acabam sucumbindo a uma grande confusão mental.

Defendem ideais recreativos que envolvem a libertinagem sexual - à qual se serve uma defesa deturpada, exagerada e descontextualizada da causa LGBTQ - , mas aderem a uma religião, o Espiritismo brasileiro, um Catolicismo medieval de botox e com concessões ao Ocultismo.

Isso porque o Espiritismo brasileiro é anti-aborto, com um radicalismo não muito diferente dos neopenteques da vida.

Mas, para que discutir com as madames e doutores identotários que integram a intelectualidade "bacana" e suas comitivas?

A carteirada de diplomas de pós-graduação, de visibilidade plena nos meios sociais presenciais, do prestígio de documentários e reportagens "imparciais" e de "teses acadêmicas" aplaudidas e transformadas em livros, tudo isso garante a superioridade de nossa intelligentzia.

A intelligentzia retratada no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... e que é culpada por domesticar e infantilizar as esquerdas, contribuindo mais em favor do golpe político do que contra ele.

Afinal, não adianta elogiar Lula e Dilma Rousseff, fazer selfie com Altamiro Borges, exaltar tudo que é esquerdista, pôr sobrenome "Lula da Silva" no perfil do Twitter, se atua em prol da plutocracia patética que esquarteja a Petrobras e espera desaparecer do patrimônio público os Correios e a Eletrobras.

Tanta gente fingida, dentro das esquerdas.

E tanta outra gente confusa, também dentro das esquerdas.

Enquanto isso, os moradores de rua aumentam, com a preguiça acidental que enfurece as elites, mas que é resultado do desânimo pela falta até mesmo da mais árdua oportunidade de superação.

Também, o tal "médium de peruca", o Maharishi do Triângulo Mineiro com apetite pilantrópico igual ao de Luciano Huck, dizia para os oprimidos sofrerem calados e sem queixumes, sob a desculpa de "enfrentarem provas na vida".

Acho que é hora dos esquerdistas começarem a reaprender o que é realmente ser de esquerda e ver a miséria que existe fora do baile das palavras nas redes sociais. 

Este é o diferencial da Contracultura original, bem mais consciente socialmente do que seus arremedos tardios no Brasil.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE. Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha. Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima. Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intele...

A VERDADE SOBRE A “INTERAÇÃO” ENTRE MPB E POPULARESCOS

JOÃO GOMES E JORGE DU PEIXE, DA NAÇÃO ZUMBI - O "coitado" da situação não é o que muita gente imagina ser. Ultimamente, ou seja, nas últimas semanas do ano passado, a mídia noticiou com certo entusiasmo as apresentações da banda de mangue beat Nação Zumbi com a participação do cantor brega-popularesco João Gomes, que agora virou um queridinho de setores da imprensa cultural, da intelectualidade e de setores da MPB mainstream. João virou o hype da vez, desfilando ao lado de descolados de plantão. Dançou com Marisa Monte, fez dueto com Vanessa da Mata e Gilberto Gil e até com som de arquivo de Luís Gonzaga. E fez até pocket show em uma livraria, para reforçar esse novo marketing do popularesco pretensamente cool. Isso lembra o que foi feito antes com Zezé di Camargo, vinte anos atrás. Então lançando o filme Os Dois Filhos de Francisco, do finado diretor Breno Silveira, Zezé e seu irmão Luciano gravaram um disco duetando com artistas de MPB e circulou nos meios artísticos e inte...

O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO , FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO. A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país. Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra. Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso d...

“COMBATE AO PRECONCEITO” ENFRAQUECEU LUTAS POPULARES NO BRASIL

PRETENSO ATIVISMO SOCIOPOLÍTICO, O "FUNK" ENGANOU AS ESQUERDAS, QUE ENDOSSARAM NARRATIVAS PRODUZIDAS PELOS GRUPOS GLOBO E FOLHA. A campanha do “combate ao preconceito”, que gourmetizou os fenômenos popularescos sob a desculpa de ser o “popular com P maiúsculo”, foi uma guerra cultural tramada pela Globo e Folha para enfraquecer as lutas populares no Brasil e permitir a retomada reacionária de 2016. Mordendo a isca, a mídia alternativa, seduzida pelo capataz freelancer de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, que passeou pelas redações da imprensa de esquerda para fazê-la pensar culturalmente “igual à Ilustrada”, quase faliu ao empoderar supostos fenômenos populares que são patrocinados pelo latifúndio, pelas grandes corporações e pelas oligarquias midiáticas. A bregalização, ao ser vista como um pretenso ativismo sociopolítico, sob a desculpa da “provocatividade” e da “reação contra o bom gosto”, desviou as classes populares da participação do projeto progressista de L...

NAÇÃO WOODSTOCK REJEITARIA “EVIDÊNCIAS” E OUTROS SUCESSOS “DESCOLADOS”

Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”. Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário. Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”. Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan",...

ASSALTO NA OSCAR FREIRE É UM RECADO PARA “ANIMAIS CONSUMISTAS”

No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados. O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego. Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transfor...

MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

  NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS. A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível. No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses ...

O BRASIL SERÁ UM MERO PARQUE DE DIVERSÕES?

Neste ano que se começa, temos que refletir a respeito de um Brasil culturalmente degradado que, sem estar preparado para se tornar um país desenvolvido, tende a ser uma potência... de um grande parque de diversões!! Isso mesmo. Um país que supostamente se destina a ser "justo e igualitário" e "inevitavelmente desenvolvido",  por conta do governo festivo de Lula, no entanto está mais focado no consumismo e no hedonismo, no espetáculo e na festividade sem fim. Um país que deveria ter, por exemplo, uma renovação real na MPB, acaba acolhendo um mero hitmaker  comercial da linha de João Gomes. Não perdemos, nos últimos anos, João Gilberto, Moraes Moreira, Erasmo Carlos, Gal Costa, Rita Lee, Lô Borges e Jards Macalé para que a "mais nova sensação da música brasileira" seja um mero cantor de piseiro. Mas esse exemplo diz muito ao astral de parque de diversões que fez o Brasil se tornar esse país excessivamente lúdico nos últimos anos, quando a Faria Lima mostrou...

O SENTIDO EXTREMAMENTE GRAVE DE UMA ACUSAÇÃO CONTRA QUEM REJEITA O “FUNK”

O "FUNK" NÃO FICARIA MELHOR SE SEUS RESPONSÁVEIS E SEU PÚBLICO FOSSEM DE ETNIAS GERMÂNICA E HOLANDESA. Os casos de Thiagsson e Fernanda Abreu revelam o desespero e a paranoia de quem apoia o “funk” e não consegue convencer através de argumentos equilibrados. Forçando a barra, os apoiadores do “funk” agora deram para acusar de “racistas” quem rejeita o ritmo. Isso é tão leviano quanto um vizinho denunciar à polícia um cidadão que levou dois dias para devolver uma furadeira usada para a reforma da casa. Acusar os críticos do “funk” de racistas é de uma gravidade extrema. Afinal, trata-se de um juízo de valor leviano, baseado no etnocentrismo daqueles que defendem o “funk” é que já possuem um padrão pré-determinado de pobreza, uma pobreza ao mesmo tempo “pobre” e “higiênica” dentro de um padrão de “periferia” que envolve favelas, bares decadentes e velhos, ruas sem asfalto, uma miséria tornada espetáculo em todo o imaginário do brega e do “popular demais” em várias de suas verte...