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QUANDO A FÉ FAZ JORNALISTAS TROCAREM CANETA, LÁPIS E TECLADO PELA FLANELA


Infelizmente, o jornalismo investigativo está em baixa no Brasil. Interesses empresariais, de um lado, e conveniências sociais, de outro, barram qualquer chance de um jornalismo transparente e corajoso. Mesmo quando se permite, nos últimos tempos, algum jornalismo que pareça investigativo, é só um arremedo que prima pela forma e não pelo conteúdo, este marcado de muita complacência, enfeitado apenas de uma retórica "imparcial" e "informativa" condescendente com o problema focalizado.

Tivemos a esperança de recuperação do jornalismo investigativo pela mídia progressista, há cerca de dez anos. Era o tempo de uma equipe dedicada, de Mino Carta a Valter Pomar, passando por nomes como José Arbex Jr. e o saudosíssimo Paulo Henrique Amorim. Era também o tempo em que livros como A Privataria Tucana eram lançados, mostrando os bastidores do jogo sujo da política, da mídia e até do futebol.

Depois do golpe político de 2016, outra esperança veio, que é a tentativa de recuperação, pela mídia corporativa, de algum jornalismo investigativo, expresso de maneira tímida. Era um meio da mídia empresarial recuperar a credibilidade perdida com sua gradual inclinação para fake news, pois além dos ataques a Lula havia lorotas do tipo "feminicida de 81 anos tem plena atividade nas redes sociais", mesmo estando muito doente e sem força psicológica para encarar odiadores (haters) na Internet.

Mas, de repente, tudo caiu e o jornalismo brasileiro virou um processo inócuo de transmitir as informações de sempre, às vezes com muitos vícios de linguagem, como o tal portinglês - com expressões ridículas como "doguinho" e o tal "body", "novo" nome do maiô - e o uso da palavra "balada", de longe a pior gíria falada no Brasil em todos os tempos.

O período de Michel Temer foi marcado por uma precarização profissonal, social e cultural em todos os sentidos e isso afetou o jornalismo. Era o tempo de "enxugamento" de tudo, reduzindo de filiais de bancos públicos ao quadro de profissionais nos jornais. Foi nessa época que, por exemplo, os jornais O Globo e Extra unificaram sua redação, depois de um "passaralho" (demissão em massa de jornalistas). E isso sob os aplausos de empresários que hoje querem apoiar Lula.

Atualmente, vivemos um tempo de passagem de pano, sob a desculpa da tolerância. "Democracia" e "tolerância" são usadas como desculpas para esses tempos, como respectivos eufemismos para a volta de uma esquerda domesticada pela direita (as elites sempre usam a "democracia" em causa própria) e para a aceitação passiva de tudo que está aí, ou seja, "passar pano" nos problemas e erros.

Num país em que a liberdade humana é uma franquia de propriedade de umas poucas famílias midiáticas - como Frias, Marinho, Abravanel e Mesquita - e o gosto musical do brasileiro médio, mesmo o estrangeiro, é regulado por uma elite de produtores, editores musicais, donos de rádios e empresários do entretenimento, o ideal é ficarmos calados e não exercermos nosso senso crítico para que o Brasil alcance o Primeiro Mundo e torne-se a sucursal terrestre do Paraíso.

Isso se justifica, conforme o ponto de vista da sociedade controlada pela classe média pequeno-burguesa, essa elite do atraso que agora ficou boazinha, é que, tendo senso crítico, atrapalha-se todo o processo que envolve o jogo de conveniências e de falsas amizades que apenas repagina e atualiza o sistema clientelista que sempre prevaleceu neste "país do jeitinho" que é o Brasil. Daí que, para fazer o Brasil crescer, vale a regra de "ficar calado". 

E isso significa que o silêncio acoberta atos desonestos de toda espécie feitos para apressar a conquista de grandes vantagens socioeconômicas. Triste sina de uma "boa sociedade" que se diz "isenta" ou "progressista" de combinar os "ensinamentos" do AI-5 e do "milagre brasileiro" da ditadura militar, agora sob a desculpa de que "são valores acima dos tempos e das ideologias".

Isso reflete no jornalismo investigativo, que se tornou uma atividade em vias de extinção. E um exemplo disso está numa religião "intocável", o Espiritismo que é feito no Brasil, que coleciona irregularidades e até incidentes suspeitos, como a morte do sobrinho de um "médium", e a imprensa investigativa se cala, preferindo agir em matérias chapa-brancas dotadas de uma pieguice de causar enjoo.

No lugar de um jornalismo sério, textos "objetivos" de pura passagem de pano, seguindo o roteiro da federação que representa essa seita religiosa marcada pela literatura fake, de obras medíocres de propaganda religiosa ou dotadas de obscurantismo moral que usam nomes de mortos para causar sensacionalismo e vender mais, enriquecendo as lideranças e os "médiuns" sob a desculpa de que "vai tudo para os pobrezinhos". Se realmente fosse para os pobres, nosso país seria outro, não é mesmo?

Tivemos, no passado, uma figura corajosa chamada Attila Paes Barreto, que por conta da Internet eu resolvi consultar na Biblioteca Nacional. Ele foi autor de um livro sobre o famoso "médium" (um dos maiores colaboradores da ditadura militar em sua fase mais repressiva), lançado em 1944 em razão do julgamento do caso Humberto de Campos. O livro é uma raridade e quase não se encontra ele, sequer nos sebos.

O julgamento terminou em "pizza"e o filho homônimo do falecido escritor foi assediado em 1957 pelo "médium" mais tarde, através do truque traiçoeiro do "bombardeio de amor" (dominação através de simulacros de afetividade), tramado para um grande evento religioso. O assédio visava forçar a família Campos Veras a cancelar as ações recorrentes do processo judicial fracassado.

O tal "médium" sofre tanta blindagem que ele, neste sentido, é uma espécie de "Aécio Neves do bem". Curioso é que os dois, no final de vida do religioso, se encontraram e sentiram profunda admiração mútua um pelo outro, como um amor à primeira vista. Aécio era o "herói mineiro dos sonhos" do "médium", enquanto Aécio se identificava com a pessoa do religioso. Será pelo arrivismo?

Enquanto o chamado "senso comum" (a opinião que se diz "pública") fica exagerando na dose nas críticas, que são até merecidas, aos neopentecostais, poucos conseguem admitir que o "médium de peruca", não bastasse a produção de literatura fake que agride as memórias de Humberto de Campos e de autores como Auta de Souza, tem um episódio trágico sobre suas costas: a morte suspeita de um sobrinho que queria denunciá-lo.

É assustador que um "médium" que virou "símbolo da caridade e do amor ao próximo" comprando o céu com cartinhas fake de "entes queridos mortos" ou com pacotes de donativos fajutos (tipo Luciano Huck) e é adorado por multidões desavisadas da figura traiçoeira do "bondoso homem", tenha sobre si uma tragédia sombria que nenhum "bispo" neopentecostal tem. Caso mais próximo foi a da pastora Flordeliz, mas seu caso parece um "carnaval" perto do caso do sobrinho do "médium".

Esse sobrinho, chamado Amauri, veio com denúncias sérias contra o tio, acusado de fraudes "psicográficas", um crime de charlatanismo. No entanto, o Espiritismo brasileiro, com sua hipocrisia que o faz autoproclamar "incapaz de caluniar e manifestar ódio contra quem quer que fosse", fez uma campanha caluniando o jovem e manifestando contra ele um ódio profundo a ponto de, como alertou a revista Manchete de 09 de agosto de 1958, o rapaz recebia ameaças de morte do "meio espírita", já com o modo de assassinato definido: envenenamento.

Isso dá pistas sobre a tragédia repentina de Amauri, três anos após denunciar o tio e os dirigentes da federação brasileira e de uma união mineira. Ela teria sido "queima de arquivo". O caso hoje está prescrito juridicamente (ou seja, não cabe mais investigação), mas nada impede que o caso possa ser reaberto um dia, tamanhos os episódios arrepiantes que, por enquanto, a fascinação ao "bom médium" faz cegar as pessoas, mas quando essa perigosa obsessão se encerrar, serão reveladas um dia.

Mais tarde, o "iluminado" tio de Amauri se envolveu planejando fraudes de pseudo-materialização, com uma senhora farsante chamada Otília, e com um escândalo que revelou que o lucro dos livros "mediúnicos" ia para as fortunas pessoais dos dirigentes da federação. Além disso, o "médium" era um colaborador da ditadura militar maior do que Cabo Anselmo, com o reacionarismo publicamente expresso num programa da TV Tupi e sendo homenageado e condecorado pela Escola Superior de Guerra (!).

A professora universitária Ana Loryn Soares, em um livro de 2018, teve em mãos o que poderia indicar um suspeito esquema criminoso de fraudes literárias, com adulterações das "obras psicográficas". Ela poderia ter levado o trabalho para um nível investigativo, mas ela resolveu passar pano na prática, aceitando uma desculpa imbecil de que as "psicografias" eram alteradas depois de publicadas para se tornarem "mais vendáveis e compreensíveis pelo público comum". 

O professor Wilson Roberto Vieira Ferreira é outro que fica passando pano no "médium", achando que a fictícia obra "Nosso Lar", plágio de uma obra da litertura britânica, é "documento científico", se esquecendo, conforme eu li na Internet, que o "médium" é uma coleção extensa de "bombas semióticas" (termo que o semiólogo do Cinegnose sempre costuma usar) das mais perigosas.

Nem se vai falar do caso de Saulo Gomes, um jornalista investigativo competente e sério, mas que, quando conheceu e virou amigo do "médium", deixou de lado esse talento e passou a ser um jornalista chapa-branca, criando uma tendência que contaminou até o portal BBC Brasil, filial da estatal britânica, que se limitou a se lembrar dos 20 anos do "médium" lembrando da "façanha" de vender milhões de livros mesmo tendo baixa escolaridade, num texto cheio de passagens de pano recheadas de depoimentos de "especialistas".

É assustadora essa blindagem que não tem fim, em prol de um "médium" que, segundo seus críticos, é uma síntese religiosa do reacionarismo de Jair Bolsonaro, da esperteza de Aécio Neves e da demagogia assistencialista de Luciano Huck. Não há erro gravíssimo que possa ser investigado e, quando alguém tenta, é tentado pela "força do médium", como Ulisses da Odisseia seduzido por sereias traiçoeiras. 

E para não se limitar a ideia de que os "cantos de sereias" mais perigosos são feitos por "médiuns" feios, o Espiritismo brasileiro "presenteou" a sociedade com belas mulheres, algumas atrizes, estranhamente celibatárias, mesmo algumas tendo trajetória de namoradeiras e casadeiras. Fica surreal vê-las sem namorados num contexto em que Lindsay Lohan, Paris Hilton, Britney Spears e Alexandra Daddario são senhoras casadas.

E isso demonstra o quanto a fé faz com que jornalistas, escritores e outros com promessa semelhante de transmitir informação, troquem o teclado de computador, a caneta e o lápis pela flanela, apegados à fascinação obsessiva pelos "médiuns" e sua positividade tóxica de uma religião medieval de moral punitivista e ultraconservadora, travestida de moderna, mas na prática diferente da doutrina original de Allan Kardec, que condenaria 99,99% do que fizeram com sua doutrina no nosso país, reprovando sobretudo a idolatria cega aos "médiuns", vergonhosa aberração que só existe no Brasil.

Fico muito triste e indignado com essa religião da qual me livrei há 10 anos e não quero voltar jamais. Gostaria que outras pessoas se livrassem também desse fardo horrível que é o Espiritismo que se faz no Brasil, esse pesadelo astral de livros fake, filantropia fajuta e ideias retrógradas dignas do século XII.

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