Pular para o conteúdo principal

A CAMPANHA PRESIDENCIAL DE 2022 É UMA "NÃO-ELEIÇÃO"?


A campanha presidencial deste ano é realmente uma "democracia de cabresto". Uma espécie de "voto de cabresto" sob o pretexto democrático. Uma campanha que, meses antes de começar oficialmente, ainda no ano passado, estabeleceu o virtual vencedor: Lula. Um Lula em clima de festa num país devastado, o petista aliado à direita neoliberal e com promessas atraentes mas sem condições de realização. Em 2020, eu votaria em Lula, mas hoje nem a tese de "voto útil" ou coisa parecida me convencerá a votar nele.

O cabresto fica por conta dos institutos de pesquisa que não provam que entrevistaram realmente os brasileiros supostamente consultados. Fala-se em critérios "científicos" usados por esses institutos, mas eu mesmo nunca fui entrevistado, seja por telefone, seja na rua. E no entanto os institutos de pesquisa parecem querer votar no lugar dos eleitores, tamanha é a confiança cega nestas supostas pesquisas de intenção de voto.

E aí vemos uma histeria acima dos limites quando o assunto é Lula. Uma vitória que nem aconteceu mas que é, há meses, imposta como se fosse uma palavra de ordem. Seguidores de Lula, tomados de arrogância, atuando como valentões da escola ao humilhar e depreciar a Terceira Via. Lula parecendo um trator humano a querer impor seu caminho e suas vontades.

E aí institutos de pesquisa, nos últimos dias, como o Ipec e o Datafolha apontam o aumento de vantagem na suposta consulta popular sobre a corrida presidencial. O Datafolha é, de forma surreal, o mais festejado, como se fosse um "voto de minerva", tratado como se o instituto da família Frias - que há poucos anos era alérgica ao lulismo - , e o relatório recente aponta uma vantagem de Lula em 47%, contra 33% de Jair Bolsonaro, ampliando uma vantagem que chegou a ficar cerca de seis pontos do petista sobre o fascista e agora sobre para 14 pontos.

No mesmo dia, Lula apareceu no Programa do Ratinho, apresentado pelo bolsonarista Carlos Massa, o Ratinho, único compromisso que o petista aceitou participar no SBT, já que o debate, que terá a presença de Bolsonaro, não contará com o ex-sindicalista, devido à conhecida postura ideológica da rede do apresentador Sílvio Santos.

Entre as perguntas que Ratinho fez ao Lula, estava a de como o petista irá aumentar os salários dos brasileiros. Lula respondeu: "aumentando", sempre no processo gradual de alguma centena e algumas dezenas de reais por ano. Mas Lula celebrou dizendo que irá aumentar os salários para "acima da inflação", com os seguintes termos:

"(Vou aumentar os salários) Aumentando. Deixa eu falar uma coisa, quando eu fui presidente a gente aumentava o salário mínimo. Você repunha aquilo que era a inflação, e você dava o aumento de salário de acordo com o crescimento do PIB. Olha, se PIB crescer 5% você dá, 5%, se o PIB não crescer nada você dá a inflação. Foi assim que nós fizemos durante o nosso governo e por isso o salário mínimo aumentou 77%".

Lula destacou que o rival Ciro Gomes "está surtando" e que o pedetista, que chegou a ser ministro da Fazenda do petista, só conseguiu diminuir a taxa de juros de 55% para 49%. As críticas foram discretas, diferente do ex-governador do Ceará, que chamou Lula e Bolsonaro de "fascistas", quando participou do mesmo Programa do Ratinho.

O Lula conciliador também foi anunciado pelo petista, que sinaliza que não fará mais um governo de esquerda, conforme anunciou um petista coordenador de campanha, o ex-governador do Piauí, Washington Dias. Lula fará um governo de "centro", eufemismo para governo neoliberal, de direita moderada e apenas alguma inclinação social sob uma estrutura institucional democrática.

Eis o que Lula disse, retomando a fórmula do "Lulinha Paz e Amor":

"Para mim não tem nenhum problema reunir com prefeitos e governadores. E vou fazer. Um compromisso que eu vou fazer, se eu ganhar as eleições, na primeira semana eu vou chamar os 27 governadores e [para que] possa ver em cada estado as três principais obras que cada estado tem para a gente compartilhar a construção dessas estradas. É isso que eu vou fazer. Eu quero paz e amor. O Lulinha paz e amor voltou com força total".

Quando Lula governou entre 2003 e 2006, a posteridade fez com que o petista fosse criticado por fazer um governo moderado demais, sem mexer nas estruturas da sociedade brasileira que haviam sido bastante problemáticas por razões históricas de séculos. Em comparação com o possível novo governo Lula - que Washington Dias lembra ter a maior frente de alianças de todas as campanhas do petista, de 1989 para cá - , a gestão 2003-2006 pareceu um pouco mais ousada que a que se pretende vir.

Geraldo Alckmin, que não convenceu um segundo sequer da mínima mudança de conduta, que não fez autocrítica nem prestação de contas à população, irá governar junto com Lula e terá participação bastante influente. Isso significa que o projeto de esquerda que muitos imaginam reinar na mente de Lula simplesmente foi por água abaixo.

Lula está recebendo apoio dos antigos golpistas de 2016. Até Miguel Reale Jr., jurista que defendeu a queda de Dilma Rousseff, passou a apoiar Lula, deixando Janaína Paschoal sozinha. Muitos que estavam de mãos dadas com Michel Temer também "lularam". Fernando Henrique Cardoso não disse em quem apoia oficialmente, mas manifestou defesa da "votação democrática contra Bolsonaro".

Na verdade, o que vemos é uma "não-eleição". Desde o ano passado Lula se autoproclama um vencedor, decide o que quer sem medir condições nem contextos e acaba fazendo a pior campanha presidencial, com tantos erros e contradições. Até a castração de seu projeto político Lula acaba fazendo questão de aceitar, porque a frente ampla demais estabeleceu compromissos com o petista que, com absoluta certeza, podaram muitos pontos do projeto lulista.

Portanto, não será a vitória de Lula que consagrará o retorno da onda esquerdista na América Latina. Aliás, as "esquerdas" latino-americanas de hoje são muito brandas e afeitas a concessões neoliberais, e Lula não será exceção à regra.

Em todo caso, vivemos uma situação surreal. Lula prometendo recuperar a democracia, mas sacrificando ela mesma em prol de uma vantagem eleitoral pessoal, impedindo os outros candidatos de apresentar suas ideias. Por medíocres que fossem, esses candidatos deveriam ter um espaço de campanha respeitado. Mas a campanha de Lula foi feita batendo na Terceira Via, como o valentão da escola batendo no rapaz mais frágil. Recuperar a democracia dessa maneira é um acinte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA DESCARTÁVEL

Nas minhas andanças cotidianas, vejo que as pessoas estão se livrando de obras que haviam sido best sellers  neste mercado analgésico que é o da comercialização de livros. Dias atrás, em Niterói, numa dessas caixas de doação de livros nos pontos de ônibus, vi muitos livros da série 50 Tons de Cinza , espécie de erotismo milenial cheio de suspense. No último dia 10, foi a vez de uma sacola deixado pela vizinhança para o recolhimento de descartáveis. Como era domingo, a sacola eu tive que pegar para botar embaixo no prédio, porque é proibido deixar material reciclável na escadaria nesse dia da semana. Por curiosidade, eu vi o conteúdo. Livros juvenis banais, desses que o calor do momento faz badalação intensa, mas o tempo condena ao esquecimento mais fúnebre, e o Floresta Encantada , "clássico" dos "livros para colorir". Tudo literatura analgésica, em que palavras como Conhecimento e Saber são praticamente inexistentes. São muitos vampiros estudantis, muitos cavaleiro...

O POPULARESCO MILIONÁRIO E A MPB PAUPERIZADA

O "HUMILDE" ÍDOLO BREGA-POPULARESCO JOÃO GOMES, CANTOR DE PISEIRO, É DONO DE IMÓVEIS COM VALOR SUPERIOR A R$ 5 MILHÕES. A campanha do “combate ao preconceito” queria nos fazer crer que a bregalização era a “cultura do povo pobre por excelência” e que seus ídolos eram coitadinhos em busca de um lugar ao Sol Tão Bonito da Música Popular Brasileira. Narrativas chorosas, que chegaram a contaminar a mídia esquerdista, lutavam para que o jabaculê musical de hoje se tornasse o folclore de amanhã. Mas a realidade mostra que os verdadeiros pobres e discriminados não estão na música popularesca facilmente tocada nas rádios, mas na MPB acusada de ser "purista", "elitista" e "higienista". Dois fatos recentes demonstram isso. Foi revelado que o cantor de piseiro João Gomes, que tentou se vender como pretensa “renovação” da MPB, apesar de sua gritante mediocridade artística, tem um patrimônio milionário com várias propriedades. Com apenas 23 anos, é dono de um...

A HIPOCRISIA DA BURGUESIA ILUSTRADA QUANTO AOS EMPREGOS PRECÁRIOS

OS LULISTAS NÃO PERCEBEM QUE O QUE CRESCEU EM EMPREGO FOI O TRABALHO PRECÁRIO, COMO O DOS TRABALHADORES DE APLICATIVOS, COM REMUNERAÇÃO PEQUENA E INCERTA? O negacionismo factual não gostou das críticas que se fez ao governo Lula sobre a priorização do trabalho precário nas políticas de emprego, enquanto o presidente fazia turnê pelo planeta deixando até o combate à fome para depois. Temendo ficar sem o protagonismo mundial que permitiria à burguesia ilustrada brasileira ter o mundo a seus pés, o negacionista factual, o porta-voz da elite do bom atraso, lutou para boicotar textos que desmascaram os “recordes históricos do Efeito Lula”, como no caso dos empregos que pagam um ou dois salários mínimos. Apesar de sua postura “democrática e de esquerda” e de sua “defesa da liberdade humana com responsabilidade” - embora se vá entender que essa defesa “responsável” inclui atos como fumar cigarros e jogar comida no lixo - , de vez em quando explode nos corações do negacionista factual o velho ...

AS RAZÕES PARA O DESGASTE DE LULA

Nos últimos dias, Lula está preocupado com seu desgaste político, marcado pela aparente ascensão de Flávio Bolsonaro nas supostas pesquisas de opinião. Perdido, Lula tenta correr contra o tempo lançando medidas e discutindo meios de reforçar a propaganda de seu governo. Lula, em entrevista há poucos dias com a mídia solidária - Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Fórum - , afirmou, exaltando o terceiro mandato, que o quarto será "melhor que o terceiro" e que o Brasil dará "um salto estrutural" no próximo mandato, com a "transformação do país em uma nação desenvolvida, apoiada em crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento institucional". É sonhar demais para um país que social e culturalmente está bastante deteriorado. O terceiro mandato de Lula tornou-se o mais medíocre dos três. Ambicioso, mas pouco produtivo. Com muita grandiloquência e poucas e mornas realizações. Muita festa e pouca reconstrução. Colheita sem plantação. Muito falatório...

COMO O “JORNALISMO DE ESCRITÓRIO” DESQUALIFICOU NOSSA IMPRENSA

O JORNALISMO DE ESCRITÓRIO ATUA COMO UMA EXTENSÃO MAIS OU MENOS FLEXÍVEL DA GRANDE MÍDIA. Um dos fenômenos que se ascenderam no período de Michel Temer e que não foram superados é o “jornalismo de escritório”, versão mais radical da “liberdade de empresa” que definiu os padrões da mídia venal. Um jornalismo asséptico, insosso, inodoro, supostamente neutro mas com algumas posturas “críticas” que nem de longe deixam de comprometer o status quo. Ele se vende como “o jornalismo de novos tempos”, tido como “mais responsável” e que trata a notícia como um “produto”. Interage com a overdose de informação das rádios all news, que derrubaram todas as expectativas libertadoras do passado recente, passando a ser apenas versões remix dos telejornais da TV, sendo um jornalismo que, independente da qualidade, vale mais pela excessiva quantidade de notícias que impede o ouvinte de parar para pensar. O “jornalismo de escritório” tornou-se o sonho realizado dos barões da mídia desde os tempos do AI-5, ...

LULA DEIXA A MÁSCARA CAIR SOBRE OS "RECORDES HISTÓRICOS" DO EMPREGO

A NARRATIVA DO GOVERNO LULA SEGUE HOJE RIGOROSAMENTE O MESMO DISCURSO DE "CRESCIMENTO DE EMPREGO" QUE O GOVERNO MICHEL TEMER LANÇOU HÁ CERCA DE DEZ ANOS. Uma notícia divulgada pelo portal Brasil 247 acabou soando como um "fogo amigo" no governo Lula. A notícia de que a maior parte do crescimento do emprego, definido como "recorde histórico" e classificado como "Efeito Lula", se deve a empregos com um ou dois salários mínimos. O resultado, segundo o levantamento, ocorre desde 2023, primeiro ano do terceiro mandato do petista, candidato à reeleição. Só 295 mil trabalhadores foram contratados, no período, recebendo apenas um salário mínimo. A notícia foi comemorada pela mídia esquerdista, mas traz um aspecto bastante sombrio. O de que a maioria das contratações, mesmo sob a estrutura de trabalho formal sob as normas da CLT, corresponde ao trabalho precário, em funções como operador de telemarketing  e trabalhadores de aplicativos, funções conhecida...

COPA DO MUNDO E A PAIXÃO TÓXICA PELO FUTEBOL NO BRASIL

O bordão, de valor bastante duvidoso, que atribui o futebol como “única alegria do povo brasileiro”, tem um quê de ressentimento, de baixa autoestima disfarçada de orgulho e de altivez. E diz muito dessas emoções confusas, meio presunçosas, meio dotadas de falsa modéstia, que contamina a mente do brasileiro médio, perdido entre ser maioral e ser coitado. Diante da proximidade da Copa do Mundo, o fanatismo pelo futebol, que costuma ser regionalizado, se torna nacional. E aí vemos surgirem “torcedores de ocasião” a “vestir a camisa de CBF”, não mais por histeria bolsonarista, mas por outra histeria, a futebolística. No Rio de Janeiro, o futebol vira até pauta para assédio moral. E não é pela possibilidade de um patrão torcer pelo time diferente do seu empregado, pois aí eles acham até saudável fingir briguinha por causa do time de cada um. O drama cai contra quem não curte futebol, que acaba sendo vítima de desdém e até do risco de perder o emprego. Mas no resto do Brasil, se esse risco ...

O PREOCUPANTE PRECONCEITO SOCIAL NAS CONTRATAÇÕES DE EMPREGO

As empresas estão construindo suas graves crises e não percebem. Vivendo o imediatismo do prestígio, da visibilidade e da busca pelo lucro fácil e rápido, as empresas cometem um erro gravíssimo ao rejeitar currículos e a contratar gente com mais visibilidade do que talento, criando riscos de decadência a médio prazo. O escândalo do Banco Master não nasce da noite para o dia. Durante anos, o banco controlado pelo hoje presidiário Daniel Vorcaro viveu uma rotina harmoniosa de lucros abusivos, dentro de um clima de paz profissional que parecia eterno, até denúncias virem à tona gerando incidentes como os que vimos nos noticiários. O mercado de trabalho não consegue perceber que talento vem da alma e não de uma aparência atraente. Não vem de influenciadores capazes de gesticular e falar coloquialmente, mas isso é insuficiente para assumir tarefas técnicas como as de Analista de Redes Sociais, função que, desgastada, mudou seu nome para Analista de Marketing Digital. Não receber currículos ...

O FALSO ENGAJAMENTO DO POP COMERCIAL E DO BREGA-POPULARESCO

ACREDITE SE QUISER, MAS ULTIMAMENTE MUITA GENTE PENSA QUE "LUA DE CRISTAL", SUCESSO DE XUXA MENEGHEL, É UMA "CANÇÃO DE PROTESTO". O pop comercial de hoje vive seu complexo de superioridade. Seus fãs, dotados de muita arrogância, chegam a fazer ataques contra a música de qualidade. Acham que a chamada “música de sucesso” é superior só porque atrai um grande público jovem e que se sustenta pela forte presença nas redes sociais e nas páginas de celebridades (e subcelebridades). Embora se baseie estruturalmente no pop dançante dos anos 1980 e 1990, esse pop comercial, nos últimos anos, tenta iludir a opinião pública com um falso engajamento e uma falsa militância que fez até as pessoas, no Brasil, acreditarem que sucessos da axé-music e do pop infantil brasileiros fossem “canções de protesto”. E muita gente boa, de nossa crítica musical, embarca nessa armadilha. Do Bad Bunny ao BTS, de Xuxa Meneghel ao grupo As Meninas, a atribuição de falso engajamento sociopolítico e ...

AS ESQUERDAS MÉDIAS E A GOURMETIZAÇÃO DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA

CENA DO MINIDOCUMENTÁRIO  MEXEU COMIGO , SOBRE A CENA DO ARROCHA EM SERGIPE. Diferente da porralouquice de gente como o professor baiano Milton Moura e seus “pagodes impertinentes” e do “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches brincar de ser “bom esquerdista”, ressurge um movimento de intelectuais e jornalistas que querem fazer renascer o “combate ao preconceito” da bregalização, agora sob o verniz da “objetividade”. A postura generalizada do “capitalismo musical” do músico baiano Rodrigo Lamore, colunista do Brasil 247, e as leituras do colunista Augusto Diniz da Carta Capital, numa linha parecida com a de Mauro Ferreira no portal G1, refletem essa onda de ‘“imparcialidade” na análise sobre música brasileira. No caso do Rodrigo Lamore, ele tenta generalizar a condição de “mercadoria” da música, como se não pudesse haver a função social, artística e cultural na atividade musical. Parece papo de ressentido. Se nomes popularescos, só para citar os da axé-music (o ensaísta também é mú...