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O ENTERRO POLÍTICO DE LULA

OS SEGUIDORES DE LULA AGEM COMO SE FOSSEM O VALENTÃO DA ESCOLA, AO ESCULHAMBAREM A CONCORRÊNCIA.

Minha decepção com Lula atingiu o ponto máximo quando ele decidiu faltar a um debate de TV e, antes disso, a cancelar o texto final do seu programa de governo. São duas coisas absolutamente necessárias e fundamentais para a apresentação de um candidato, que deveria buscar a vitória eleitoral e não impô-la ao eleitorado, e que precisa se sobressair pelas ideias e não por seu mito.

Fico frustrado e triste com esse favoritismo obtido à força, por supostas pesquisas eleitorais das quais não se viu sequer a sombra. E fico também triste ao ver que jornalistas que eu admirava na mídia progressista surtaram e agora escrevem textos panfletários, deixando a objetividade de lado, passando pano nos erros que Lula andou fazendo nos últimos meses e impondo também a vitória do petista, naquele terrorismo psicológico contra o voto livre e plural.

A título de exemplo, Ciro Gomes lançou um manifesto preocupado com a polarização entre Lula e Bolsonaro e os erros cometidos por ambos os lados. Um texto calmo, objetivo e realista. Um manifesto contra o "voto útil", uma paranoia que superestima as ameaças do bolsonarismo em torno do monopólio eleitoral de Lula, ainda mais quando o petista está abraçado aos neoliberais e tendo como vice o neoliberal da gema Geraldo Alckmin.

Ciro não é perfeito, é criticável em vários aspectos, e um de seus defeitos é temperamental. Entre seus erros, está a provável influência que ele exerceu na então esposa Patrícia Pillar, quando ela fez um documentário suavizando a imagem do ídolo brega reacionário, machista e defensor da ditadura militar, Waldick Soriano. Seria estúpido acreditar que Patrícia fez o documentário porque Waldick era o guru da geração descolada de vanguarda da Zona Sul carioca dos anos 1980.

Mas Ciro mudou nos últimos tempos e parece mais sensato do que Lula, e, independente de defender ou não o candidato do PDT, é sempre bom haver uma diversidade de candidatos. Infelizmente, Lula aposta na sua "candidatura única", impondo sua vitória em vez de buscá-la com humildade e consideração com os demais concorrentes. São as regras da competitividade, paciência!!

Infelizmente, a classe média que cerca Lula e que, salvo exceções, aposta num clima de positividade tóxica, só aceita a "pluralidade" centralizada em algum grande ídolo, alvo do culto à personalidade. Na religião que abandonei há dez anos, o Espiritismo brasileiro, havia também a falácia de um ecumenismo centralizado na figura de um "médium" picareta e reaça de Minas Gerais, que usava peruca e fazia falsa caridade (tipo Luciano Huck), tanto que foi difundido o projeto da "Pátria do Evangelho".

A tal "Pátria do Evangelho", difundida por um livro falsamente atribuído ao escritor Humberto de Campos, que o "bondoso médium" usurpou e fez arruinar a reputação, é um perigoso projeto de nação teocrática que seria o Brasil no futuro, restaurando tanto o Catolicismo medieval - que, repaginado, é conhecido como "Espiritismo" no nosso país - quando o Império Bizantino. Uma doutrina de "tolerância" que poderá, sob o pretexto dos "reajustes espirituais", causar banhos de sangue contra religiões africanas, muçulmanas e contra ateus.

E se vemos que na tal religião "espírita" - que, ao lado dos neopentecostais, foi fortalecida pela ditadura militar para enfraquecer a Teologia da Libertação católica, então uma força crescente de oposição à repressão militar - há esse falso ecumenismo centralizado em uma única pessoa, vemos no caso do lulismo uma "pluralidade" da qual Lula é o centro, como se a sociedade se submetesse a ele.

Contra o manifesto realista de Ciro Gomes, dois textos, um de Fernando Brito e outro de Moisés Mendes, são dois manifestos lacônicos de ataques ao pedetista. Brito, do Tijolaço, disparou uma ironia perguntando para onde Ciro viajará depois das eleições e Mendes cria uma mentira na qual Ciro Gomes esculhambou até a Simone Tebet. Dois textos pequenos, mesquinhos e inúteis feitos por quem, em outros tempos, escreviam ótimos artigos.

Há um tempo Ciro Gomes é tratado como se fosse "cabo eleitoral de Bolsonaro". A intolerância dos lulistas, mascarada pelo pretexto do "voto útil", da "eleição plebiscitária da democracia contra o fascismo, da civilização contra a barbárie", destinado a eleger Lula no primeiro turno, é de uma leviandade que nunca, na História do nosso país, se viu, pelo menos nos últimos 50 anos.

Lula não se manteve fiel às suas raízes proletárias, e ainda mente ao dizer que Brizola apoiaria o petista. Brizola, se estivesse vivo, ficaria horrorizado ao ver Lula abraçado aos apóstolos do Estado Mínimo que facilitariam a vitória eleitoral do petista, sob o sacrifício de preciosas propostas do projeto original progressista. As elites não apoiariam Lula de graça. Existe uma conta política a pagar com esse apoio.

Independente de Ciro Gomes merecer ou não algum voto, é necessário reconhecer que é sempre bom haver vários candidatos na campanha presidencial, pois é esse o princípio da democracia. Não é uma opinião minha, é o que determina a Constituição de 1988, fruto de lutas pela redemocratização do Brasil.

Ver Ciro Gomes sendo visto como uma Cassandra de Troia da campanha presidencial, com um texto ponderado visto como "ressentido" e "convertido ao bolsonarismo" pelos arrogantes lulistas é triste. Como é triste ver que, nos debates da TV, Simone Tebet dá um banho em Lula. E ver que todo um lobby hoje cerca o petista, nas condições atuais, é estarrecedor. 

Se Lula agora aposta na "democracia de um homem só", o problema é dele. E isso cometendo contradições diversas em sua campanha, lembrando que o conceito de contradição não pode ser confundido com "equilíbrio misturado com versatilidade". 

Não é coerente ver alguém querendo ser uma coisa e outra ao mesmo tempo. Um Lula jurando ser fiel às classes populares que, depois, pula a cerca dos condomínios da Zona Sul paulista para viver uma lua de mel com o empresariado.

Depois que se viu tantos erros, da arrogância dos lulistas, cujas agressões à Terceira Via são comparáveis à ação dos valentões da escola, e em seguida Lula chutando o portão da democracia e faltando a dois deveres eleitorais, como apresentar o programa de governo definitivo e comparecer a um debate na TV, sou obrigado a anunciar, na prática, o enterro político de Lula, cuja euforia atual pode render, mais tarde, a uma ressaca dramática e tensa.

Três episódios ocorreram, que mostram as tensões sociais no país, no mesmo dia em que Lula e Alckmin esbanjaram pieguice numa "super live" nas redes sociais. Em Barreiras, na Bahia, uma aluna cadeirante, Geane da Silva Brito, de 19 anos, foi morta a tiros ontem por um colega de 14 anos, que depois foi baleado e internado. O atentado fez muitos alunos correrem em pânico.

No Ceará, na cidade de Cascavel (não confundir com a homônima paranaense), no último sábado, um homem de 59 anos matou outro de 39. O suspeito teria entrado em um bar, acompanhado da esposa. Ele perguntou: "Quem é (que vai votar em) Lula aqui?". Houve uma discussão e o agressor parecia ser um seguidor de Bolsonaro, enquanto a vítima era petista.

Ontem, houve confrontos no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, que causou cinco mortes entre policiais e suspeitos de tráfico. Moradores realizaram protestos no local. E na noite de anteontem, na Barra da Tijuca, o vice-presidente da Unidos de Vila Isabel, Wilson Vieira Alves, o Moisés, foi morto a tiros. E a família, quando foi autorizada a liberar o corpo da vítima, no Instituto Médico Legal, ainda foi assaltada a caminho do cemitério, ontem, num arrastão no bairro de São Cristóvão.

São tensões sociais graves, que mostram que o Brasil não está fácil. E que indicam que nã será Lula e sua frente ampla demais que trarão a felicidade para os brasileiros. Lula não é pacificador, e sua pessoa inspira, em uma parcela de brasileiros, profundas tensões e violentos conflitos sociais.

Lula, amordaçado pelos neoliberais que o cercam, sepultou toda sua reputação progressista. Hoje Lula está mais para um golfinho que nada com os tubarões do capitalismo selvagem. O antigo sindicalista de 50 anos atrás está morto e o Lula que agora vemos não passa de um tucano enrustido, que só vai trazer migalhas para o povo pobre, enquanto o "mercado" se esbalda de tantos auxílios financeiros. 

Lula é somente um político que dará aos pobres sem tirar dos ricos. Não irá mudar muita coisa neste Brasil. Lula virou o Collor tingido de vermelho.

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