A NARRATIVA DO GOVERNO LULA SEGUE HOJE RIGOROSAMENTE O MESMO DISCURSO DE "CRESCIMENTO DE EMPREGO" QUE O GOVERNO MICHEL TEMER LANÇOU HÁ CERCA DE DEZ ANOS.
Uma notícia divulgada pelo portal Brasil 247 acabou soando como um "fogo amigo" no governo Lula. A notícia de que a maior parte do crescimento do emprego, definido como "recorde histórico" e classificado como "Efeito Lula", se deve a empregos com um ou dois salários mínimos. O resultado, segundo o levantamento, ocorre desde 2023, primeiro ano do terceiro mandato do petista, candidato à reeleição. Só 295 mil trabalhadores foram contratados, no período, recebendo apenas um salário mínimo.
A notícia foi comemorada pela mídia esquerdista, mas traz um aspecto bastante sombrio. O de que a maioria das contratações, mesmo sob a estrutura de trabalho formal sob as normas da CLT, corresponde ao trabalho precário, em funções como operador de telemarketing e trabalhadores de aplicativos, funções conhecidas pela sua jornada de trabalho degradante.
A matéria não esconde a derrubada da ilusão do "emprego recorde" anunciado pelo governo Lula. Diz um de seus parágrafos:
"Em três anos, o número de ocupados formais e informais com rendimento entre um e dois salários mínimos cresceu em 4 milhões. No mesmo intervalo, a ocupação total no país aumentou em 4,6 milhões de pessoas. O resultado indica que o dinamismo do mercado de trabalho brasileiro esteve fortemente apoiado em postos de menor remuneração, em especial em atividades ligadas ao comércio e aos serviços".
A gravidade desses dados é que Lula preferiu investir no estímulo ao trabalho precário, ao mesmo tempo que sua política salarial era frouxa. Nos anos de seu governo, o salário mínimo cresceu em ritmo inexpressivo , atingindo valores abaixo da dignidade humana e do que exige a Constituição Federal: em reais, foram 1.320 em 2023, 1.412 em 2024, 1.518 em 2025 e 1.621 em 2026. Para alguém vindo das classes trabalhadoras como Lula, esses aumentos salariais são uma vergonha.
Só agora a atividade de telemarketing começa a se adaptar à necessidade de encerrar com a escala 6x1, com novas contratações seguindo a escala 5x2. Mesmo assim, os salários continuam baixos e as condições, degradantes, sobretudo quando operadores têm que lidar com um bombardeio de ligações que dificulta o rendimento no trabalho.
No caso dos trabalhadores de aplicativos, a rotina é ainda mais cruel, com uma jornada de trabalho indefinida e com uma demanda instável, obrigando seus vendedores a ficar até altas horas da noite, mesmo em fins de semana e feriados, só para obter uma remuneração precária. Não há um salário fixo, a renda vem com a mercadoria vendida, em grande parte refeições de restaurantes e lanchonetes.
A narrativa do "recorde histórico" deixou, portanto, a máscara cair, com a informação festiva plantada enquanto Lula se ocupava sem a menor urgência com a política externa. Sem qualquer tipo de fundamentação e sem qualquer empenho que justificasse o "fantástico" resultado, narrado sem detalhes pelo governo Lula, a narrativa do "crescimento recorde" não somente deixou a máscara cair como trouxe uma comparação bastante incômoda para os adeptos do petista.
Trata-se da mesma narrativa de crescimento do trabalho precário lançada pelo então presidente Michel Temer, por volta de 2017, após o lançamento da sua "reforma trabalhista".
Sim, isso mesmo. O governo Lula acabou repetindo a mesma narrativa lançada pelo político que, outrora vice de Dilma Rousseff, a traiu e participou da elaboração do impeachment da presidenta, e, empossado, instituiu um pacote de retrocessos trabalhistas que incluiu a escala 6x1, o trabalho intermitente e a precarização do trabalho sob salários degradantes.
Lula, ao anunciar sua volta ao poder, não realizou a sonhada ruptura com a "reforma" de Michel Temer, preferindo optar pela "revisão", ou seja, pela remoção parcial do "pacote de maldades", consentindo com malefícios como o trabalho 100% comissionado - quando a remuneração é incerta como uma loteria, como se vê na corretagem de imóveis - , o ambiente tóxico nas relações de trabalho e a falta de regulamentação sobre o tempo entre uma ligação e outra no trabalho de telemarketing.
Com exclusividade, nosso blogue acompanha toda a linha do tempo da política brasileira nos últimos dez anos e não nos contentamos com a brusca mudança de narrativa dos lulistas, antes combativos contra o "pacote" de Michel Temer, hoje um tanto complacentes com a parte "menos incômoda" deste legado.
Nem mesmo o fim da escala 6x1 do trabalho foi combatido inicialmente por Lula. No começo, Lula apenas "lavou as mãos" e entregou a questão para um "debate entre trabalhadores e empresários". Em boa parte do terceiro mandato de Lula, milhares de trabalhadores foram proibidos de ter um sábado inteiro de descanso, prejudicando seus fins de semana.
Só depois, quando enfrentou a queda de popularidade e a proximidade da campanha presidencial de 2026, Lula resolveu defender o fim da escala, embora passe pano em outros problemas do mercado de trabalho, como o degradante emprego 100 % comissionado, que faz o ganho salarial ser substituído por um prêmio em dinheiro, nem sempre garantido. Se um corretor não consegue vender um imóvel em um mês e sai "zerado", ele simplesmente trabalhou de graça.
Daí que o mandato de Lula tornou-se decepcionante. E a ênfase na política externa antes da reconstrução do país não conseguiu ser mascarada pelos relatorismos. Relatórios de "recordes históricos", principalmente no que se refere ao emprego, foram desmascarados, sem querer, pelo próprio governo.
Para a burguesia ilustrada, tanto faz. Mas nota-se o quanto a classe trabalhadora se decepcionou com o atual mandato de Lula e essa realidade escapa das narrativas nas redes sociais. Lula consentiu com a precarização do trabalho, e isso é vergonhoso quando vemos que Getúlio Vargas e João Goulart, que eram um fazendeiros de São Borja, foram muito mais generoso com os trabalhadores no passado.
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