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BRASIL E A ARROGANTE POSITIVIDADE TÓXICA

 SÓ A ELITE DO BOM ATRASO ACHA ÓTIMO O PRESIDENTE LULA COLOCAR A POLÍTICA EXTERNA ANTES DO COMBATE À POBREZA. NA FOTO, COM O PRESIDENTE DOS EUA, JOE BIDEN.

O Brasil vive um clima de arrogante positividade tóxica. A regra agora é acreditar na pretensa certeza de que o nosso país virará potência de Primeiro Mundo, mesmo estando culturalmente precarizado, com retrocessos acumulados desde 1964 e com o agravante de que boa parte do lixo cultural dos tempos do "milagre brasileiro" agora é tido como "relíquia nostálgica".

Vivemos um clima de alegria tóxica, com o viralatismo cultural debaixo do tapete. Ontem foi um dia em que a única coisa acertada foi a aprovação pelo Senado Federal da escolha do advogado Cristiano Zanin para uma vaga do Supremo Tribunal Federal.

Vamos fazer um comentário ligeiro sobre Zanin. A escolha é acertada, Zanin tem competência técnica e defendeu Lula quando este era ainda uma figura admirável, e Zanin fazia isso em parceria com sua esposa Waleska Zanin, também muito atuante na sua competência jurídica. Cristiano teve uma sabatina no Senado e um dos senadores é justamente o medíocre ex-juiz Sérgio Moro, que teve que engolir uma exposição do próprio Zanin sobre Direito.

A Operação Lava Jato, convenhamos, estragou Lula. Admirável até 2020, Lula decaiu após decidir ser novamente candidato à Presidência da República. Não que não merecesse isso, mas para conquistar o terceiro mandato, cometeu erros grosseiros: faltou a alguns debates presidenciais, entrava em clima de festa num contexto de um país arrasado como o nosso, e, acima de tudo, não desenvolveu o necessário programa de governo, preferindo requentar projetos dos dois mandatos anteriores.

O terceiro mandato também virou um reflexo deste estrago, que apresenta um Lula muito envelhecido para seus 78 anos nos padrões de hoje (o petista só estaria "de acordo com sua idade" nos padrões de envelhecimento físico de 100 anos atrás). Esse envelhecimento também se mostra na mente, quando Lula não consegue discernir os tempos, governando como se estivesse em 2003 e confundindo as coisas ao anunciar as realizações de seu governo, inserindo nelas coisas que ele ainda vai fazer ou propõe.

Lula entrou naquele clima de "tudo ao mesmo tempo agora" e trocou prioridades. Em lugar do combate à fome e à pobreza, que fez Lula chorar nos comícios (lágrimas ensaiadas?), veio a política externa, área que poderia ser adiada por pelo menos dez meses, depois que o Brasil tivesse resultados concretos e seguros de recuperação socioeconômica. Não vale usar os relativos progressos econômicos atuais, como o crescimento do PIB, como justificativa, porque esses resultados são incipientes e de pouco e ainda instável reflexo no cotidiano das classes populares.

A situação pode estar melhorando, mas longe do que é realmente desejável, e o Brasil trilha um caminho perigoso de ostentação desnecessária para o mundo. Um Brasil culturalmente precarizado, ainda com sérios problemas educacionais, com um entretenimento marcado por fenômenos popularescos e subcelebridades que seguem uma linhagem culturalista que vem desde os tempos do "milagre brasileiro". 

Não conseguimos recuperar os parâmetros culturais do pré-1964 e, toda vez que alguém debate a cultura e expõe um intelectualismo refinado, é demonizado por intelectuais e artistas que se proclamam "de esquerda", e recentemente o ex-vanguardista Rogério Skylab mostrou que careta mesmo é ele, rebaixado a um anão artístico que prefere ouvir Michael Sullivan tentando rimar "contigo" com "motivo" do que ouvir Cazuza cantando "Dia sim, dia não / Eu vou sobrevivendo sem um arranhão / Na caridade de quem me detesta".

Sim, debater a cultura popular passou a ser proibido no cenário culturalmente tóxico no Brasil. Há um boicote violento a quem tem o senso crítico, como se houvesse um AI-5 oculto nos corações e mentes dos apoiadores de Lula, netos das famílias que pediram a queda de João Goulart há quase 60 anos.

Senso crítico não permite entrar na pós-graduação das universidades - que, com mais flanelas do que lojas de material de limpeza, passam muito pano nas fenomenologias, problemáticas que se tornam desproblematizadas para virarem patrimônios fenomenológicos que devem ser preservados - , não dá para arrumar emprego, cada vez mais trocando candidatos competentes por comediantes falastrões.

E temos também a demonização da inteligência humana, que no plano musical já atinge figuras renomadas como Tom Jobim, João Gilberto, Renato Russo e o citado Cazuza, e no plano literário já derrubou pelo menos metade da equipe de O Pasquim.

Fica o receio de, a qualquer momento, os lulistas atuais pararem de fingir que admiram Leonel Brizola, Francisco Julião, Glauber Rocha e Paulo Freire e achar que a patota do IPES-IBAD "merece alguma consideração". Soa estranho nossas esquerdas criarem uma narrativa de exaltação do povo pobre através de uma abordagem que parece retirada do humorístico Vai Que Cola, do Multishow.

Dentro desse contexto, a "nova" velha ordem social dos 30% de bem-nascidos da "classe média de Zurique" que, no Brasil, se julga "dona de tudo", é a única que fica feliz ao ver Lula deixando para lá o socorro ao país devastado e preferir pavonear para o resto do mundo, sem cautela para causar polêmicas desnecessárias.

Como se estivesse conversando com colegas de trabalho numa lavanderia de subúrbio, Lula foi na cara dos EUA criticar as posturas deste país, numa atitude arriscada que, se ainda prevalecesse o hard power da geopolítica estadunidense como há 60 anos, teria impulsionado o fim do atual governo. E os EUA haviam contribuído para dar um freio ao golpe político de Jair Bolsonaro, cuja revolta de Oito de Janeiro foi, na verdade, uma espécie de "amostra grátis" do que poderia vir.

Essa grandiloquência do Brasil, essa ostentação desnecessária ao resto do mundo, como uma atitude precipitada de recuperar a reputação internacional de 20 anos atrás antes de buscar uma recuperação socioeconômica mais consistente e estável, causa bastante preocupação, como preocupa também a euforia cega dos lulistas com o astral na "nuvem nove" (metáfora para uma felicidade exagerada, uma alegria maior que a festa).

Afinal, vivemos um clima tóxico em todos os aspectos. O lulismo não vai combater o astral tóxico dos tempos do bolsonarismo, apenas redirecionará a toxicidade emocional num outro contexto, o de empurrar o Brasil para ser potência mundial "na marra", com um quadro sociocultural deteriorado, no qual os "grandes artistas musicais" são medíocres ídolos popularescos e os "exemplos de humanidade" são subcelebridades que viram notícia com banalidades pessoais sem muita importância.

Lula não se comporta como se estivesse reconstruindo o país. Ele se comporta como se estivesse fazendo uma festa. E a empolgação tóxica da elite do bom atraso, a "boa" sociedade que e acha "dona da razão", não se importa com isso. Porque não foi ela que sofreu com os retrocessos de Temer e Bolsonaro, podendo consumir bens de significativo conforto, fazer viagens ao exterior, ver tolices nas redes sociais e lacrar geral.

Daí sua arrogante positividade tóxica, sua pressa em ver o Brasil como potência de Primeiro Mundo, sem o preparo necessário para tanto. Mas a "classe média de Zurique" que aplaude |Lula feito foca amestrada tem uma noção de Primeiro Mundo como a de um turista: um Brasil transformado num parquinho de diversões para essa criançada da esquerda-lacração brincar, consumindo muito como seus avós do "milagre brasileiro" de 50 anos atrás. 

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