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FALAM QUE MPB E ROCK BRASIL SÓ TEM BURGUÊS. MAS A MÚSICA BREGA TEM UM MAGNATA


Como vimos na postagem anterior, sobre Rogério Skylab, mas também é conhecido por tantos artistas, intelectuais e famosos que, em favor da música brega-popularesca, esculhambam a MPB, em especial a Bossa Nova, e o Rock Brasil, acusam estes artistas da música brasileira de qualidade de serem "burgueses" e "aristocratas".

Ultimamente, nomes como João Gilberto, Tom Jobim, Renato Russo, Cazuza, Vinícius de Moraes e a recém-falecida Astrud Gilberto (ex-mulher de João) estão entre os artistas respeitáveis que agora viraram "vidraça" por não fazerem mais o tipo da sociedade que vive na positividade tóxica do Brasil-Instagram. Não dá para ter a alegre obrigação em "ser legal o tempo todo" cantando "É pau, é pedra, é o fim do caminho" ou "A tempestade que chega tem a cor dos seus olhos castanhos".

Esquecem esses defensores da bregalização musical, afogados no seu dicurso coitadista, que a música brega-popularesca é uma multimilionária máquina de fazer dinheiro, com sua "diversidade musical" de proveta: "sertanejo", axé-music, "funk", forró-brega, música cafona mais antiga, e subgêneros recentes como o arrocha, o tecnobrega, o bregafunk e o piseiro.

É a privatização da cultura popular, estúpido! Hoje o que vemos com frequência não são mais aqueles brilhantes artistas das classes populares e suas músicas impecáveis, como antigas modinhas e catiras, antigos baiões e xotes, antigos sambas e afoxés.

O que se vê é um pop comercial rasteiro, tão artificial quanto um produto industrializado. Assim como muito do café industrializado é, na verdade, uma mistura de cevada com restos de achocolatado em pó, chá de boldo e apenas uma pequena parte de café, a música popularesca que temos é um engodo que mistura uma falsa brasilidade provinciana e bairrista com o pop enlatado comercial estrangeiro que as editoras brasileiras representantes deixam passar, via rádios e antigas trilhas sonoras de novelas.

Sambrega ou "pagode romântico"? É um baita samba sem alma, que mal consegue ser uma mistura de samba mal-tocado com pastiches de soul music estadunidense produzidos dos anos 1990 para cá. Quando muito, há também o "imitasamba" de grupos como Exaltasamba e Revelação, sambas também sem alma e "doentes do pé", sambregas que só parecem sambas "bem tocados" pelo esforço de um arranjador de plantão na indústria fonográfica.

Breganejo ou "sertanejo brega-romântico"? Desde a geração de Chitãozinho & Xororó e Christian & Ralf que o som das antigas modas de viola é diluído irresponsavelmente com misturas confusas de country e mariachi, produzindo tenebrosos pastiches do som Tex-Mex em Goiás e nos interiores do Minas Gerais (principalmente o reduto bolsonarista do Triângulo Mineiro), Paraná e São Paulo (em especial o oeste paulista).

Mas a gourmetização da choradeira que vem tanto de intelectuais como Paulo César de Araújo, com seu vitimismo, ou Eugênio Raggi, com sua arrogância, ou de artistas como Rogério Skylab e Zeca Baleiro, se esquece de que a música brega-popularesca, desde os primeiros ídolos cafonas até a geração "batida de lata de ervilha" dos funqueiros mais recentes, não é a cultura do povo pobre que tanto se alardeia por aí.

Se a gente for usar a origem pobre como carteirada para tudo quanto é famoso rico, vamos acabar esbarrando num farialimer aqui e num bolsonarista ali. Também não faz sentido dizer que o ídolo popularesco se enriquece muito por razões de "bom merecimento", por causa daquele ditado popular muito conhecido: "Quem nunca comeu doce, quando come, se lambuza".

Quem é que ficava comprando mansões a torto e a direito? Sim, gente da música de qualidade viveu essa experiência em não poucos casos. Mas eles são fichinha diante do apetite voraz dos ídolos popularescos que, quando ficam extremamente ricos com o sucesso estrondoso em todo o Brasil, resolvem ter uma vida mais luxuosa e extravagante, mesmo dentro do contexto grosseiro de suas vidas, do que muito magnata do pop ou do rock estrangeiro.

Em contrapartida, há muitos bossanovistas, há muitos emepebistas e roqueiros brasileiros que se contentam com um apartamento avaliado em R$ 280 mil. Vivem vida confortável, mas longe do nível brega-nababesco dos ídolos popularescos, uns ficando ainda mais ricos porque suas carreiras agora serão sustentadas não mais pelos lucros pessoais, mas pelas verbas estatais e pelos subsídios privados previstos pelos incentivos legais do Ministério da Cultura.

Fico assustado com esse momento de profunda imbecilização social, em que a música popularesca se espalha como um câncer maligno e eu tenho que ficar passando pano porque senão sou visto como chato pelos outros. 

Quem não percebe, por outro lado, é que a bregalização musical tem como objetivo maior servir de trilha sonora para a bebedeira em bares, botecos, boates, casas noturnas etc etc etc, sempre focando o consumo alto de cerveja que fez a fortuna exorbitante de um Jorge Paulo Lemann, o magnata da Ambev que já esteve no topo das listas anuais da Forbes e que, recentemente, amarga uma crise de reputação como sócio das Lojas Americanas. Mas ele se enriqueceu às custas de muita cerveja tragada ao som da mais ampla breguice musical.

Vivemos sob o signo da positividade tóxica, da obsessão em ser divertido o tempo todo, dentro de um momento muito perigoso para o Brasil, em que a "boa" sociedade dos bem-nascidos que controlam o bom senso quer mais divertimento, mais consumismo e menos cidadania e humanismo, estes admissíveis dentro dos limites que não prejudiquem o sistema social vigente. 

Lamentável a época em que hoje vivemos, que mais parece o antigo "milagre brasileiro" passado a limpo, para o bem de uma elite de classe média que vive nas alturas de seus pedestais.

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