UNIVERSITÁRIOS CANTANDO E DANÇANDO SUCESSOS INFANTILIZADOS COMO "ILARIÊ", QUE PENSAM SER "CANÇÃO DE PROTESTO".
Existe uma narrativa muito comum hoje em dia, que é a de incluir a mediocridade sociocultural e artística de ontem entre as coisas boas do passado, como se houvesse um merecimento às avessas que transformasse coisas sem importância em relíquias valiosas.
Isso soa como uma pegadinha para as gerações mais recentes, nascidas sem poder acompanhar vários fenômenos que eram marcados por sua excelência em qualidade e foram substituídos por supostos similares que não possuem 0,001% do brilhantismo dos outros.
Como explicar, por exemplo, a Fluminense FM para aqueles que só puderam conhecer a 89 FM, a”rádio rock” da Faria Lima com seus locutores que, salvo um e outro, parecem terem sido contratados de alguma festinha infantil, alguma propaganda de eletrodomésticos ou algum evento de ginástica fitness?
Para quem é muito jovem, grupos medíocres como Guns N'Roses e Coldplay são maiores do que realmente são. Mesmo o pop coreográfico dos anos 1990 para cá, soa mais “subversivo” do que na realidade, um monte de ídolos culturalmente inócuos brincando de fazer “música de protesto”. Isso permitiu que até o som infantilizado de Xuxa, Balão Mágico e Trem da Alegria tivessem, entre os universitários de hoje, a reputação que teve um Geraldo Vandré em 1968.
E o "sertanejo" e o "pagode romântico" da virada dos anos 1980 para os 1990? E o brega gourmetizado dos anos 1980 em diante? Tudo de repente virou "genial", com algumas pessoas mais velhas enganando as novas gerações com relatos solipsistas que confundem impressões pessoais com atestado de qualidade. Como, por exemplo, o tiozão de 50 e tantos anos que alega que "Evidências" e "Um Dia de Domingo" são "clássicos" porque ele se lembra de ter ouvido tais músicas no piquenique da família nos tempos da infância dele.
O mais grave de tudo é que, quando as coisas pioram, o que era ruim antes passa a ser considerado bom ou até excelente, pasmem. E se um prejuízo dura mais tempo, ele passa a ser visto como "benefício". Os ônibus com pintura padronizada, que desafiam a atenção na hora de ir e vir, viraram coisas "naturais" para o brasileiro médio que, se dormir numa cama de pregos por mais de quinze anos, vai pensar que é um colchão macio.
Até se as pessoas se jogarem no precipício, se isso ocorrer durante quinze anos seguidos ou mais, fica não só naturalizado como é até visto como "saudável". Coisa ruim que dura sofre o perecimento pelo avesso, fezes de longa data viram ouro. E isso é um hábito muito triste no nosso país, em que a mediocridade se torna "clássica" se durar mais tempo.
A falta de discernimento é tamanha que músicas infantilizadas como "Ilariê", "Lua de Cristal", "Superfantástico", "Não Se Reprima" e "Xibom Bom Bom" são tratadas por estudantes de nível superior, com mais de 20 anos de idade, como se fossem "canções de protesto", numa atitude que envergonharia outras gerações de universitários, como os do Brasil dos anos 1960, que escutavam Geraldo Vandré, Sidney Miller, Elis Regina e Edu Lobo.
Isso se deve porque o fato dessas músicas serem mais antigas cria uma pegadinha que faz os mais jovens levarem gato por lebre, acreditando que os sucessos infantilizados representariam algum empoderamento identitário ligado ao hedonismo e à autoafirmação juvenil. São gerações que, entregues à desinformação, acabam supervalorizando meros sucessos comerciais do passado atribuindo qualidades inexistentes. E Xuxa Meneghel, que nem cantora é, ganhou de graça o título indevido de "Joan Baez brasileira".
E isso é assustador, quando vemos que, nos EUA, ídolos adolescentes estão redescobrindo David Bowie, Fleetwood Mac, Cure, Cars, Smiths e Jesus & Mary Chain. Gente de 20, 25 e até com mais de 40 e 50 anos no Brasil ouvindo Michael Sullivan, Xuxa, É O Tchan e Chitãozinho & Xororó e acreditando que o bubblegum de Odair José é "subversivo" é de causar vergonha até a um jumento.
No futebol, vemos que surgiu a narrativa de que a Copa do Mundo de 2002 foi a "última do futebol-arte", uma ideia equivocada marcada pela manipulação da edição de imagens da televisão brasileira, que esconde a performance medíocre da Seleção Brasileira de Futebol naquela competição e só mostra os momentos imediatamente anteriores aos gols cometidos, de maneira tendenciosa, já que depois se revelou que o "penta" foi obtido por uma série de trapaças que envolveram interesses de empresas como Nike e Coca-Cola, que patrocinavam os jogadores brasileiros envolvidos.
Naquela copa, a Seleção Brasileira de Futebol simbolizava o futebol-mercadoria, nem de longe lembrando as performances dos craques de futebol do passado. Até a Seleção Brasileira das copas de 1982 e 1986 jogava muito melhor, e só não ganhou esses torneios porque os times eram muito competitivos, mas a geração 1980 do futebol brasileiro era bem mais talentosa em jogadas e era marcada por vitórias em times brasileiros locais.
Quem é muito jovem acha que até biscoito de chocolate sem chocolate e salgadinho de cebola sem cebola são "deliciosos". A desinformação das gerações recentes não vem por culpa delas, mas por culpa de um sistema de valores mentiroso e fraudulento. E é isso que faz a mediocridade sociocultural de ontem ser vendida como se fosse "melhor", incluindo o arrogante bordão "Me respeita que sou dessa época".
Nos anos 1990, as músicas se tornaram ruins, os valores sociais estavam se deteriorando, o respeito humano estava se tornando secundário. Se a máquina do tempo existisse, poderíamos voltar para os anos 1990 e ver o quanto é decepcionante a impressão que se tem hoje no Brasil, pois da década noventista aqui foi a "década perdida", alimentada pela decadência sociocultural dos EUA da década anterior.
Achar que só havia clássico e relíquias três décadas atrás é uma impressão fake fabricada pela mídia, que engana muitos adultos que, pelo jeito, inventam nostalgia até para a catapora que tiveram na infância. Temos que tomar cuidado com as ondas nostálgicas, porque muita roubada está sendo vendida como "tesouro vintage" só para enriquecer os empresários envolvidos. A mediocridade de ontem era tão medíocre quanto a mediocridade de hoje, só parecia mais "organizada".

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