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COMO SERÁ O BOLSONARISMO SEM OLAVO DE CARVALHO?


Na noite de anteontem faleceu o "fisólofo" Olavo de Carvalho, com 75 anos incompletos. 

O termo "fisólofo", vale lembrar, não é erro de grafia, mas uma ironia com o termo "filósofo", afinal ele não tinha o compromisso  com a verdade que deve ter um "amigo da verdade", o significado da referida palavra.

É o segundo tabagista inveterado metido a "saudável" a morrer nos últimos três anos. O primeiro foi o empresário Doca Street, famoso por um feminicídio covarde às vésperas do Reveillon de 1976-1977.

Para quem não sabe, o assassino de Ângela Diniz teve um histórico pesadíssimo de tabagismo intenso (costume reduzido, mas mantido na velhice), cocaína e álcool. Para quem quiser saber do currículo doentio de Doca Street, aconselha-se pesquisar as edições de Manchete de janeiro de 1977.

Mas nos últimos tempos o magnata vendia a falsa imagem de um "velho saudável", escondendo um câncer contra o qual batalhava há, pelo menos, três décadas. 

Houve boatos de que o assassino de Ângela Diniz estaria "ativo" nas redes sociais aos 81 anos, mas ele estava sem saúde física e mental (estava amargurado com a vida) para enfrentar multidões de odiadores (haters).

Doca escapou do câncer e até da Covid-19, mas morreu de infarto ao saber da repercussão de um podcast sobre seu crime. Tinha 86 anos com um corpinho de 110.

Olavo de Carvalho também se passava por "saudável", dizendo, entre suas mentiras, que "fumar cigarro faz bem" (o pessoal de algumas capitais do Sudeste piram, como na acomodada e preguiçosa Niterói).

O "fisólofo", a exemplo do citado feminicida, também escapou das doenças típicas do cigarro. Mas, em compensação, foi pego pela Covid-19, logo Olavo que era um negacionista convicto.

Com o falecimento de Olavo, o grande efeito que causa é que se foi um dos maiores mentores intelectuais do bolsonarismo.

O bolsonarismo vive um inferno astral, com o desgaste aprofundado de Jair Bolsonaro.

Com seu natural cinismo, Bolsonaro, que nunca decretou luto oficial para nomes respeitáveis como João Gilberto, Elza Soares, Moraes Moreira, Beth Carvalho, Aldir Blanc, Rubem Fonseca, Tarcísio Meira, Paulo José, Paulo Gustavo e tantos outros, decretou luto para o "fisólofo".

O ainda hoje presidente do Brasil está se isolando, e creio que a gota d'água foi quando ele, diante das tragédias meteorológicas da Bahia e de Minas Gerais, foi se divertir nas férias em Santa Catarina.

Mesmo a burguesia mais reacionária e sociopata não aguentaria um presidente agindo dessa forma, pois, por pior que sejam as elites dirigentes, elas exigem, mesmo como um jogo de aparências, um mínimo de civilidade.

Bolsonaro já havia demonstrado não agradar o mercado, nem as sociedades tradicionalistas, até porque o bolsonarismo é ultraconservador na pose, mas no conteúdo é um confuso repertório de baixarias, palavrões e até mesmo rebeldias sem causa sob um padrão reacionário.

E agora que a burguesia não precisa mais de um Bolsonaro, já que tem um Lula domesticado para atender aos caprichos do mercado, o "mito" agora se isola completamente.

Bolsonaro ainda tem um fôlego de estrategista, bastando apenas uma oportunidade de chutar o pau da barraca.

Por sorte, Bolsonaro dificilmente fará isso, se depender do apoio da burguesia ou dos militares.

Sem Olavo de Carvalho, no entanto, o bolsonarismo fica sem o seu orientador intelectual, o seu guru, aquele que motivou a ascensão do ainda hoje presidente do Brasil.

E isso ocorre num momento em que o bolsonarismo vive brigas internas, por sinal bastante violentas.

Da mesma forma, existe um contexto no qual o golpe político de 2016 é atribuído apenas a personagens "secundários", como Sérgio Moro, Deltan Dallagnol, Janaína Paschoal, Kim Kataguiri, Mamãe Falei, Fernando Holiday, Eduardo Cunha e até Jair Bolsonaro.

Os verdadeiros mentores do golpe político de 2016, os "caciques" do MDB e PSDB, agora posam de "bonzinhos" e ensaiam um apoio tendencioso a Lula, que com muito gosto decide cair na armadilha armada por esses neoliberais.

O bolsonarismo perde sua razão de ser, se observarmos esse contexto. Talvez Bolsonaro não tenha forças para atuar sozinho em algum golpe ou coisa parecida.

O golpe, se vier, terá outros personagens, e isso se Lula for presidente e sofrer a pressão das classes trabalhadoras e ceder a elas, pois, sabe-se, o petista se vendeu para o tucanato "histórico" cuja trajetória envolve escândalos como a Privataria e o massacre de Pinheirinho.

Tudo indica, por enquanto, que Bolsonaro tende a ser uma página virada na História do Brasil.

Com o bolsonarismo desunido, com o abandono das elites conservadoras e reacionárias - ensaia-se até o retorno dos sociopatas pseudo-esquerdistas de 2005-2007 - e com Olavo de Carvalho morto, pode ser que as chances de Jair ser reeleito sejam reduzidas a pó.

A distopia continua, mas ela mudará os seus focos e seus contextos.

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