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MÍDIA ESQUERDISTA DESAPRENDEU O QUE É JORNALISMO?

 MÁRIO KERTÈSZ E SÉRGIO MORO - ENCONTRO ENTRE "IMPARCIAIS".

A grande mídia desaprendeu o que é jornalismo? Antes ancorada no jornalismo autêntico e na investigação jornalística - uma espécie em extinção na nossa imprensa - , a chamada mídia alternativa anda perdendo a linha, tudo em conta do desejo de que Lula vença as eleições "na marra".

Hoje nossa mídia de esquerda está tendenciosa, e pior do que há dez anos, pois levou para a agenda política a mania de se apegar aos "brinquedos culturais" da direita gurmê.

A "reinterpretação" da reação de Geraldo Alckmin, virtual candidato a vice-presidente na chapa com Lula, quanto à contrarreforma trabalhista na Espanha, dá o tom desse tendenciosismo.

Geraldo Alckmin, que representa o empresariado e o setor financeiro, saltou da cadeira e ficou perplexo quando Lula anunciou que vai revogar a reforma trabalhista.

A imprensa hegemônica, neste caso, acertou ao dizer que o ex-governador de São Paulo "ficou preocupado", mas o Brasil 247 foi logo mudar a narrativa, dizendo que "o governador está interessado e curioso em conhecer a contrarreforma trabalhista".

A interpretação é tendenciosa: afinal, a ideia é fazer os esquerdistas acreditarem que Alckmin está "empolgado" com a contrarreforma trabalhista espanhola e está "louco para conhecê-la" e "com vontade de falar com os líderes sindicais a respeito do assunto".

Meses atrás, a experiente Tereza Cruvinel cometeu um erro de dizer que Alckmin, como vice, só poderá obedecer Lula, porque será ele quem vai mandar.

Mas não acreditamos nem consideramos que Geraldo Alckmin não tenha vontades próprias nem poder próprio, porque está muito claro que Alckmin, diferente do falecido empresário José Alencar, antigo vice de Lula em outros mandatos, zela muito bem pelos seus valores conservadores.

Geraldo Alckmin não vai ser o abajur do Lula, não será um vice decorativo, pois estará mais próximo de um co-presidente, com a missão de frear os ímpetos ousados do parceiro petista.

Fala-se agora num Lula "moderado", mas, contraditoriamente, exaltando a "retomada das esquerdas" na América Latina. Discursos soltos que, juntando-se num quebra-cabeça, caem em muitas contradições.

E aí, neste caminho, eis que o astro-rei da Rádio Metrópole de Salvador, o canastrão Mário Kertèsz, mais uma vez investe em mais uma tentativa de se projetar nacionalmente.

Entrevistando Sérgio Moro, com mediação do jornalista Zé Eduardo, ex-apresentador do Se Liga Bocão e que havia estudado matérias comigo na UFBA, o dublê de radiojornalista Kertèsz tentou mais uma vez explorar sua imagem de "bom moço" na mídia esquerdista.

E isso apesar de Kertèsz ser um conservador enrustido, ter sido filhote da ditadura militar e ter destruído o histórico Jornal da Bahia, periódico progressista que foi rebaixado a um tabloide popularesco.

Mas a "façanha" desta vez não saiu dos comentários pedantes do astro-rei da Metrópole (é notório o culto à personalidade de Kertèsz na rádio), mas do Zé Eduardo, que desafiou moro em alguns comentários. Vejamos:

"O senhor não pode negar que não sabia em que lama estava pisando. O senhor sabe muito bem onde estava entrando, porque antes do senhor ser chamado pra trabalhar na presidência, era só o senhor pegar o histórico de Bolsonaro e o senhor ia ver que Bolsonaro disse que ia estuprar deputada, que se mostrava homofóbico, apoiava pena de morte".

"Bolsonaro era isso aí. Como diz o Mário, o Bolsonaro nunca enganou ninguém, não ia enganar o senhor, um homem de tantos anos de vivência".

"Por que o senhor aceitou o convite para ser ministro de um presidente que todo mundo já sabia o que era? O senhor sabia que era homofóbico, o que ele empregava, que foi levado pra lá apenas pra fazer do presidente a história do combate à corrupção".

"Não tenho dúvidas que o senhor entrou no governo pelo poder. Porque o poder é sedutor".

Zé Eduardo até fez elogios formais a Sérgio Moro, mas suas críticas deixaram o candidato da direita ressentida sem poder responder direito, se limitando a argumentar coisas do tipo:

"Se tivesse entrado pelo poder, ainda estava no governo. pois estava em situação tranquila, com prestígio de ministro".

"Eu entrei no governo porque tinha uma chance de dar certo. Podia dar errado mas ninguém pode negar que em 2018 tinha uma chance de dar certo. Eu jamais pensei que aquelas declarações amalucadas, ofensivas a homossexuais, à deputada, que aquilo viraria uma política pública".

Certo. Está tudo jornalisticamente correto, mas lembremos que isso tem o preço de Mário Kertèsz, mesmo sendo um direitista mal-disfarçado e filhote da ditadura militar, quer se promover como um bonapartista pseudo-esquerdista do rádio baiano.

E dentro de um contexto em que a mídia de esquerda fez as pazes com a mídia hegemônica, Kertêsz, um dos líderes do coronelismo midiático de Salvador, explorará a pretensa reputação de "bom jornalista" que muitos atribuirão a ele.

E o coronelismo baiano, a partir do próprio Kertèsz, vai apoiar, de forma condicionada, a candidatura de Lula, visando abocanhar as verbas estatais para não mexer nas fortunas exorbitantes dos barões da mídia baianos.

Kertèsz também é um porta-voz da burguesia soteropolitana do Corredor da Vitória, provinciana, fã de axé-music, em parte apoiadora da religião "espírita" e cujo caráter "tabarel" (matuto) faz as elites paulistanas da Faria Lima parecerem a Swinging London.

A burguesia soteropolitana é tão estúpida que é capaz dela ler um artigo do New York Times reproduzido pela Folha de São Paulo e dizer que leu o jornal original estadunidense. "Você já viu aquela matéria do New York Times", diz, com arrogante pedantismo, o típico burguês de Salvador.

E aí vemos como o jornalismo "na cagada" de Mário Kertèsz busca inserir-se num contexto em que a mídia alternativa investe num "vale-tudo" informacional para eleger Lula "na marra", dentro do clima "é ganhar ou ganhar", esculhambando a Terceira Via e tudo.

Embora acolhesse todos os candidatos, Kertèsz, mesmo através de um outro convidado, promove seu bonapartismo radiofônico diante das esquerdas, através de um comentário duro contra Sérgio Moro, um dos símbolos do golpismo de 2016.

Complacente, nossa mídia "poguecista" acaba sendo contaminada pela "imparcialidade" tendenciosa de Kertèsz, agora o "bom moço da imprensa" que acolhe "todos os candidatos" para depois bancar o "cavaleiro eletrônico da esperança" para as esquerdas midiáticas.

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