Pular para o conteúdo principal

50 ANOS EM 4?


Em um só tempo, Lula personifica alguém próximo ao João Goulart da fase parlamentarista e ao João Goulart do discurso da Central do Brasil (Rio de Janeiro).

Se alia a forças divergentes ao seu projeto político e, ao mesmo tempo, quer realizar ousadias no seu governo.

Dependendo do público, Lula adota um tom mais "moderado" ou um tom mais "audacioso".

Ontem ele fez uma entrevista coletiva para vários canais da mídia independente, incluindo os veículos conhecidos Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Brasil de Fato, além de influenciadores digitais progressistas.

Nesse encontro virtual, Lula reafirmou seus desejos profundamente progressistas, dos quais muita coisa tem a discordância de seus aliados da direita moderada.

Lula afirmou que reconhece que a realidade do Brasil está pior que a de 2003 e que ele "terá muito trabalho" para reconstruir o Brasil.

Ele criticou o teto de gastos públicos, que afirmou servir para o ganho dos banqueiros no fim de ano.

Lula também falou em pautas de sempre: recuperar os direitos dos trabalhadores, criar políticas para beneficiar mulheres, jovens e negros, indios e mestiços.

O presidenciável também falou em propor "efervescência da cultura", reafirmando seu desejo de ressuscitar o Ministério da Cultura e dar a ele uma força maior de atuação.

Lula viu o assunto da cultura pelo viés econômico, levando em conta a geração de empregos como ênfase de seu plano de governo.

Um grande erro que Lula cometeu foi quanto aos evangélicos, não pelo fato dele acolher as religiões, o que é salutar na sua política, pois a maioria do povo brasileiro é religiosa.

O erro consistiu em Lula forçar a barra e dizer que Jair Bolsonaro "não acredita em Deus", o que sugere uma associação entre o bolsonarismo e o ateísmo, ofendendo assim aqueles que não se sentem inclinados à crença no "papai do céu".

É até direito de Lula acolher os evangélicos, que podem somar muitos votos para o petista. E, neste sentido, há a vantagem de que boa parte da classe trabalhadora é evangélica, o que pode trazer benefício para a campanha do candidato do PT.

Lula afirmou também o seu desejo maior em transformar o Brasil e disse que sua candidatura reflete um movimento de restabelecimento da democracia.

Tudo bem intencionado, é verdade. Da parte de Lula, o Brasil poderia progredir, mesmo, se não fossem os problemas acumulados depois de 2016.

O maior erro é Lula se aliar aos que foram os mentores do golpe político de 2016.

Esses novos aliados têm uma trajetória de defesa do Estado mínimo e colaboraram para a precarização do trabalho, prejudicando a maioria do povo brasileiro.

Há a notícia de que Geraldo Alckmin irá dividir, com Lula, a coordenação-geral da campanha presidencial.

Alckmin até agora não abriu o jogo, não expôs com suas próprias palavras se realmente mudou ou não, e talvez fosse ele que tivesse uma entrevista coletiva com a mídia progressista, pois Lula já havia feito uma entrevista antes, na sua pré-campanha.

O que Lula não percebe é que o diálogo que ele pretende propor com os vários segmentos da sociedade está fortemente sujeito a conflitos violentos de interesses. E não se fala do conflito entre PT e bolsonaristas, que é chover no molhado.

Fala-se, na verdade, dos conflitos internos. Lula se esquece que o tucanato raiz (a partir de Fernando Henrique Cardoso), do qual veio Alckmin, e o MDB de gente como José Sarney, Romero Jucá e Geddel Vieira Lima, articulou o golpe político e os retrocessos promovidos por Michel Temer.

Esses novos aliados não vão aceitar uma grande parte das pautas de Lula.

Revogar a reforma trabalhista e o teto de gastos e taxar grandes fortunas, propostas incluídas ontem, oficialmente, no programa da Federação Partidária do PT, PC do B e PV, são rejeitadas pelos aliados da direita moderada.

Geraldo Alckmin prefere a revisão da reforma trabalhista, aproveitando "pontos positivos". E seu apoio à taxação de grandes fortunas é da boca para fora, pois discorda da proposta. E, além disso, Alckmin apenas defende mudanças no teto de gastos.

Há uma corrente na política brasileira, voltada ao mais convicto neoliberalismo, que trata o teto de gastos como se fosse uma forma de disciplinar os investimentos do poder público.

Lula acredita ser possível um diálogo "democrático" entre trabalhadores e empresários, cujos acordos serão intermediados pelo vice-presidente Alckmin, representante dos interesses empresariais.

Neoliberais como FHC, Alckmin, Armínio Fraga, Abílio Diniz e José Sarney posam agora de "bonzinhos", parecendo que passaram a acolher incondicionalmente as pautas progressistas de Lula.

Mas isso é uma ilusão, e aí vemos o quanto será problemático o projeto político de Lula, que, além de ter muito trabalho para recuperar o que foi destruído nos últimos anos, vai enfrentar muita puxada de tapete dos próprios parceiros.

O próprio Alckmin, que já teve uma experiência como "privatista doente" quando foi governador de São Paulo, não iria aceitar de bom grado o cancelamento das privatizações da Eletrobras, dos Correios e do que resta da Petrobras.

Como Lula vai fazer o que ele define como "50 anos em 4"?

Muito do que ele deseja fazer encontrará resistência nos aliados do chamado "centro", eufemismo para a direita moderada que integra a frente ampla demais.

Esse será o grande problema, e aí voltamos à comparação inicial.

Lula, simultaneamente, quer ser o João Goulart da fase parlamentarista, com Geraldo Alckmin no papel do primeiro-ministro Tancredo Neves, e, por outro lado, quer ser o Jango do comício da Central, prometendo grandes ousadias à esquerda para o seu governo.

A História do Brasil das últimas décadas mostrou que isso não ocorre sem conflitos nem impasses. Vide Getúlio Vargas, o próprio Jango e, recentemente, Dilma Rousseff.

E o Brasil, de tão destruído e posto no caminho da distopia, dificilmente viverá um ritmo de cinquenta anos de recuperação num prazo de quatro anos. Nem a floresta amazônica tem esse tempo para retomar a sua antiga estrutura.

Lula quer um ritmo acelerado de melhorias e desenvolvimento, mas encontrará sérias barreiras, no contexto do Brasil arrasado de hoje.

Boa parte da direita moderada contribuiu para a ascensão de Bolsonaro. Se não o apoiou abertamente, deixou o extremo-direitista ser eleito.

Hoje o golpismo político foi todo posto na conta de nomes menos expressivos, como Sergio Moro, Deltan Dallagnol, Eduardo Cunha, Janaína Paschoal e Kim Kataguiri.

Mas lembremos que boa parte dos "novos amigos de infância" de Lula fizeram a parte intelectual deste golpismo, engrandecendo Moro, fortalecendo Bolsonaro e permitindo a aprovação de retrocessos trabalhistas nocivos ao povo brasileiro.

Deixaram o Museu Nacional ser destruído pelo incêndio, deixaram Mariana e Brumadinho sofrerem um trágico desastre ambiental, e deixaram que perdêssemos boa parte da flora e da fauna na Amazônia e no Pantanal.

Agora todos são bonzinhos. Mas até que ponto? Os neoliberais que hoje estão com Lula vão ficar sorrindo feito tolos enquanto o petista descreve seus desejos audaciosos de governo? Não. 

Pode ser que o bolsonarismo está fora das mentes desses neoliberais, mas o neoliberalismo continua muito, muito forte.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

LITERATURA DESCARTÁVEL

Nas minhas andanças cotidianas, vejo que as pessoas estão se livrando de obras que haviam sido best sellers  neste mercado analgésico que é o da comercialização de livros. Dias atrás, em Niterói, numa dessas caixas de doação de livros nos pontos de ônibus, vi muitos livros da série 50 Tons de Cinza , espécie de erotismo milenial cheio de suspense. No último dia 10, foi a vez de uma sacola deixado pela vizinhança para o recolhimento de descartáveis. Como era domingo, a sacola eu tive que pegar para botar embaixo no prédio, porque é proibido deixar material reciclável na escadaria nesse dia da semana. Por curiosidade, eu vi o conteúdo. Livros juvenis banais, desses que o calor do momento faz badalação intensa, mas o tempo condena ao esquecimento mais fúnebre, e o Floresta Encantada , "clássico" dos "livros para colorir". Tudo literatura analgésica, em que palavras como Conhecimento e Saber são praticamente inexistentes. São muitos vampiros estudantis, muitos cavaleiro...

O POPULARESCO MILIONÁRIO E A MPB PAUPERIZADA

O "HUMILDE" ÍDOLO BREGA-POPULARESCO JOÃO GOMES, CANTOR DE PISEIRO, É DONO DE IMÓVEIS COM VALOR SUPERIOR A R$ 5 MILHÕES. A campanha do “combate ao preconceito” queria nos fazer crer que a bregalização era a “cultura do povo pobre por excelência” e que seus ídolos eram coitadinhos em busca de um lugar ao Sol Tão Bonito da Música Popular Brasileira. Narrativas chorosas, que chegaram a contaminar a mídia esquerdista, lutavam para que o jabaculê musical de hoje se tornasse o folclore de amanhã. Mas a realidade mostra que os verdadeiros pobres e discriminados não estão na música popularesca facilmente tocada nas rádios, mas na MPB acusada de ser "purista", "elitista" e "higienista". Dois fatos recentes demonstram isso. Foi revelado que o cantor de piseiro João Gomes, que tentou se vender como pretensa “renovação” da MPB, apesar de sua gritante mediocridade artística, tem um patrimônio milionário com várias propriedades. Com apenas 23 anos, é dono de um...

A HIPOCRISIA DA BURGUESIA ILUSTRADA QUANTO AOS EMPREGOS PRECÁRIOS

OS LULISTAS NÃO PERCEBEM QUE O QUE CRESCEU EM EMPREGO FOI O TRABALHO PRECÁRIO, COMO O DOS TRABALHADORES DE APLICATIVOS, COM REMUNERAÇÃO PEQUENA E INCERTA? O negacionismo factual não gostou das críticas que se fez ao governo Lula sobre a priorização do trabalho precário nas políticas de emprego, enquanto o presidente fazia turnê pelo planeta deixando até o combate à fome para depois. Temendo ficar sem o protagonismo mundial que permitiria à burguesia ilustrada brasileira ter o mundo a seus pés, o negacionista factual, o porta-voz da elite do bom atraso, lutou para boicotar textos que desmascaram os “recordes históricos do Efeito Lula”, como no caso dos empregos que pagam um ou dois salários mínimos. Apesar de sua postura “democrática e de esquerda” e de sua “defesa da liberdade humana com responsabilidade” - embora se vá entender que essa defesa “responsável” inclui atos como fumar cigarros e jogar comida no lixo - , de vez em quando explode nos corações do negacionista factual o velho ...

AS RAZÕES PARA O DESGASTE DE LULA

Nos últimos dias, Lula está preocupado com seu desgaste político, marcado pela aparente ascensão de Flávio Bolsonaro nas supostas pesquisas de opinião. Perdido, Lula tenta correr contra o tempo lançando medidas e discutindo meios de reforçar a propaganda de seu governo. Lula, em entrevista há poucos dias com a mídia solidária - Brasil 247, Diário do Centro do Mundo e Fórum - , afirmou, exaltando o terceiro mandato, que o quarto será "melhor que o terceiro" e que o Brasil dará "um salto estrutural" no próximo mandato, com a "transformação do país em uma nação desenvolvida, apoiada em crescimento econômico, inclusão social e fortalecimento institucional". É sonhar demais para um país que social e culturalmente está bastante deteriorado. O terceiro mandato de Lula tornou-se o mais medíocre dos três. Ambicioso, mas pouco produtivo. Com muita grandiloquência e poucas e mornas realizações. Muita festa e pouca reconstrução. Colheita sem plantação. Muito falatório...

COMO O “JORNALISMO DE ESCRITÓRIO” DESQUALIFICOU NOSSA IMPRENSA

O JORNALISMO DE ESCRITÓRIO ATUA COMO UMA EXTENSÃO MAIS OU MENOS FLEXÍVEL DA GRANDE MÍDIA. Um dos fenômenos que se ascenderam no período de Michel Temer e que não foram superados é o “jornalismo de escritório”, versão mais radical da “liberdade de empresa” que definiu os padrões da mídia venal. Um jornalismo asséptico, insosso, inodoro, supostamente neutro mas com algumas posturas “críticas” que nem de longe deixam de comprometer o status quo. Ele se vende como “o jornalismo de novos tempos”, tido como “mais responsável” e que trata a notícia como um “produto”. Interage com a overdose de informação das rádios all news, que derrubaram todas as expectativas libertadoras do passado recente, passando a ser apenas versões remix dos telejornais da TV, sendo um jornalismo que, independente da qualidade, vale mais pela excessiva quantidade de notícias que impede o ouvinte de parar para pensar. O “jornalismo de escritório” tornou-se o sonho realizado dos barões da mídia desde os tempos do AI-5, ...

LULA DEIXA A MÁSCARA CAIR SOBRE OS "RECORDES HISTÓRICOS" DO EMPREGO

A NARRATIVA DO GOVERNO LULA SEGUE HOJE RIGOROSAMENTE O MESMO DISCURSO DE "CRESCIMENTO DE EMPREGO" QUE O GOVERNO MICHEL TEMER LANÇOU HÁ CERCA DE DEZ ANOS. Uma notícia divulgada pelo portal Brasil 247 acabou soando como um "fogo amigo" no governo Lula. A notícia de que a maior parte do crescimento do emprego, definido como "recorde histórico" e classificado como "Efeito Lula", se deve a empregos com um ou dois salários mínimos. O resultado, segundo o levantamento, ocorre desde 2023, primeiro ano do terceiro mandato do petista, candidato à reeleição. Só 295 mil trabalhadores foram contratados, no período, recebendo apenas um salário mínimo. A notícia foi comemorada pela mídia esquerdista, mas traz um aspecto bastante sombrio. O de que a maioria das contratações, mesmo sob a estrutura de trabalho formal sob as normas da CLT, corresponde ao trabalho precário, em funções como operador de telemarketing  e trabalhadores de aplicativos, funções conhecida...

COPA DO MUNDO E A PAIXÃO TÓXICA PELO FUTEBOL NO BRASIL

O bordão, de valor bastante duvidoso, que atribui o futebol como “única alegria do povo brasileiro”, tem um quê de ressentimento, de baixa autoestima disfarçada de orgulho e de altivez. E diz muito dessas emoções confusas, meio presunçosas, meio dotadas de falsa modéstia, que contamina a mente do brasileiro médio, perdido entre ser maioral e ser coitado. Diante da proximidade da Copa do Mundo, o fanatismo pelo futebol, que costuma ser regionalizado, se torna nacional. E aí vemos surgirem “torcedores de ocasião” a “vestir a camisa de CBF”, não mais por histeria bolsonarista, mas por outra histeria, a futebolística. No Rio de Janeiro, o futebol vira até pauta para assédio moral. E não é pela possibilidade de um patrão torcer pelo time diferente do seu empregado, pois aí eles acham até saudável fingir briguinha por causa do time de cada um. O drama cai contra quem não curte futebol, que acaba sendo vítima de desdém e até do risco de perder o emprego. Mas no resto do Brasil, se esse risco ...

O PREOCUPANTE PRECONCEITO SOCIAL NAS CONTRATAÇÕES DE EMPREGO

As empresas estão construindo suas graves crises e não percebem. Vivendo o imediatismo do prestígio, da visibilidade e da busca pelo lucro fácil e rápido, as empresas cometem um erro gravíssimo ao rejeitar currículos e a contratar gente com mais visibilidade do que talento, criando riscos de decadência a médio prazo. O escândalo do Banco Master não nasce da noite para o dia. Durante anos, o banco controlado pelo hoje presidiário Daniel Vorcaro viveu uma rotina harmoniosa de lucros abusivos, dentro de um clima de paz profissional que parecia eterno, até denúncias virem à tona gerando incidentes como os que vimos nos noticiários. O mercado de trabalho não consegue perceber que talento vem da alma e não de uma aparência atraente. Não vem de influenciadores capazes de gesticular e falar coloquialmente, mas isso é insuficiente para assumir tarefas técnicas como as de Analista de Redes Sociais, função que, desgastada, mudou seu nome para Analista de Marketing Digital. Não receber currículos ...

O FALSO ENGAJAMENTO DO POP COMERCIAL E DO BREGA-POPULARESCO

ACREDITE SE QUISER, MAS ULTIMAMENTE MUITA GENTE PENSA QUE "LUA DE CRISTAL", SUCESSO DE XUXA MENEGHEL, É UMA "CANÇÃO DE PROTESTO". O pop comercial de hoje vive seu complexo de superioridade. Seus fãs, dotados de muita arrogância, chegam a fazer ataques contra a música de qualidade. Acham que a chamada “música de sucesso” é superior só porque atrai um grande público jovem e que se sustenta pela forte presença nas redes sociais e nas páginas de celebridades (e subcelebridades). Embora se baseie estruturalmente no pop dançante dos anos 1980 e 1990, esse pop comercial, nos últimos anos, tenta iludir a opinião pública com um falso engajamento e uma falsa militância que fez até as pessoas, no Brasil, acreditarem que sucessos da axé-music e do pop infantil brasileiros fossem “canções de protesto”. E muita gente boa, de nossa crítica musical, embarca nessa armadilha. Do Bad Bunny ao BTS, de Xuxa Meneghel ao grupo As Meninas, a atribuição de falso engajamento sociopolítico e ...

AS ESQUERDAS MÉDIAS E A GOURMETIZAÇÃO DA MÚSICA BREGA-POPULARESCA

CENA DO MINIDOCUMENTÁRIO  MEXEU COMIGO , SOBRE A CENA DO ARROCHA EM SERGIPE. Diferente da porralouquice de gente como o professor baiano Milton Moura e seus “pagodes impertinentes” e do “filho da Folha” Pedro Alexandre Sanches brincar de ser “bom esquerdista”, ressurge um movimento de intelectuais e jornalistas que querem fazer renascer o “combate ao preconceito” da bregalização, agora sob o verniz da “objetividade”. A postura generalizada do “capitalismo musical” do músico baiano Rodrigo Lamore, colunista do Brasil 247, e as leituras do colunista Augusto Diniz da Carta Capital, numa linha parecida com a de Mauro Ferreira no portal G1, refletem essa onda de ‘“imparcialidade” na análise sobre música brasileira. No caso do Rodrigo Lamore, ele tenta generalizar a condição de “mercadoria” da música, como se não pudesse haver a função social, artística e cultural na atividade musical. Parece papo de ressentido. Se nomes popularescos, só para citar os da axé-music (o ensaísta também é mú...