Pular para o conteúdo principal

O RISCO DE FRACASSO DO LULISMO DIANTE DO BOLSONARISMO

PELA PRIMEIRA VEZ, VEJA FAZ UMA ABORDAGEM REALISTA SOBRE LULA.

Já avisei que o movimento Fora Bolsonaro fracassou por uma série de erros estratégicos.

Clima de festa, exagero no humor satírico, longo intervalo entre um protesto e outro.

Pessoas preocupadas em se fantasiar de jacaré ou se vestir de plumas e paetês, bancando dublê de humoristas.

Longos intervalos, de cerca de um mês e meio, entre uma manifestação e outra, o que acaba perdendo a empolgação.

As pessoas, preguiçosas, ficam presas na memecracia das redes sociais, todos se achando o Miguel Paiva de sua casinha, de sua bolha social.

O movimento Fora Bolsonaro acabou, como acabou também o Fora Temer, com Michel Temer completando o mandato rindo da cara do povo brasileiro.

Chega-se ao ponto de haver censura aos protestos, como a tentativa do Tribunal Superior Eleitoral de calar as vozes do Lollapalooza Brasil contra Jair Bolsonaro, que fez o pedido da censura.

O TSE depois viu que era uma interpretação equivocada das manifestações políticas e derrubou a censura.

Claro que governos monitorando protestos contra ele não são novidade.

A própria ditadura militar obrigou os organizadores da Passeata dos Cem Mil a pedir autorização para protestar, no Rio de Janeiro.

Não há uma força social para combater governos abusivos. Daí o Fora Bolsonaro ter se limitado a ser uma mera festa, que, por sinal, seus organizadores nem tinham muita disposição para realizar.

Todo mundo queria ficar em casa, na memecracia, como dublês de comediantes de Instagram. Achavam que, derrubando Carluxo, o "principe" bolsonarista das redes sociais, iria derrubar, por consequência, o pai dele.

Só que não. E Jair Bolsonaro, mesmo em férias, não tirava férias. Mesmo com jet ski, Bolsonaro era estratégico, até na folga ele trabalhava para manter sua visibilidade e manipular sua popularidade nas redes sociais.

Jair podia falar besteira, fazer bobagem, cometer baixarias. Embora houvesse um efeito negativo, Bolsonaro obtinha visibilidade, e podia habilmente manipular sua popularidade, na pior das hipóteses bancando a "personalidade polêmica" na Internet.

O que não é estratégico é a campanha de Lula e de seus seguidores, estes movidos de muita arrogância.

Boa parte da minha decepção de Lula está na arrogância de seus adeptos, subestimando a capacidade competitiva dos concorrentes.

Bem ou mal, Lula terá que enfrentar outros candidatos. É a regra do jogo democrático.

Os lulistas não podem dizer que a Terceira Via está morta, que qualquer um que viesse como terceiro-viável nasceu decadente e está irremediavelmente perdido.

Lula festejou a anunciada desistência de Moro em candidatar-se à Presidência da República, num dia como o de 30 de março, em que João Dória Jr. quase fez o mesmo e recuou.

Mas no começo de abril, e não é mentira, Moro afirmou que "nunca desistiu" de ser candidato a presidente da República, apesar das circunstâncias sugerirem isso.

Isso quer dizer que a Terceira Via respira, sim.

Foi essa arrogância e o clima de "já ganhou" de Lula, junto aos erros acima citados do movimento Fora Bolsonaro, que acabaram causando o efeito inverso.

Hoje Bolsonaro está se recuperando nas redes sociais. E está retomando a popularidade, diante dos erros de Lula.

Tudo porque Bolsonaro banca o grosseiro num dia, depois banca o assistencialista, depois banca o "tio do pavê", entretendo os jovens, e por aí vai. Ele é incompetente como governante, mas sabe ser estratégico.

Lula não é estratégico. Ele está cometendo erros que podem ser politicamente fatais.

A aliança com Geraldo Alckmin afastou muitos seguidores.

Afinal, apesar de Lula garantir que irá impor seu projeto político, as alianças com a direita moderada indicam o contrário.

Do lado dos direitistas moderados, há a afirmação de que Lula não fará um governo de esquerda, mas um governo muitíssimo moderado, bem mais do que os dois anteriores.

O mercado, empresários como Abílio Diniz, várias personalidades relacionadas ao poder econômico, todos estão dizendo que Lula "é moderado", o que poderia ser um alerta para as forças progressistas que acreditam que o "Lulão raiz dos sindicatos" irá governar o Brasil em 2023.

E esse é o tom da revista Veja, na edição de 30 de março de 2022, que fala de um "casamento por conveniência" entre Lula e Alckmin, que causa sérios problemas para as esquerdas.

As contradições são muito conhecidas: um passado de muitas trocas de farpas, o acolhimento entusiasmado do PSB ao ex-tucano.

Tudo indica que Lula fará concessões, e ele deixou pistas, apesar de negar isso. Certa vez, Lula disse que "pobre custa pouco no orçamento".

Sobre a cobrança de impostos rigorosos para os ricos, Lula não irá fazer. Isso é óbvio. Ele não vai desagradar seus novos aliados.

Alckmin defendendo taxação dos mais ricos? Ele disse isso, mas não levemos a sério. O ex-tucano é representante do poder empresarial na política brasileira.

Juntemos isso com o esnobismo dos lulistas contra a Terceira Via que só está começando a se desenhar.

E o resultado? A possibilidade de crescimento de Jair Bolsonaro.

A "maioria silenciosa" de trabalhadores e desempregados que nem sabe se a mídia progressista existe ou não irá votar em Bolsonaro ou, havendo Terceira Via, em Moro, Dória ou quem vier de destaque.

Enquanto Lula está em clima de festa ao lado de identitaristas de classe média e algumas cúpulas dirigentes de movimentos sindicais, temos dramas de gente vivendo nas verdadeiras favelas, aquelas em que o Carnaval é uma miragem e não o cotidiano.

Favelas da vida real onde policiais racistas atiram a esmo, matando inocentes. Favelas da vida real que encaram deslizamentos de terras, falta de saneamento básico, desemprego e outras tragédias humanas.

E os moradores de rua? Será que eles só precisam de marmitas?

Lula sonha demais e idealiza demais, querendo voar demasiado alto ao lado daqueles que irão lhe cortar as asas.

É por essas contradições que Lula está começando a perder e deixar de ser o "invicto" de meses atrás.

Lula está pagando pelo clima de "já ganhou" que ele não assume de sua parte, só atribuindo o vício aos seus seguidores e parceiros.

E os anti-bolsonaristas pagam o preço de não terem feito manifestações de verdade.

Dias difíceis virão, para o desespero daqueles que acreditam que tudo ficou fácil mesmo com os efeitos ainda vivos do golpe político de 2016.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

DOUTORADO SOBRE "FUNK" É CHEIO DE EQUÍVOCOS

Não ia escrever mais um texto consecutivo sobre "funk", ocupado com tantas coisas - estou começando a vida em São Paulo - , mas uma matéria me obrigou a comentar mais o assunto. Uma reportagem do Splash , portal de entretenimento do UOL, narrou a iniciativa de Thiago de Souza, o Thiagson, músico formado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) que resolveu estudar o "funk". Thiagson é autor de uma tese de doutorado sobre o gênero para a Universidade de São Paulo (USP) e já começa com um erro: o de dizer que o "funk" é o ritmo menos aceito pelos meios acadêmicos. Relaxe, rapaz: a USP, nos anos 1990, mostrou que se formou uma intelectualidade bem "bacaninha", que é a que mais defende o "funk", vide a campanha "contra o preconceito" que eu escrevi no meu livro Esses Intelectuais Pertinentes... . O meu livro, paciência, foi desenvolvido combinando pesquisa e senso crítico que se tornam raros nas teses de pós-graduação que, em s...

MÚSICA BREGA-POPULARESCA CRESCEU DEMAIS E SUFOCA RENOVAÇÃO NA MPB

"EMEPEBIZAR" O SOM BREGA-POPULARESCO, COMO NO CASO RECENTE DO ÍDOLO DO PISEIRO, JOÃO GOMES, SOA FORÇADO E CANASTRÃO E NÃO RESOLVE A CRISE QUE VIVE A MÚSICA BRASILEIRA DE HOJE. Uma demonstração de que vivemos numa situação de devastação cultural é o crescimento das várias tendências da música popularesca, numa linhagem que começou com os primeiros ídolos cafonas e hoje se desdobrou em fenômenos como o piseiro, a sofrência, o trap e o arrocha. Depois que vieram críticos musicais alertando sobre a gravidade da supremacia popularesca nos anos 1990 - com Ruy Castro e os finados Arnaldo Jabor e Mauro Dias mostrando sua contundente e nem sempre agradável lucidez - , houve uma reação articulada pelo tucanato cultural, envolvendo setores da USP ligados ao PSDB, as Organizações Globo e a Folha de São Paulo e, é claro, o empresariado da Faria Lima. Eles montaram uma narrativa que toma emprestado jargões da militância terceiro-mundista, usados de maneira leviana e tendenciosa pela intele...

A VERDADE SOBRE A “INTERAÇÃO” ENTRE MPB E POPULARESCOS

JOÃO GOMES E JORGE DU PEIXE, DA NAÇÃO ZUMBI - O "coitado" da situação não é o que muita gente imagina ser. Ultimamente, ou seja, nas últimas semanas do ano passado, a mídia noticiou com certo entusiasmo as apresentações da banda de mangue beat Nação Zumbi com a participação do cantor brega-popularesco João Gomes, que agora virou um queridinho de setores da imprensa cultural, da intelectualidade e de setores da MPB mainstream. João virou o hype da vez, desfilando ao lado de descolados de plantão. Dançou com Marisa Monte, fez dueto com Vanessa da Mata e Gilberto Gil e até com som de arquivo de Luís Gonzaga. E fez até pocket show em uma livraria, para reforçar esse novo marketing do popularesco pretensamente cool. Isso lembra o que foi feito antes com Zezé di Camargo, vinte anos atrás. Então lançando o filme Os Dois Filhos de Francisco, do finado diretor Breno Silveira, Zezé e seu irmão Luciano gravaram um disco duetando com artistas de MPB e circulou nos meios artísticos e inte...

O BRASIL CONTINUA CULTURALMENTE DEGRADADO

WAGNER MOURA EM CENA DE O AGENTE SECRETO , FILME DE KLEBER MENDONÇA FILHO. A premiação dada ao filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho como Melhor Filme Estrangeiro e de Melhor Ator para Wagner Moura, no Globo de Ouro (Golden Globe Awards, em inglês) pode ser animador para nosso cinema e incentiva reflexões a respeito de políticas culturais para o nosso país. Mas isso não significa que o Brasil esteja em um excelente cenário cultural. Nosso cenário cultural está péssimo, deteriorado. O que preocupa é que casos pontuais como os de O Agente Secreto e outro filme, Eu Ainda Estou Aqui, de Walter Salles Jr., não dão o diagnóstico total de nossa cultura, já que temos uma cultura de qualidade, sim, mas ela dificilmente rompe as bolhas sociais de seu público específico. Os dois filmes são mais exceção do que regra. Mas exceção é uma van que todos querem que tenha a superlotação de um trem bala de trinta metros de comprimento. Todos querem soar como exceção a si mesmos. E aí, no caso d...

“COMBATE AO PRECONCEITO” ENFRAQUECEU LUTAS POPULARES NO BRASIL

PRETENSO ATIVISMO SOCIOPOLÍTICO, O "FUNK" ENGANOU AS ESQUERDAS, QUE ENDOSSARAM NARRATIVAS PRODUZIDAS PELOS GRUPOS GLOBO E FOLHA. A campanha do “combate ao preconceito”, que gourmetizou os fenômenos popularescos sob a desculpa de ser o “popular com P maiúsculo”, foi uma guerra cultural tramada pela Globo e Folha para enfraquecer as lutas populares no Brasil e permitir a retomada reacionária de 2016. Mordendo a isca, a mídia alternativa, seduzida pelo capataz freelancer de Otávio Frias Filho, Pedro Alexandre Sanches, que passeou pelas redações da imprensa de esquerda para fazê-la pensar culturalmente “igual à Ilustrada”, quase faliu ao empoderar supostos fenômenos populares que são patrocinados pelo latifúndio, pelas grandes corporações e pelas oligarquias midiáticas. A bregalização, ao ser vista como um pretenso ativismo sociopolítico, sob a desculpa da “provocatividade” e da “reação contra o bom gosto”, desviou as classes populares da participação do projeto progressista de L...

MERCADO REABILITA MPB, MAS TENTA JUNTÁ-LA AO BREGA-POPULARESCO

  NO INTERIOR, A MPB ENCONTRA DIFICULDADES DE ACESSO DEVIDO À SUPREMACIA DOS RITMOS POPULARESCOS LOCAIS. A reabilitação da MPB entre o público médio ocorre muito gradualmente e de maneira tímida. Sinaliza uma possibilidade de nomes como Novos Baianos, Gal Costa, Maria Bethânia, Caetano Veloso e Gilberto Gil, além de outros como Zé Ramalho, Milton Nascimento e Elis Regina, serem aceitos largamente por um público que, antes, dependia das trilhas de novelas para ouvir alguma MPB mais acessível. No entanto, se esse processo é um progresso diante da intolerância do "combate ao preconceito" em relação à MPB - que o "deus" da intelectualidade "bacana", Paulo César de Araújo, definia jocosamente como "MPBzona", fazendo um trocadilho entre a suposta grandiloquência e a palavra "zona", sinônimo de "bagunça" - , ele também não é gratuito, pois a supremacia brega-popularesca quer usar a MPB para uma associação forçada, visando interesses ...

NAÇÃO WOODSTOCK REJEITARIA “EVIDÊNCIAS” E OUTROS SUCESSOS “DESCOLADOS”

Anteontem fiquei abismado quando uma moça, presumivelmente com 19 anos estava no celular ouvindo “Lula de Cristal”, sucesso de Xuxa Meneghel, nas redes sociais. Gente com idade para entrar na faculdade pensando que sucessos popularescos como este, da lavra de Sullivan & Massadas, são “vanguarda”. Mas isso é fichinha para uma sociedade que chama “Evidências”, na versão de Chitãozinho & Xororó, de “clássico” e acha que João Gomes, ídolo do piseiro, é “a nova sensação da MPB”. Vivemos uma catástrofe cultural e muita gente vai dormir tranquila com esse triste cenário. Ainda temos uma sutil repaginação do É O Tchan que, diante da má repercussão da adultização de crianças, tem que agora se vender para o público universitário, tentando parecer ‘cult’ para um país em que muitos adoram “tomar no cool”. Ver que canções comerciais como "Evidências", "Lua de Cristal", "Ilariê", "Xibom Bom Bom", "Dança do Bumbum", "Segura o Tchan",...

ASSALTO NA OSCAR FREIRE É UM RECADO PARA “ANIMAIS CONSUMISTAS”

No último dia 14, um assalto seguido de tiroteio ocorreu numa padaria no entorno da Rua Oscar Freire, no bairro de Cerqueira César, na Zona Sul de São Paulo, próxima à Avenida Paulista. A padaria é a Lé Blé Petit, situado na rua próxima, a Rua Padre João Manuel. O que assusta é que o incidente ocorreu numa tarde bem movimentada, no horário pouco antes de 16 horas. Houve correria no local. Três ladrões fugiram, embora um deles tenha sido baleado e outro, atropelado. Alguns bens roubados foram recuperados. O fato nos põe a pensar fora do velho moralismo elitista costumeiro. Afinal, a sociedade burguesa, e falamos da burguesia enrustida, a burguesia de chinelos Havaianas, invisível a olho nu, comete seus abusos. Ganha dinheiro demais, embora finja ser pobre, e já está batendo o ponto na defesa da reeleição de Lula, até porque este virou um político pelego. Essa elite bronzeada quer demais para si. Acha que, só por ter liberdade para consumir e se divertir, pode abusar da dose. Já transfor...

O SENTIDO EXTREMAMENTE GRAVE DE UMA ACUSAÇÃO CONTRA QUEM REJEITA O “FUNK”

O "FUNK" NÃO FICARIA MELHOR SE SEUS RESPONSÁVEIS E SEU PÚBLICO FOSSEM DE ETNIAS GERMÂNICA E HOLANDESA. Os casos de Thiagsson e Fernanda Abreu revelam o desespero e a paranoia de quem apoia o “funk” e não consegue convencer através de argumentos equilibrados. Forçando a barra, os apoiadores do “funk” agora deram para acusar de “racistas” quem rejeita o ritmo. Isso é tão leviano quanto um vizinho denunciar à polícia um cidadão que levou dois dias para devolver uma furadeira usada para a reforma da casa. Acusar os críticos do “funk” de racistas é de uma gravidade extrema. Afinal, trata-se de um juízo de valor leviano, baseado no etnocentrismo daqueles que defendem o “funk” é que já possuem um padrão pré-determinado de pobreza, uma pobreza ao mesmo tempo “pobre” e “higiênica” dentro de um padrão de “periferia” que envolve favelas, bares decadentes e velhos, ruas sem asfalto, uma miséria tornada espetáculo em todo o imaginário do brega e do “popular demais” em várias de suas verte...

MTV E RADIALISMO ROCK SÃO FORMATOS DIFERENTES, MAS TIVERAM UMA SINA COMUM

Refletindo sobre o fim da MTV, lembremos que o rótulo de “a TV do rock” é completamente estúpido e equivocado, pois isso restringe o valor e o horizonte cultural que a Música Television exerceu ao longo de sua existência. No Brasil, atribuição de “TV do rock” não só foi equivocada como acabou derrubando outro formato genial que há décadas não irradia mais: o formato de rádio de rock, assim, com a preposição “de”. Confundir o formato da MTV com o de rádio de rock, nos anos 1990, foi crucial para desnortear emissoras pioneiras, inclusive a Fluminense FM, que depois foram extintas uma a uma, enquanto, até hoje, o formato de rádio de rock até agora nunca foi introduzido de forma adequada em muitas capitais do Brasil, até hoje esperando, em vão, o aparecimento de uma Flu FM local. Enquanto isso, quem se deu bem foi a 89 FM, de uma família apoiadora da ditadura militar e líder do empresariado da Faria Lima que, tomando “emprestado” o estilo e a linguagem da Jovem Pan - no fundo, os Camargo, ...