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BRASIL NÃO PRECISA DE UM "CIDADÃO DO MUNDO", PRECISA DE UM GOVERNANTE

NA VÉSPERA DA COROAÇÃO, O REI CHARLES III DA GRÃ-BRETANHA RECEBE O PRESIDENTE DO BRASIL, LUÍS INÁCIO LULA DA SILVA, E A PRIMEIRA-DAMA, ROSÂNGELA DA SILVA, A JANJA.

O que incomoda no atual governo Lula é que, com o Brasil precisando de recuperação, o presidente vai viajar, rompendo com a promessa de priorizar o combate à fome e à miséria, substituído pela política externa. Esse erro só é considerado "acerto" para uma parcela da sociedade que está bem de vida. Afinal, não são os 33 milhões de brasileiros famintos que usam redes sociais a toda hora, não é mesmo?

Não que Lula não mereça ser um "cidadão do mundo". Até merece, mas deveria esperar. A situação do Brasil não é como no final de 2006, quando Lula tornou-se sucessor de si mesmo e, com isso, foi fácil governar com uma situação bastante favorável. Não é o caso do final de 2022, quando Bolsonaro encerrou seus quatro anos de desgoverno e irresponsabilidade levados às últimas consequências.

Se Lula é conhecido como o novo "pai dos pobres", ele os abandonou. Um pai que vê um filho muito doente prefere ficar ao lado dele, evitando sair, mesmo que seja para falar com os melhores amigos ou para ir a compromissos previamente marcados. Cancelaria-os todos, e ficava ao lado do filho até este se restabelecer e recuperar a saúde.

Mas Lula entrou no clima de festa e seu atual mandato, que peca pela falta de um programa de governo - bússola necessária e obrigatória para a atividade governamental de quem for eleito - , já começou com viagens, enquanto o presidente perdia tempo com promessas, propostas e opiniões, muitas opiniões. E todos têm que saber que promessas, propostas e opiniões não são ações, assim como existe uma diferença entre dizer "pretendo fazer" e "já fiz".

Lula enrolou os brasileiros ao descrever, como realizações, propostas e promessas do que ele ainda vai fazer. Se pessoas que usam as redes sociais e se dizem "esclarecidas" não conseguem discernir os tempos verbais, entendendo o futuro do subjuntivo como se fosse o presente do indicativo, então o nosso país está muitíssimo pior.

Recentemente, Lula compareceu à cerimônia de coroação do Rei Charles III da Grã-Bretanha e teve um encontro político com o monarca. Em seguida, Lula se encanou em liderar a campanha pela soltura de Julian Assange, o jornalista que vazou informações secretas do governo estadunidense através do Wikileaks, que está preso desde 2019. Lula também insiste em ser o mediador da paz entre Rússia e Ucrânia. E ainda vai viajar para o encontro do G7 em Tóquio.

É como o referido pai da citação acima, que larga o filho doente mas cuida de resolver brigas de outras vizinhanças. Lula quer ser o "cidadão do mundo", buscando artificialmente um protagonismo histórico, de maneira calculada e tendenciosa. Não se trata de Lula fazer um papel histórico, mas fabricar façanhas que trariam aparentes prodígios históricos.

É como se a História fosse uma empregada de Lula, que lhe fizesse o favor e adiantasse, para os tempos presentes, o julgamento que só a posteridade pode garantir. Adeptos de Lula, mesmo jornalistas conceituados que, no momento, abandonaram o dever de aula e passaram a recrear na tietagem ao presidente do Brasil, chegam a exagerar dizendo que Lula é "maior" do que Getúlio Vargas, o que é impossível, porque as realizações do antigo governante foram numerosas e impactantes.

Lula fez boas realizações nos mandatos anteriores. Foram bons, tiveram progressos. Mas nada que fosse algo revolucionário, até porque as conquistas sociais foram frágeis e desfeitas durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro. Além disso, muito do que Lula implantou na verdade é derivado de realizações feitas a partir de Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek.

Hoje, no entanto, Lula peca pelo pretensiosismo e pelas diversas contradições. Achou que poderia fazer um governo de esquerda usando as alianças neoliberais, sob o pretexto da "frente ampla", como trampolim eleitoral, e agora precisa negociar apoio da Câmara dos Deputados, "comprando" base de apoio.

Agora Lula parece ter pouco cuidado com a reconstrução do Brasil e quer aparecer para o resto do mundo. Só que o Brasil não espera para ser recuperado. Lula vai reconstruir a Ucrânia primeiro? De que adianta o Brasil estar no G7, na OCDE, na OTAN, nu assento permanente do Conselho de Segurança da ONU, se aqui no nosso país o povo tem que pagar contas caras, os preços dos alimentos não baixam e o mercado de trabalho prefere contratar comediantes influencers do que profissionais de vibra e visão crítica do mundo?

O Brasil não precisa de um "cidadão do mundo". Os brasileiros não querem ver Lula bancando a celebridade no exterior. Lula não foi eleito para ser o Rei do Pop da geopolítica multilateral. Lula foi eleito para governar o país, de preferência falando menos, prometendo e propondo menos e agindo mais. O Brasil, devastado com tantas crises, merece respeito.

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