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SOLTEIROFOBIA ESTIMULA ATÉ O FEMINICÍDIO

REGINALDO, PERSONAGEM DE UM EPISÓDIO DO PICA-PAU DE 1961 - UM DOS SÍMBOLOS DO ESTEREÓTIPO DO "INCEL".

Solteirofobia, no Brasil, é uma realidade marcada por preconceitos tão fortes e agressivamente ridículos que beiram à mais insana debilidade mental. O estereótipo do "Incel", o "celibatário involuntário", é tão confuso em sua cegueira discriminatória que acaba tratando com igualdade um psicopata como o falceido Ed Gein, do massacre da serra elétrica, e o fictício personagem de animação Reginaldo (Reginald, no original), de um episódio do seriado do Pica-Pau de 1961, tão conhecido pelo público de hoje.

O "Incel" é concebido de maneira louca, mesmo. É o rapaz de mais de 35 anos que ainda mora com os pais, mas que, de repente, se transforma no garoto de 13 anos responsável por uma chacina escolar que matou professoras e alunos. É o rapaz que nem em sonhos consegue conquistar uma mulher que lhe fosse de razoável interesse, mas que é detido acusado de bater numa namorada que, pelo jeito, surgiu do "nada".

Outra barbaridade, espécie de arremedo caricatural dos psicopatas ficticios do cinema - como o Alex de Laranja Mecânica (Clockwork Orange), icônico filme de 1971 de Stanley Kubrick, assassino que ouvia a alegre canção "Singin' In the Rain" - , é atribuir como "terroristas" rapazes que ficam em casa nos fins de semana, tomando achocolatado em pó e comendo biscoitos, vendo desenhos animados ou praticando jogos eletrônicos no computador. Preconceito mais grosseiro do que isso, impossível. "Legal" é o homem passar as noites de fins de semana no bar se entupindo de bebida alcoólica.

O preconceito contra pessoas solteiras faz com que haja também gafes cometidas por agressores. É muito conhecida a prática de rapazes valentões "zoarem" com homens que se admitem "encalhados", com humilhações e xingações bastante ofensivas.

Só que os agressores, através dessa humilhação, escondem os fracassos deles, muitas vezes recém-saídos de tentativas fracassadas de conquista de mulheres ou de algum fracasso no momento do ato sexual (a popular "brochada"). E, quando casados, muitos agressores digitais são flagrados por suas mulheres no momento do linchamento digital e, não raro, essas mulheres decidem divorciar desses homens, porque elas não vão querer ser mulheres de quem ridiculariza a solteirice alheia.

Mesmo quando a solteirice é vista de maneira "positiva", ela é marcada pela idiotização hedonista e irresponsável. O homem solteiro é visto como alguém que só quer saber de curtição, sexo, noitada, diversão, e não está aí com a vida. A mulher solteira fica presa entre os estereótipos da mulher festeira e da mulher-objeto que só pensa em "sensualizar", até durante velórios ou em lugares de frio extremo.

Ou seja, mesmo quando se fala na vida de solteiro como "uma das coisas boas da vida", as pessoas que seguem essa opção são consideradas "idiotas" ou tratadas como se assim fossem, no caso de evitar a pronúncia deste adjetivo negativo.

O que se pode dizer é que a dicotomia casado versus solteiro se encaixa perfeitamente na concepção que o sociólogo Jessé Souza fala em relação a espírito versus corpo. A pessoa casada é o "espírito", a pessoa "racional", "impessoal" e "responsável", destituída de "paixões". Já a pessoa solteira é o "corpo", considerado "sensual", "emotivo", "corrupto", "irracional".

Há uma pressão enorme para os homens terem alguma mulher como companheira. E essa pressão atinge níveis tirânicos, em que pese o suposto prazer que é o homem namorar uma mulher. O Brasil é uma "arca de Noé" social e o homem que decidir ficar sozinho é alvo de muita humilhação, a ponto de haver verdadeiros assassinatos de reputação.

A solteirofobia, que é esse processo de discriminar e humilhar as pessoas solteiras, no caso dos homens é algo que se torna muito perigoso, vide a questão dos feminicídios, que devemos ver como fenômenos que ocorrem motivados por algo mais do que um simples instinto machista.

Os feminicídios ocorrem por dois motivos bastante decisivos, mas nunca sequer admitidos pela maioria da chamada "opinião pública". Um é o monopólio dos bares e boates para a busca de vida amorosa, ambientes tóxicos cheios de gente estranha, não sendo os "ambientes fraternos" que o mershandising de restaurantes e casas noturnas, disfarçadas de matérias jornalísticas veiculadas em noticiários, tanto alardeia para pessoas afoitas em diversão e desinformadas das armadilhas sociais da vida.

Outro motivo é que, no Brasil, existe uma cultura que força o homem a ter uma mulher, mesmo que seja através de um casamento de fachada que, na melhor das hipóteses, produz casais de meros amiguinhos. Na pior das hipóteses, porém, os homens acabam pegando as mulheres que eles não necessariamente gostam, optando por pegar as primeiras que aparecem no caminho, só porque elas são fáceis de encontrar, a única afinidade possível é estarem num mesmo lugar a maior parte do tempo.

A maioria dos feminicídios ocorre porque os casais não têm afinidade. Não ter afinidade só é maravilhoso para os internautas "isentos" nas redes sociais, espécie de "Monark do bem", que acreditam nesta tese com a tranquilidade de quem acredita que nazistas e humanistas podem debater de forma saudável.

Junta-se um casal sem amor. O culturalismo que temos no Brasil apela para isso: casais sem amor e sem afinidade têm prioridade de união. Divergências irreconciliáveis só são maravilhosas para o voyeurismo hipócrita das redes sociais, iludidos com a utopia religiosa de que um milagre irá resolver essas diferenças pesadas, o que é muitíssimo raro de acontecer.

A solteirofobia força uma parcela de homens a ter mulher a contragosto. É mais uma etiqueta social. Mas a gente vê que esses homens quase não ficam com suas mulheres: boêmios o tempo todo tomando cerveja, empresários dedicando a suas empresas, policiais ocupados na segurança, juristas e advogados ocupados em analisar casos. E muitos homens formalmente casados vivendo a vida de solteiros, longe de suas mulheres que só reencontram praticamente perto da hora de dormir.

O machista nunca foi um homem capaz de amar uma mulher. Na Antiguidade clássica, machista só gostava de homem. Só o Catolicismo medieval fez o machista ter a obrigação de se relacionar com uma mulher, agravando a condição subalterna da fêmea que a Antiguidade já impusera a ela.

A solteirofobia faz com que os homens acabem pegando mulheres não por amor, mas por raiva e contragosto. A obrigação de ter uma mulher acaba produzindo nos homens sentimentos tóxicos para compensar a imposição social. 

A criminalização da vida de homem solteiro força os homens a ter mulher na marra, e, como pegam as primeiras que aparecem, na menor divergência esses homens eliminam suas mulheres. E muitas das mulheres que são mortas dariam excelentes namoradas para outros homens.

Se não houvesse solteirofobia e desse a liberdade para homens viverem solteiros, certamente teríamos menos feminicídios. E vamos combinar que muitos dos "celibatários involuntários" fizeram essa escolha (menos involuntária que o preconceituoso nome sugere) porque não tiveram as mulheres que gostariam de ter. Mulher não é capim, mulheres têm personalidade e afinidade é essencial para uma relação.

O problema é que muitas mulheres são casadas com outros homens e, muitas vezes, perdem a vida por um conflito qualquer. Elas poderiam ser namoradas de homens certos, mas estes, sem poder encontrar alguma companheira, decidem ficar solteiros e acabam descobrindo a serenidade de viver sozinho para fugir da toxicidade que é a vida social no Brasil.

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